AS TRÊS FASES DA CURA DE UMA RELAÇÃO TÓXICA

Luiz Mateus Pacheco

O abuso psicológico é uma das piores agressões que uma pessoa pode sofrer. Enquanto a violência física pode marcar e machucar o corpo, talvez até quebrar os seus ossos, a violência subjetiva do assédio moral vai quebrar a própria alma. Como uma toxina, esse tipo de relação vai destruindo de dentro para fora. É por isso que, em seu extremo, deixa sua vítima com a sensação de habitar uma casca vazia. Sobreviver a isso é uma árdua tarefa. Ela é possível, entretanto. Conheça aqui as três fases da cura do abuso perverso narcisista, construídas através de centenas de relatos e histórias que acompanhei. Lembrando que, embora se remeta sempre ao feminino, o texto vale para qualquer gênero ou orientação sexual.

1. A FASE DA VÍTIMA

Seja debaixo da pesada malha do enredamento (manipulação a fim de seduzir e paralisar a vítima) ou quando dá seus primeiros passos para longe dela, a vítima se torna vítima quando emerge em sua consciência os primeiros indícios do abuso que vivenciou. Nesta fase, se instala no seu coração um profundo conflito: seus pensamentos se tornam dissonantes (dissonância cognitiva) e ela não sabe mais no que acreditar. Pode ser verdade isso tudo? Ou seria coisa de sua cabeça?

Essa dúvida cruel, um aspecto saudável de seu ser, pouco a pouco vai crescendo. Um misto de raiva amarga e amor venenoso se misturam em suas veias. Terríveis pesadelos podem assolar suas noites de sono neste período. São sonhos de morte e assassinato violentos que trazem para o concreto a agressão que viveu silenciosa e subjetivamente. Ela não sabe mais o que fazer: uma parte de si sabe que, para sobreviver, precisa se afastar, mas a outra sente que vai morrer se fizer isso. Como superar esse dilema?

A vítima pode recorrer a lamentos insistentes, como se clamasse por uma ajuda para aliviar a sua dor. Ela repete, repete, repete em palavras aquilo que sofreu porque ela mesma não consegue entender. Assim, ela se ressente (re-sente). Encontra conforto quando descobre que alguém viveu algo semelhante.

“Por que eu?, Como aguentei tanto?, Por que tive esse azar?” – ela se pergunta incessantemente. A vítima precisa entender o abuso, mas o que ela não percebe é que todas as suas perguntas a levam de volta ao abusador. A verdade é que, mesmo à distância, a vítima ainda orbita em torno dele.

A vítima está fraturada demais. No seu peito mora um vazio insuportável. Ela não sabe mais preencher esse buraco com outra coisa senão o abusador e o sofrimento. A vítima esqueceu como viver por si mesma. Por isso, precisa o tempo todo retornar a ele. Entretanto, este é um processo de regeneração gradual.

Então ela elege estratégias importantes, como o evitar qualquer contato. Mas, mesmo no contato zero, ainda é vítima, porque se vê obrigada a programar a sua vida em função do abusador. Existem ambientes que não pode frequentar. Existem páginas que se vê forçada a bloquear. Ela foge tanto que, pensando em se afastar, está sempre em função do abusador. Sua vida é um verdadeiro inferno que oscila entre o desejo insuportável de saber como ele está – do desfecho da sua história, das novas vítimas e de avisar as desavisadas – e a necessidade agora vital dessa distância.

A vítima se preocupa em sobreviver, mas seu coração arde em chamas clamando por justiça e reparação, que busca na forma de entendimento ou da desastrosa vingança. Não se passa um dia sem que não pense no abusador. A sensação é de uma literal abstinência. A vítima é sempre passiva em relação ao abusador.

2. A VÍTIMA SE TORNA SOBREVIVENTE

A vítima passa a ser sobrevivente quando descobre que, para se curar, precisa retomar a sua vida. Sua mente já não está mais obcecada pelo seu agressor e ela já pode se ver longe dele. Os reflexos das agressões vividas ainda persistem, entretanto.

Como a sobrevivente se torna mais forte, memórias antes reprimidas no seu inconsciente começam a emergir. Ela passa a ver o abuso com clareza, especialmente aspectos que antes ela não podia se dar conta. A dor que vem junto com esses pensamentos pode ser forte, o que a remete a eventuais recaídas.

Ela aprende a administrar essas feridas. Às vezes, faz isso com algum excesso: tem medo de se relacionar de novo e criou uma certa distância com o mundo amoroso; ou, por outra via, o enfrenta de maneira contrafóbica ao se relacionar fácil demais algumas vezes com muitos parceiros.

