Amor e café tem lá suas similaridades e depois que passa, não tem mais volta, acaba.

Carol Daimond

Uma metáfora do desamor

As vezes a gente entra no fluxo da ‘correria’. Essa palavrinha tem sido usada com tanta frequência para todo lado e para todos os tipos de desculpas e ausência justificada. E no meio dessa correria toda, entre uma justificativa e uma saudade de mim eu fui preparar um café.

Tão logo a água na leiteira, o fogo aceso, o coador já na garrafa térmica e pela minha cabeça mil pensamentos passeavam. Mas entre um devaneio e outro, entre um monólogo interno e outro eu percebi que o pó de café ia ser colocado na água e o açúcar já estava no coador. Deu tempo de salvar, mas veio aquele pensamento: “Prestenção” menina, olha a bagunça que você já tá fazendo.

Essa história aconteceu de verdade, por pouco eu ia perdendo meu café da tarde, mas ela me presenteou com uma grande reflexão, uma metáfora sobre a minha história amorosa.

Fiquei lembrando de quantas vezes eu rezei para que aquela água passasse pelo açúcar, mesmo sabendo que tava tudo errado, que nada estava no seu lugar, eu só queria a sorte de ter um café aconchegante no meio da tarde. Mas eu nunca acertava a medida e sempre alterava a ordem das coisas.

Não foram um ou dois, foram muitos relacionamentos frustrantes, muito choro e coração em cacos, que, diferente do café, precisavam ser refeitos em dois ou três dias, porque a vida não espera, ela continua passando por você e você precisa ser rápida, o tempo voa e de repente passou-se uma década e ainda que você sinta que está na virada do milênio em fase de adaptação, já é hora de pensar em filhos, o tempo minha amiga, urge.

Pelo menos era assim que se pregava há um tempo atrás. Apressa-te em escolher para que não sejas escolhida – dizia a tia que nunca se casou. Como não se desesperar e colocar as coisas fora de ordem gente?!

De tudo isso, restava um coração partido, enquanto o açúcar – inflexível, insensível e com horror a compromisso – travava o caminho para a água fluir. Ninguém caminhava por um tempo, cada um esperando as coisas se organizarem, se encaixarem em seu devido lugar. E embora todos quisessem chegar finalmente a se tornar café, ninguém achava o caminho para que isso fosse possível, não dava pra voltar atrás, porque amor e café tem lá suas similaridades e depois que passa, não tem mais volta, acaba.

E digo mais, depois que passa todo o alvoroço, a gente sente saudade. As lembranças, ainda que com um pedacinho de dor, trazem saudade daqueles momentos de tantas perguntas sem respostas, de sonhos pela metade e corações angustiados, ah! Quanto aprendizado em um pedacinho de história.

“Então vocês não deram certo?” – era a afirmativa em tom de interrogação, que dava vazão a imaginação e que doía o peito e a resposta em forma de pensamento vinha logo a tona – a gente deu certo demais por um tempo, mas a lição foi aprendida e cada um seguiu o seu caminho.

Uma coisa é certa, cada vez que você distraída, altera a ordem e o lugar dos ingredientes, uma lição pode ser aprendida, e você fica mais longe do açúcar que trava o fluxo e se aproxima cada vez mais de um café delicioso e aconchegante no meio da tarde.

Não, não é fácil refazer um coração partido, dá uma preguicinha pensar que, aparentemente, já estava tudo tão dentro do lugar e agora você vai ter que lavar o coador, colocar outra água, colocar mais energia, arrumar essa bagunça que, por distração, você permitiu que acontecesse.

Não existem culpados, mas se você não estivesse tão distraída com a correria da vida e assim se permitisse escutar aquela voz lá dentro, mais conhecida por intuição, talvez você teria economizado um bocadinho de sofrimento. Mas e aí?! Quem seria você sem todas essas histórias de amor fora de ordem? Aonde você estaria se tivesse mais atenta aos sinais?

Eu não dou razão a culpa e nem acredito que a gente deva encarar o sofrimento como forma de crescimento, mas, se por um lado a gente escolhe passar por algumas situações, por outro precisamos apenas confiar que as histórias estão sendo contadas da melhor maneira e aprender com elas é o jeito mais rápido de crescer. Não adianta mesmo ficar brigando com o que já foi, é tocar pra frente e entender a lição.

Amores mal resolvidos são como ingredientes fora do lugar, eles fazem a receita sair do curso e com essa bagunça vem uma dor de cabeça, ou de coração.

Ficou mal resolvido? Deixa que a vida se encarrega de resolver, afinal, nunca sabemos em qual esquina o coração coloca as coisas no lugar, em qual momento ele se refaz e começa uma nova receita, mas a gente sabe bem que, assim como o café, o amor depois que passou, acabou, não volta mais e a gente coloca um sorriso no rosto que é pro coração enfeitar de beleza e vai em frente, olhando as esquinas da vida e as repentinisses que insistem em aparecer pelo caminho.

Um momento depois, tudo fica apenas na parede da saudade e a vida segue, a gente aprende a prestar atenção e o amor, ou o café sai do jeito que deve ser, na hora exata, no lugar mais certo e da forma mais linda, tudo está acontecendo para o melhor, sempre.

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Carol Daimond
Carol Daimond, mineira de Divinópolis, bacharel em Direito e apaixonada pelas palavras entrelaçadas, mãe, mulher e terapeuta thetahealer, uma mistura de mulher que a cada dia se reinventa em busca da sua melhor entrega em partilha para o mundo. Sua jornada como escritora começou de brincadeira e tem se tornado cada dia mais a sua marca pessoal de verdade e essência.

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