A angústia e o caminho da aceitação

Rodrigo Pereira

“Quero voltar a ser como antes, não quero permanecer do jeito que estou agora, não quero mais me sentir assim tão deslocado do mundo, tão vulnerável. Eu era diferente há alguns anos atrás, então, por que é que estou assim agora? O que há de errado comigo? Será que alguém é capaz de me entender, e de me explicar quem eu sou?”

Muitas pessoas procuram Psicólogos desesperadas, queixando-se, como no trecho acima, de uma angústia que antes não sentiam e que agora sentem e querem eliminar de suas mentes e corpos o mais rápido possível, voltando ao estágio anterior de suas vidas, quando achavam que eram felizes. Comigo não é diferente, muitas pessoas me procuram com esse intuito. Para elas, muitas vezes, a felicidade esteve no passado que fora perdido, ou estará no futuro que ainda não pode ser vivenciado; é certo de que quase nunca parece estar no presente que se vivendo está hoje. Essa angústia intrusa que apareceu de repente e não devia estar alí atrapalhando suas vidas e seus objetivos de serem felizes, faz com que se questionem sobre para onde estão indo. E como isso é doloroso, então, querem de algum jeito dar um jeito logo nela, e querem isso pra ontem, porque aprender a viver parece um grande risco.

Diante disso, muitas dessas pessoas recorrem aos comprimidos, e embora eu saiba claramente dos benefícios dos medicamentos em nossas vidas, sempre senti que não são eles que resolvem os nossos reais problemas internos, sobretudo, os existenciais. Talvez eles nos tragam algum alívio, e não mesnosprezo de forma alguma a importância disso em nosso dia dia. Também não o supervalorizo, pois, o aprendizado para lidar com aquilo que nos causa dor interna não poderá jamais estar guardado em algum frasco. E sabemos disso.

Quando possível, corro do convencional e convido essas pessoas, calmamente, a fazerem uma viagem tranqüila por suas vidas, sem grandes expectativas e cobranças, que é onde percebo morar o segredo. Uma espécie de revisitação interior que devemos fazer com calma. Eu as pergunto se realmente essa angústia surgiu assim, do nada e repentinamente, se ela é assim tão recente, tão insuportável assim que não pode mesmo ser sentida, tão ameaçadora que precisa ser evitada e rapidamente eliminada.

Nos primeiros quilômetros dessa viagem, ainda desconfortável e tensa, quase todas as pessoas confirmam a ideia de que sim, de que essa angústia surgiu repentinamente e sem motivos e que é, sim, insuportável, precisando ser eliminada rapidamente de suas vidas. E inclusive, sei que existem boas técnicas para isso dentro da Psicologia. Lembrei-me dos meus primeiros anos de Terapia, dos meus primeiros anos como estudante de Psicologia e de como eles me propuseram transformações que não me sentia pronto para vivenciar, de como o que parecia ser apenas uma escolha pela profissão seria um divisor de águas em minha vida, e aos poucos me transformaria pra sempre. Muitas vezes tentar ajudar o outro da forma que achamos ser a melhor para ele, infelizmente, só o atrapalhará. A paciência é a virtude dos sábios, dizia meu velho.

Penso, porém, que é aceitável que seja difícil para essas pessoas, a própria revisitação interior. Pelo menos é como foi pra mim. Todo início é difícil só por ser o início. O que sabemos no início se ele é onde estamos começando? Quando o motor ainda nem esquentou e os pneus ainda nem foram gastos, não podemos dizer que conhecemos bem o veículo, nem que sentimos bem a aspereza da estrada. A insegurança é sempre a dona dos primeiros passos, e quando a vida nos entrega ao acaso, temos medo de não saber achar o caminho. O chão de terra batido está escondido embaixo do que parece ser um belo asfalto impermeável, e essa pequena casca não é do que devemos ser inquilinos, ela é a ferida e não o que há por baixo. Enquanto tentamos nos esconder de nossa natureza humana, ela se faz presente em nosso sofrimento psíquico, como um aviso de que o universo quer nos ensinar a viver.

