Você meu amigo de fé meu irmão camarada…

Iara Fonseca

Isso era tudo que eu queria dizer, mas não consigo…

Na minha infância tentei ser sua mãe.

Na adolescência, tentei ser rebelde para chamar a sua atenção.

Quando me vi adulta, entendi que nada nem ninguém iria fazer você ser o pai que eu sempre sonhei.

Nos meus primeiros anos de maturidade conheci um sentimento que nunca gostaria que tivesse aflorado.

A mágoa se instalou em meu coração como se me dissesse que era melhor parar de idealizar alguém que nunca existirá. Que meus anseios eram impossíveis e que seria melhor me conformar.

Já fui chamada de ingrata por você!

Já fui colocada contra a parede.

Já tentaram me fazer acreditar que as minhas lembranças ruins da infância eram invenções da minha cabeça.

Quando criança várias vezes você me disse que iria sumir, e que eu não ia mais te ver.

Naqueles momentos que você estava descontrolado, de saco cheio da vida.

Agora, você sumiu de verdade, foi para não mais voltar.

Não. Você não morreu.

Mas desistiu de tentar ser pai, já que eu sempre considerei que o que você oferecia minimamente, não era o bastante.

E eu desisti de ser filha, já que você nunca soube ser pai.

Isso é muito triste. Mas é o que eu tenho hoje, um total abandono. De ambos os lados!

Desejo que eu consiga tirar de mim essas expectativas que me acompanharam a vida toda e que não me deixam ser leve, não me deixam perdoar as coisas do passado.

Desejo que nossas vidas possam seguir de uma maneira simples e desconstruída, sem medos e sem essas frustrações que impedem o nosso bom relacionamento.

Me tornei uma péssima filha, para igualar a aquilo que eu considerei ser um péssimo pai.

Mas não quero mais viver assim, afiando palavras duras e pensamentos amargos.

Queria dizer que daqui para frente serei uma filha melhor. Mas infelizmente, não sei se sou capaz de ser. Tentei tanto, mas fui tão injustiçada que desaprendi.

O pior é que sei, que o pai que queria ter uma filha-mãe, ainda se sente injustiçado porque acha que fez muito. Pagou escola boa, mas teve sempre ausente, mas pagou escola boa. Salvou de alguns perrengues, mas tem muito pai que nem isso faz ou fez. Não é mesmo?

Nivelar por baixo foi sempre o maior problema. E aceitarmos que tem muito pai ruim por ai, e por isso temos que agradecer aqueles que pelo menos fazem alguma coisa… É ainda mais triste.

Vou aprender com a vida, dia após dia. Mas não consigo prometer nada! Me perdoe!

Quem sabe você se torne um dia, o meu amigo de fé, o meu irmão camarada… E possamos nos livrar desse compromisso de pai e filha que não nos deixou boas recordações…

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Iara Fonseca
Jornalista, poeta, educadora social, fundadora e editora de conteúdo do Rede de Ideias: PRODUÇÃO DE CONTEÚDO. Seu interior é intenso, sempre foi, transforma suas angustias em textos que ajudam muito mais a ela própria do que a quem lê. As vezes se pega relendo seus textos para tentar colocar em prática aquilo que, ela mesma, sabe que é difícil. Acredita que viemos aqui para aprender a ser, a cada dia, um pouco melhor, para si mesmo, e para o outro!

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