Durante anos, ela acreditou que havia algo de errado com o seu rosto e com o seu corpo. A timidez era tão grande que sentar-se à mesa para comer virava um desafio, e a escola, em vez de acolher, virou palco de provocações.
Hoje, aos 32 anos, a atriz britânica Aimee Lou Wood é um nome conhecido no mundo todo, tem um BAFTA na estante e papéis de destaque no cinema, no teatro e na TV. Mesmo assim, a mesma característica que um dia a fez se sentir inadequada, o sorriso, segue sendo o assunto preferido de muita gente.
Uma infância marcada pela timidez
Aimee nasceu em 3 de fevereiro de 1994, em Stockport, na região de Greater Manchester, na Inglaterra. Cresceu num período de dificuldades familiares e, mais tarde, estudou interpretação na Royal Academy of Dramatic Art (RADA), uma das escolas de teatro mais tradicionais do Reino Unido.
Ainda criança, enfrentava uma timidez severa e uma ansiedade social que afetavam a rotina. Em entrevista ao jornal The Sunday Times, contou que quase não conseguia se sentar para uma refeição, e que a mãe chegou a deixar comida espalhada pela casa para que ela pudesse comer aos poucos.
Em 2025, a atriz revelou que foi diagnosticada com TDAH e que tem traços autistas, e passou a rever parte das dificuldades da infância por essa lente.
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O bullying e a relação difícil com o corpo
Na escola, Aimee relatou bullying frequente. De acordo com entrevistas, a atriz revela que depois de ser perseguida, passou a sentir que estava sendo observada e julgada o tempo inteiro. Ela também já falou publicamente sobre transtorno alimentar e dismorfia corporal, a percepção distorcida da própria aparência, e sobre como a pressão e as rejeições contribuíram para uma relação dolorosa com o corpo.
No entanto, foi no teatro que essa história começou a mudar. Uma professora percebeu o potencial da jovem e a incentivou a se soltar nas cenas. Aimee descobriu que personagens engraçados podiam funcionar como uma espécie de proteção: em vez de tentar desaparecer, ela passou a ocupar espaço.
Do bullying ao BAFTA
Depois da RADA, ela passou pelos palcos até chegar à TV com Aimee Gibbs, de “Sex Education”, série da Netflix que estreou em 2019. A personagem se tornou uma das favoritas do público e rendeu à atriz o prêmio BAFTA de melhor performance feminina em comédia, em 2021, seu primeiro grande prêmio.
Em 2025, ela ganhou ainda mais projeção ao viver Chelsea na terceira temporada de “The White Lotus”, papel que lhe rendeu indicações ao Emmy e ao Globo de Ouro. Ela também é cocriadora e atriz de “Film Club”, série da BBC.
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“A conversa toda gira em torno dos meus dentes”
Com o sucesso, vieram também os comentários. Muita gente passou a elogiá-la por não seguir o padrão estético de Hollywood. Só que, segundo a própria atriz, existe uma diferença entre valorizar uma característica e transformá-la no principal assunto sobre uma mulher.
Em entrevista à GQ britânica, Aimee disse que se sente bem quando seus dentes são associados à liberdade e quebra de padrões, mas que o problema é quando toda conversa sobre seu trabalho volta para a aparência.
O assunto ganhou outra dimensão em abril de 2025, quando o programa americano “Saturday Night Live” exibiu uma paródia de “The White Lotus” que caricaturava os dentes e o sotaque da atriz. Ela classificou a esquete como “maldosa e sem graça”, e uma integrante do elenco do programa pediu desculpas depois.
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Ela nunca “consertou” o sorriso
Aimee não mudou os dentes para se encaixar no padrão. Isso não significa que ela se sinta sempre confortável: já admitiu que ainda tem momentos de insegurança e que a fama pode reativar antigas feridas. A diferença é que deixou de tratar essa característica como um defeito a ser eliminado.
Em entrevista à Stylist, ela disse que a ideia de que os dentes poderiam atrapalhar sua carreira estava mais na cabeça dela do que na realidade. A trajetória acabou provando isso.
Para ler mais histórias de artistas e da relação delas com a imagem, vale ver também a foto de infância de Jim Carrey em 1973 e os ícones do cinema clássico que conquistaram Hollywood com carisma.
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No fim, a história de Aimee Lou Wood deixa uma pergunta: quantas vezes o que nos fez sentir inadequados é justamente aquilo que nos torna inesquecíveis?
Imagem de Capa: Aimee Lou Wood