Sonhos onde a sobrevivente se vê de novo com o parceiro abusivo podem povoar algumas de suas noites, mas apenas para que ela acorde e diga “ufa, ainda bem que não é mais realidade!”. Ela já está mais firme. Entende que a distância é melhor e compreendeu que o contato zero não precisa ser uma ditadura em sua vida, já que o verdadeiro contato é aquele que ela permite chegar até ela.

Mesmo assim, eventuais rumores ou cavalos de troia perversos podem tirar a sua paz. Palavras como “desespero” somem de seu vocabulário e a sua perturbação nesses momentos não passa de um pequeno tempo.

As gavetas do passado ainda não estão completamente fechadas e ela precisa, vez ou outra, retomar aspectos do que aconteceu. Sua compreensão se expande, assim como sua consciência.

A sobrevivente é, ainda, sobrevivente de algo. Ela carrega essa cicatriz, entende que precisa se reinventar, mas ainda está atada a esse passado que agora parece distante. Ela ainda sente que precisa dar a ele algum sentido. No fundo de sua mente, ainda podem existir desejos de reparação escondidos na forma dos “e se não tivesse o conhecido…” ou “como queria ter feito diferente”.

Ela não mais se reconhece como vítima passiva, mas ainda lhe falta a liberdade da atividade.

3. O PODER DO “SI MESMA”

A sobrevivente se torna si mesma quando descobre que aquela alma que acreditou ter sido roubada, na verdade, sempre esteve ali mesmo, dentro dela. Ela se torna si mesma quando desperta para as belezas do seu ser e se torna, então, ativa, protagonista de si mesma. A “si mesma” entende que teve um papel na história que viveu. Ela percebe que existem aspectos seus que favoreceram o abuso. Não confunda isso com culpa: ela não fez por intencionalidade; não buscou, como seria na masoquista, que ativamente viu esse sofrimento como uma necessidade. Em vez disso, o que a “si mesma” entende é que ela teve responsabilidade.

O que a “si mesma” descobre é o amor próprio. Que 1+1 apenas soma quando cada um está inteiro e não quando precisa do outro para se completar. A “si mesma” vê beleza em si, mesmo com suas fraquezas. Entende que o processo do abuso a amadureceu e a tornou mais forte e autônoma. Por isso, ela encontra a verdadeira liberdade e sabe que ninguém precisa presenteá-la com isso: ela mesma a construiu.

Ela entende, acima de tudo, que, para se tornar “si mesma”, não precisa mais recuperar o que perdeu. O que ela precisa e sabe é que pode criar algo novo. Assim, os fantasmas das antigas feridas deixam de assombrá-la. Ela não precisa mais compensar os buracos de sua estrada quando pode seguir por ela apesar deles.

A pessoa que se torna si mesma assume um papel ativo diante da vida. Ela sabe que a sua felicidade depende, antes de tudo, dela mesma. O outro não é mais condição única para se sentir viva quando ela germinou em si mesma as sementes da criatividade.

CONCLUINDO

Cada uma dessas fases tem suas próprias virtudes. Não há problema algum se você ainda se encontrar na primeira. O tempo que se vai levar para superar cada uma é o tempo de cada um. Um ano? Dois? Menos? Não há uma resposta para isso e também não há como pular magicamente de uma para a outra: esta é uma trilha que você precisará percorrer passo por passo. Ela sempre será possível.

Lembre-se: um abusador perverso narcisista não escolhe pelo que não se tem. Ao invés disso, ele escolhe pelo que você TEM. Isso raramente implica bens materiais. De fato, mesmo quando o são, são os bens subjetivos por trás desses que realmente importam: o sucesso, a autonomia ou a beleza. Esse mesmo brilho, essa força da alma, é o que você precisa redescobrir para sair do poço tóxico do abuso perverso. Um perverso narcisista engana a nossa própria alma ao nos fazer acreditar que esse brilho foi roubado ou que não existe mais, mas a verdade é que ele continua bem aí, dentro de você.

Desperte para si mesmo(a)!

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Luiz Mateus Pacheco
Gaúcho, graduado em psicologia e estudante apaixonado das relações humanas e da pluralidade do amor. Acredita que este sentimento é sempre saudável quando é uma via de mão dupla e mútuo crescimento. Nas horas vagas, dedica-se a escrever sobre o amor e suas complicações na página Relações Perigosas no Facebook.