Sugiro, então, que continuemos devagar a viagem, pois, ainda perto da cidade da razão, onde tudo necessita explicação, e ainda bem distante das terras da emoção, onde muito pouco pode ser realmente explicado, quase nada se pode ser feito em termos terapêuticos para que haja um real amadurecimento. Um pouco mais a frente, já nos distanciando do ponto de partida de nossas vidas, já mais distante do ego carmático, quando as resistências e amarras mentais já não são tão imensas, nem o egoísmo tão mais dominante, refaço novamente a mesma pergunta. Sim, sempre utilizo as mesmas perguntas. Quase sempre noto que a resposta já é um pouco diferente da primeira, lá do início; geralmente com alguns “pode ser que tenha um motivo, sim”, ” faz sentido que eu esteja reagindo a algo do qual esteja tentando evitá-lo, talvez por ter muito medo do desconhecido, mesmo não o precisando ter.”, “Não está mais tão insuportável como no começo, parece que estou aprendendo a lidar melhor com tudo isso”, ” Acho mesmo que minha angústia pode querer me apontar um novo caminho pra seguir”, “Percebo que há coisas em mim as quais preciso mudar de lugar”.

Estrada a fora, já com o motor bem aquecido, muitos quilômetros rodados, pneus mais desgastados, distante do ponto de partida e mais próximo das terras do desconhecido acaso, quando nosso veículo já nos é mais conhecido e confiável; refaço novamente a mesma pergunta de sempre. E, como resposta, quase sempre, ouço da pessoa que ela percebe motivos claros que a fizeram reagir, às vezes, irracionalmente, de maneiras negativas ou paranóicas em determinadas situações, que a fizeram desacelerar, parar, sentir não estar mais vivendo. Ela realmente não estava. Como uma defesa de um medo, uma proteção contra um desconhecimento, uma resistência a uma perda, uma lembrança marcada por uma dor da infância, da adolescência, o nosso amadurecer nos vem disfarçado. Quando passamos inevitavelmente pela dor, podemos enxergar àquilo que se pudéssemos teríamos sempre evitado, e se tivéssemos o conseguido jamais cresceriamos.

Não sei, nem posso dizer que a dor é o combustível do crescimento interno para todos, isso seria muita prepotência. Mas, posso dizer que foi assim pra mim. Quanto mais minha alma marcada doía, mais ela me trazia pra pertinho de mim, de quem eu realmente era e não permitia ser por puro egoísmo. Perceber o meu ego inflamado, fez com que eu me dasse conta da necessidade de um anti inflamatório natural. E então quando fui à margem de um rio, logo após esse momento de luz, pude reconhecer que se eu aprendesse a viver como suas águas, eu seria então mais feliz. Observe como um rio é tão lindo e ao mesmo tempo tão sem vaidade. Talvez essa seja a essência da felicidade genuína, a essência que nossa cultura egocêntrica está longe de ter.

O momento da viagem o qual nos damos conta do caminho e nos tornamos conscientes dos obstáculos que criamos, a angústia se torna completamente suportável, começamos a aceitar nosso estado atual como parte de nós sem querer somente mudá-lo a qualquer custo, a vida está mais tranquila porque o mundo interno está. Nessa hora, não foi o caminho que diminuiu, mas, sim, nós que expandimos. Com a mente mais funcional e harmoniosa podemos fazer melhores escolhas em nossas vidas, e é incrível como nossas decisões ficam mais assertivas quando estamos conscientes delas. Um professor da faculdade me dizia que eu nunca deveria tomar uma decisão quando estivesse triste, e que por mais que estar triste fosse completamente normal, não era o momento certo de escolher nada em minha vida, tampouco o que fazer. Disse que escolher quando estivesse mal, me faria quase sempre optar pelas piores escolhas, e isso poderia criar uma imensa bola de neve da qual sair seria depois muito difícil. Ele dizia que devemos aprender a esperar os ventos fortes passarem para que com a chegada da leve brisa possamos seguir em frente. Em minha vida, muitas vezes fiz escolhas em momentos internos difíceis e, embora muitas delas tenham me feito chorar, sei que algumas me serviram como verdadeiros aprendizados. Digo isso porque sei que nem sempre conseguimos seguir o conselho dado pelo meu professor.

