As bases de uma relação sadia são a confiança, o acolhimento, a empatia e o cuidado. Saiba escolher quem você coloca ao seu lado.

Marian Koshiba

Muito já se escreveu sobre as diversas máscaras sociais que vestimos e que nos impedem de ter uma relação sadia. Em certa medida, faz parte sermos um pouco diferentes para nos adequarmos a diferentes contextos sociais e situações.

Às vezes, essas máscaras vão além do saudável e dominam tanto nossas vidas que sequer sabemos mais quem somos. Mas quero abordar, nesse texto específico, como podemos ser diferentes sem depender da pessoa com quem nos relacionamos. Afinal, as bases de uma relação sadia são a confiança, o acolhimento, a empatia e o cuidado. Saiba escolher quem você coloca ao seu lado.

Nunca vou esquecer o que me fez ter o primeiro insight sobre isso: uma grande amiga minha, que havia um histórico de vivências ciumentas com seu ex-namorado, me relatava como ela era uma pessoa totalmente diferente com o novo namorado, diametralmente distante daquela figura insegura do passado. Desde então passei a notar como nossos comportamentos, atitudes e até supostos “aspectos da personalidade” podem ser moldados ou alterados de acordo com o sujeito com quem interagimos.

Primeiro exemplo, minha vida no meu antigo namoro. O quanto o meio, e aquele ex-namorado em específico, me moldou a ser uma boneca de porcelana, comedida, comportada, apagada. Vim a descobrir, depois de quase 7 anos de namoro, quando tudo veio ao fim, o quanto aquilo tudo não era meu verdadeiro “eu”, o quanto minha verdadeira essência estava sufocada por todas aquelas convenções que eu absorvi. Ao mesmo tempo, olhando hoje, em retrospecto, vejo que no meu contexto social da faculdade (que era afastado, alheio e quase paralelo ao do restante da minha vida) eu mostrava mais do que era o meu eu legítimo, artístico, sensível, extrovertido, despachado, ainda que de uma forma mais embotada e ainda anuviada.

Atualmente, depois de algumas (muitas) sessões de terapia, vivências, experiências, livros e cursos de auto-conhecimento, muito mais alinhada com quem eu realmente sou e quero ser, é muito engraçado perceber como somos na medida em que os outros são. Demonstramos mais uma certa característica nossa, exaltamos ou escondemos mais uma faceta da nossa personalidade, a depender da interação com o outro.

As interações da minha vida de solteira têm sido um laboratório sobre mim mesma (e sobre essa sociedade!). Eu, falante pelos cotovelos, desejosa por compartilhar aspectos profundos da minha (e de toda) existência, posso ser uma pessoa quieta, quase superficial, se estou me relacionando ou interagindo com alguém que não demonstra interesse em me ouvir de modo atento e empático, que não deseja me conhecer de forma integral e profunda e também não se deixa conhecer desse modo.

Eu posso até soar tímida, se estou com pessoas que, por algum motivo, sinto não me acolherem. Tem pessoas que, pela forma de se relacionarem ou se expressarem, me deixam irritada, nervosa, estressada. Outras que, de tão autocentradas ou tão negativas na quase totalidade do tempo, deixam-me drenada, sugada, definhando, sem energia.

Algumas, pela forma tóxica com que estabelecem suas relações, fazem brotar em mim uma pessoa altamente insegura e neurótica com tudo. Claro, tem alguns pontos primordiais de dificuldade dentro de cada um de nós, que precisam ser trabalhados, melhorados, e serão desafios na nossa relação sadia com os demais ainda que seja a Madre Teresa ou o Dalai Lama ao nosso lado. Mas essas questões à parte, hoje percebo com clareza aquelas situações de desencaixe, avisos e alertas, estes que não podem passar em branco.

Já parou para avaliar a qualidade das suas relações (amorosas ou não, diga-se de passagem)? Como você é quando está com a pessoa X? Você consegue ser você mesmo? Você sente que sua versão mais autêntica, sincera e confortável, é aquela que transparece? Você sente que aquela pessoa tira o melhor de você? Sente que você tem estímulos positivos para crescer, suporte para os momentos difíceis, e apontamentos construtivos quando realmente precisa melhorar? Que as bases de uma relação sadia, como confiança, acolhimento, empatia, cuidado, afloram naquela interação? Você se sente com a energia renovada, em alta, perto daquela pessoa?

Em muitas das situações ou circunstâncias da nossa vida, não temos muito como escolher com quem nos relacionamos, e temos que exercer a diplomacia, a serenidade, e todo aquele arsenal de técnicas, qualidades e subterfúgios para conviver em mínima harmonia. No entanto, naquelas relações que podemos escolher, nossas amizades e amores, muitas vezes insistimos em estar ao lado de pessoas que nos diminuem, nos “desenergizam”, que destroem nossa auto estima de modo vil, extraem o pior de nós, nos fazem ter vergonha de quem somos, pessoas com quem nos sentimos deslocados, desprezíveis, pessoas que nos fazem falsear nossas verdades porque sentimos que não somos amados por quem nós genuinamente somos.

Não, não podemos aceitar ou nos colocar nesse lugar de tamanho desencaixe.

Aspectos como gostos pessoais, trajetórias de vida, profissões e mesmo alguns traços da personalidade podem influenciar na sua afinidade com os demais, mas no final das contas, o que pesa mesmo é ter uma rede de pessoas que faz você se sentir confortável na própria pele, que revela o melhor em você e te faz querer ser cada dia melhor para si mesmo e para honrar aquelas relações construtivas e saudáveis. Pessoas que realmente fazem esse caminho doido da vida ser mais bonito, mais fluido e com muito mais sentido.

Então, perceba as relações saudáveis da sua vida com clareza. Valorize-as, tome-as como diretrizes e nortes para as demais relações. Separe o joio do trigo, estimulando a relação sadia e de valor, extinguindo as ervas daninhas das interações nocivas. A cada dia tenha mais consciência e cuidado com as relações que deixa entrar (e principalmente ficar) em sua vida.

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Marian Koshiba
Formada em Direito, escritora por necessidade de alma, cantora e compositora por paixão visceral. Só sabe viver se for refletindo sobre tudo, sentindo o mundo à flor da pele. Quer transmitir tudo que apreende (e aprende) por todas as formas criativas possíveis.