A vida é muito curta pra alongar debate inútil.

André J. Gomes
Tired woman in the office

Larguemos mão, minha gente. Pra que essa briga toda? Tanta contenda, peleja, quiproquó. Por que todo esse bate-boca? De que vale tanto argumento jogado fora? Pra que servem mesmo nossos raciocínios e reflexões a esta hora? Tem um tempo em que bom é deixar pra lá. Se não faz bem, mal também não vai fazer. Deixemos estar. Se não tem jeito, rejeite.

Pense bem. Vencer a discussão, destroçar o adversário, arrancar-lhe as vísceras e jogar para o cachorro vai mesmo dar jeito no mundo? Você e eu aqui, entrincheirados, guerreando por razão, defendendo cada qual seu soberano ponto de vista, e os canalhas lá fora decidindo por nós. Vivendo nossa vida enquanto nos odiamos de morte. Não está certo, não.

O que há de se fazer será feito na prática. Por nós ou por alguém. No duro, para além do bate-boca estéril e enfezado que nos leva a nada e nos rouba o tempo. Esse tempo que é tão raro, tão pouco. Tempo em que podíamos pensar novas saídas, outras possibilidades. Juntos, somados, unidos, multiplicando vontades, dividindo tarefas. Fazendo acontecer. Não assim, um contra o outro, inflamados, enfraquecidos. Cegos dessa sanha inútil de mudar a opinião alheia.

A gente devia passar mais tempo sozinhos, sabe? Assim, uma hora e outra, trancar nossas coisas aqui dentro e pensar no sentido de tanta falação jogada fora. De tanto ganhar razão a qualquer custo, o fato é que a gente acaba perdendo o afeto. De tanto alongar pendenga inútil, a gente faz a vida mais curta do que ela já é. Tudo por uma verdade ilusória e boboca. Depois a gente se encontra, resolve o que se pode resolver e esquece o resto. Por ora, chega de peleja inútil.

Se é para investir no que nada vale, que seja a conversa amiga sem utilidade definida, os inofensivos papos furados, a prosa à toa, as horas inocentes de fazer nada, os diálogos sem pretensão, em que ninguém precisa convencer ninguém de nada e cada lado passa a bola ao outro com cuidado, jogando pela vitória comum, a beleza do movimento, a saúde do corpo e da alma.

Como no frescobol jogado em dia de praia e sol, céu aberto, gente passando pra lá e pra cá, gente de todos os tipos e cores, credos e origens caminhando sem medo, os pés na água e os olhos à frente, um jogador rebate a bola e a devolve delicada à raquete do colega. O outro acompanha e a retorna com capricho, empenhado no acerto. E os dois se deixam estar ali, artesãos inocentes e aplicados, passando a bola de um lado a outro, como quem costura com linha invisível uma rede de segurança que haverá de salvar o mundo em sua queda. Dois soldados gentis, cavalheiros seguros, avançando sua conversa pela noite e pela vida em total camaradagem dialogal.

Quem sabe sejamos assim? Quem sabe possamos tentar? Eu digo “vem, pessoa amiga, entra que o feijão tá no fogo”. Você traz um vinho barato e nós bebemos com arroz, feijão e ovo, falando da vida sem medo, sem culpa. Sem pretender razão nenhuma. Alongando essa vida tão curta com esperança e jeito. Quem sabe um dia. Quem sabe.

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André J. Gomes
http://www.revistaletra.com.br/ Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.

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