Muitos quilômetros a frente, já nas terras da emoção – um território turvo e emaranhado, mas, não mais tão desconhecido pela pessoa – Calmamente, procuro que veja todo caminho interior já percorrido até alí, todas suparações que estão envolvidas, e refaço novamente a mesma pergunta do início: A angústia que te consumia aí dentro, como uma nuvem cinza, lá do começo de nossa viagem, tinha realmente surgido do nada? Seria ela tão insuportável assim agora depois de todo esse passeio? Como resposta, ouço de um alguém muito mais maleável com a vida, a mesma frase do início, só que quase sempre um tanto diferente:

“Já não quero voltar a ser como antes, posso permanecer do jeito que estou agora e ser feliz, e saber disso me faz estar em paz. Quero me sentir assim, em paz, mesmo quando não estiver bem. E embora aceite novas mudanças, não vou exigi-las antes da hora. Eu sou outro hoje, não quero ser como antigamente porque antigamente não existe mais. Eu sou exatamente do jeito que tenho que ser agora, não quero impor mais nada a mim e nem a ninguém que comigo viva.” Foi também o que disse pra mim, após um longo caminho em busca de um caminho pra seguir, ou melhor dizendo, após alguns anos de auto conhecimento, tombos, e terapias. Que o caminho era onde eu eu estava.

É bacana que quando a pessoa chega ao fim dessa viagem, já bem mais adaptada, calma, como eu também cheguei, com a quilometragem mais alta, motor bem quente e os pneus bem gastos, ela é capaz de perceber o que a trouxe alí e o quanto o que parecia horrível a fez ser tão bela. O como sua própria percepção das coisas as transformava. É capaz de perceber que seu próprio medo, sua própria dor e trauma, fizeram-na ser uma pessoa melhor. E perceber isso é bom porque liberta tudo de uma vez, desamarra nossa alma. Quando somos capazes de transformar o caminho de dentro, o caminho de fora é então só mais um detalhe, apenas o reflexo.

Quando despeço-me das pessoas que comigo aceitam fazer uma pequena viagem como essa, e as deixo seguir seus caminhos com suas novas maneiras de ver o caminho, elas já não olham pro caminho mais o vendo como um espelho. Já não têm mais tanto medo de serem julgadas, pois, elas próprias não se julgam mais. Quando chegam a essa altura, já me podem olhar no olho, e o medo pode ser então apenas uma sensação como qualquer outra. Permitem não mais refletirem no mundo seus egos vaidosos e aflitos, e aceitam que a paz do universo reflita em seus interiores. Conspiram para que tudo agora possa apenas ser, sem razão ou motivo, permitindo que a dor que sentiam se vá como as águas de um rio que se despedem da nascente e partem pro desconhecido. Viver é aceitar e amar esse desconhecido.

É quando aprendemos o valor do passos que demos até onde estamos, que nossos pés doloridos se tornam a melhor e mais bela parte de todo o caminho. Aprender a respeitar suas pedras é o que as tornam preciosas. Aprender a respeitar os seus tempos e trechos, os seus limites, tornam a estrada ilimitada. Hoje eu não abro mais mão de viver, porque vivo tudo como sendo importante ser vivido. Da dor ao amor, tudo existe porque estou vivo, e sei que não há como ser de outra forma. E quando vejo no caminho uma pedra, faço questão de abrir logo um sorriso e cumprimentá-la. Ela vem pra me ensinar alguma coisa, eu sei que vem pra me por num novo caminho. No final de todo ciclo, percebo que saber respeitar nossas pedras sem se apegar tanto a elas, é mesmo o melhor que poderíamos ter feito.

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Rodrigo Pereira
Psicólogo, Psicoterapeuta, Educador e Palestrante.