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A necessidade de sermos mais gentis uns com os outros

Tenho escrito aqui e ali sobre a necessidade de sermos mais gentis uns com os outros, sobre o quanto não faz sentido falarmos quatro idiomas e não dizermos bom dia no elevador, repito feito um disco riscado que perdemos a capacidade para a gentileza e outras coisas.

Acredito de fato em tudo isso, mas faço aqui uma ressalva: nem todo mundo está preparado para interações gentis no dia a dia, assim como nem sempre é seguro praticar gentilezas no país em que vivemos.

Reconheço, depois de tantas vezes dizer bom dia no elevador e ficar no vácuo, que esse não é o maior problema.

A questão mais grave, na minha modesta opinião, é a forma como algumas pessoas, incapazes de qualquer gentileza, podem distorcer as boas intenções de quem pratica gestos gentis e tomá-los de modo avesso.

Você entra no elevador, diz “bom dia” a um desconhecido e dá o azar de esse sujeito ser uma alma grosseira, agressiva e mal intencionada. Um machão, no pior sentido do termo. Se você for um homem, esse cara vai olhá-lo com desprezo. E se você for mulher, ele vai achar que você está lhe “dando mole”. Depois vai lhe dar uma cantada ou fazer coisa pior.

Um amigo homossexual disse “boa noite” a um vizinho no elevador do prédio em que ele mora e adivinhem: tomou um soco na boca.

Conheço inúmeros casos de moças que foram assediadas no trabalho, no transporte por aplicativo, no ponto de ônibus e até no bendito do elevador porque, em algum momento, os assediadores confundiram a boa educação dessas mulheres com uma abertura para qualquer outra coisa.

Não estou generalizando. Sei que há homens e homens. Mas nós vivemos num país em que um deputado, desses dotados de quatro patas e duas orelhas enormes, ironizou as discussões sobre o assédio sexual e defendeu “o direito das mulheres serem assediadas”. Vivemos num país em que muitos meninos aprendem a ser machistas em casa, com o pai e o avô. O mesmo país que não consegue reduzir os números de feminicídios em todas as suas camadas sociais. Triste.

Sigo defendendo a gentileza. Acredito mesmo que precisamos reaprender a ser gentis. Mas prometo, eu juro compreender quando alguém não responder ao meu “bom dia” no elevador.

Boa noite, gente gentil!

André J. Gomes

http://www.revistaletra.com.br/ Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.

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