Sinto muito. Me desculpa?

Marian Koshiba

Peço desculpas.

Hoje eu vejo que fui injusta. Fui dura. É difícil ver o outro lado, por mais empáticos que sejamos, quando estamos com o coração entalado na boca, convulsionando, com a mente pulsando todos os seus medos e traumas, cicatrizes parecendo que vão emergir em feridas abertas. Quando você está com seu sentimento envolvido naquilo tudo de forma tão profunda… E nesse furacão de sentimentos, eu fui injusta. Faltou-me clareza.

E por isso peço desculpas.

A vida é de uma ironia sem tamanho. E as lições são dadas bem rápido, é que às vezes não temos sabedoria pra decodificar os idiomas sábios do universo em toda sua sutileza. Não demorou muito pra eu me ver quase na situação inversa, no papel de quem um dia tanto julguei, pra entender, hoje, que você só foi você. Genuíno, sincero, presente, autêntico. Entregue, até o ponto em que podia, por não saber não ser intenso (lado que, às vezes, parece tentar combater). Por mais casuais que tentemos ser, por mais rasos na superfície do frugal que pretendamos parecer, quem é mar, imensidão, é um ser incontível. Transborda até num lapso de olhar a um desconhecido, num meio sorriso flertado no acaso, num aceno de compaixão a um anônimo.

E te chamei de irresponsável. Na verdade, muita gente já foi mais do que irresponsável, foi totalmente inconsequente e quase maquiavélico comigo. Mas você não. E talvez naquele momento, eu tenha tirado conclusões com as marcas que meu coração carrega, ao invés de ter enxergado que ali, em você, havia alguém que não continha essa maldade dos antepassados.

Eu me equivoquei. Estava cega pela tristeza. Sim, posso esconder bem. Mas a tristeza me nocauteou naqueles dias, e nos subsequentes. A melancolia ainda paira no meu semblante quando me deparo com uma saudade que sei que não deveria sentir. É uma dor baixinha, discreta, que convive comigo, mas ainda persiste.

Outra coisa que aprendi nesse tempo foi que, realmente, não é só um mix de interesses coesos e afinidades ajustadas. Mesmo com isso, uma conexão profunda pode não se formar. Porque conexão é um fenômeno que vai além… ela precisa de uma sensação de acalento profundo da alma: é perceber que o outro enxerga o mundo da mesma forma que eu o vejo, nas mesmas paletas de sensibilidade, nas mesmas matizes de reflexão. Similar às vezes como um reflexo de mim mesma, mas ao mesmo tempo tão rico, particular, vasto a ponto de me acrescentar, somar, ensinar, trocar, estimular, fazer de mim melhor. É ainda um notar que o outro enxerga a mim como sou, desnuda, e isso não me amedrontar. Porque me sinto compreendida e acolhida. É como reconhecer um alguém que parece que eu sempre soube, sempre entendi, sempre conheci. E isso, é uma coisa que pode ser por poucos minutos, horas ou dias. Mas que quem viveu sabe como ressoa internamente, diferente de tudo o que fora antes.

E por ter experienciado isso tudo é que a ruptura foi dolorosa, e o torpor me cegou.

E por ter sentido tudo isso, somado aos meus fantasmas e demônios passados, é que reagi de formas equivocadas.

E nessa altura, só me resta pedir perdão por esse lapso final de incompreensão.

A verdade é que sinto muito.

Sinto muito pelo meu agir.

Sinto muito pelo meu julgar.

Sinto muito por não entender.

Sinto, muito.

Mas o que sinto mais ainda é esse espaço imenso da sua ausência.

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Marian Koshiba
Formada em Direito, escritora por necessidade de alma, cantora e compositora por paixão visceral. Só sabe viver se for refletindo sobre tudo, sentindo o mundo à flor da pele. Quer transmitir tudo que apreende (e aprende) por todas as formas criativas possíveis.

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