Um trecho da sabatina de Flávio Bolsonaro na TV Globo voltou a circular nas redes e reacendeu a discussão sobre a relação entre política, imprensa e patrocínios. No momento em que era questionado pelos apresentadores sobre o caso envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, o senador citou o nome de Luciano Huck e fez uma afirmação que rapidamente ganhou repercussão.
Como o assunto envolve números, nomes conhecidos e acusações sensíveis, vale separar com cuidado o que foi dito pelo candidato, o que já foi confirmado por reportagens e o que ainda não tem comprovação.
O contexto: a sabatina e o caso Vorcaro
A entrevista fez parte da série de sabatinas com candidatos à Presidência na TV Globo. O senador respondia a perguntas dos jornalistas César Tralli e Renata Vasconcellos quando o tema passou a ser sua relação com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, hoje preso.
O ponto central das perguntas era o financiamento de “Dark Horse”, filme sobre a vida de Jair Bolsonaro. Segundo mensagens e documentos obtidos pelo Intercept Brasil, ao menos R$61 milhões teriam sido pagos pelo banqueiro à produção entre fevereiro e maio de 2025.
Flávio Bolsonaro admite ter pedido recursos a Vorcaro para o filme, mas nega qualquer irregularidade e afirma que a conversa ocorreu antes de a fraude financeira ser descoberta.
O que Flávio Bolsonaro disse sobre Luciano Huck
Ao se defender, o senador passou a comparar o caso do filme com outros patrocínios atribuídos ao banqueiro. Foi nesse momento que citou a Globo e o programa de Luciano Huck.
De acordo com o trecho divulgado, ele afirmou que o banco de Vorcaro teria colocado R$160 milhões no programa do apresentador entre 2025 e 2026, chamou o valor de “dinheiro sujo” e perguntou se a emissora conhecia a origem desses recursos. Em seguida, disse acreditar que os apresentadores agiram de boa-fé, “como eu também fui buscar de boa-fé”.
A fala mudou o rumo da conversa e criou um clima de tensão no estúdio. Em outras entrevistas, o senador já havia usado o mesmo argumento: o de que, se o dinheiro de Vorcaro em outros projetos era aceito, não haveria problema no que ele mesmo tratou.
O que se sabe e o que não foi confirmado
Esse é o ponto mais importante da história. A cifra de R$160 milhões e a classificação como “dinheiro sujo” são afirmações do próprio Flávio Bolsonaro. Nenhuma das reportagens consultadas confirma de forma independente esse valor, e nenhuma aponta irregularidades de Luciano Huck ou da Globo.
O que existe de documentado é outra coisa. Em setembro, a revista Veja, com base em mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Vorcaro, mostrou que Huck e o banqueiro mantinham contato frequente e que houve negociação de um patrocínio do Will Bank ao “Domingão com Huck”.
Os valores citados nessas mensagens são de R$83 milhões em mídia para a Globo e R$26 milhões em um contrato pessoal, somando R$109 milhões, e não os R$160 milhões mencionados pelo senador.
Segundo o Diário de Pernambuco, que reproduziu a reportagem, as mensagens também tratam de conversas sobre a possível divisão de uma aeronave e do empréstimo de um avião ao apresentador em duas ocasiões em 2024. A reportagem não afirma que houve crime.
A resposta de Luciano Huck
Em nota enviada à Veja, Huck afirmou que todo o contato com Vorcaro foi “em torno da captação e da gestão do patrocínio do Will Bank” e que não houve sociedade entre os dois. Segundo ele, o contrato comercial foi assinado, houve emissão de notas fiscais, pagamento de impostos e prestação dos serviços, e os contratos de imagem e publicidade foram encerrados antes da intervenção do Banco Central no Will Bank.
Nos textos consultados, não há manifestação da Globo sobre as declarações do senador na sabatina.
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Imagem de Capa: Flávio Bolsonaro/Luciano Huck