‘A velhice é uma coisa que acontece assim de surpresa’, diz Ziraldo, aos 85

Resiliência Humana

“Eu fiquei velho tem uma semana”, diz Ziraldo Alves Pinto, referindo-se a seu aniversário de 85 anos, comemorado em 24 de outubro. “A velhice é uma coisa que te acontece de surpresa. Demorou 85 anos para chegar, fiquei irremediavelmente velho.”

No caso do artista mineiro —autor, ilustrador, pintor, chargista, jornalista—, a consciência do peso da idade veio num tropeço corriqueiro em casa, que o fez notar suas limitações físicas: o arrastar dos pés, a memória que falha, a agilidade que diminui para desenhar e escrever.

Mas, se não é prolífico como antes —também porque a crise econômica atinge os mais velhos, diz—, continua com muitos projetos em mente na área da literatura infantil, que o consagrou.

Ziraldo, no entanto, é bem mais que o autor de livros perenes como “O Menino Maluquinho” (1980) e “Flicts” (1969). Foi, por exemplo, chargista do “Jornal do Brasil”.

Lá, aprofundou sua amizade com Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), que tinha uma coluna de crônicas e frases bem-humoradas (que chamava de “pipocas”).


Sacando que as tiradas do poeta eram “charges em estado de dicionário”, Ziraldo lhe propôs ilustrá-las. Surgiu assim “O Pipoqueiro da Esquina”, livro publicado em 1981 que é tema de exposição em cartaz até 18/2 no Instituto Moreira Salles do Rio.

Folha – Como conheceu Carlos Drummond de Andrade?

Ziraldo – Conheci a poesia do Drummond no ginásio. Via ele ocasionalmente na editora José Olympio, mas não tinha nenhuma intimidade. Quando eu publiquei o “Flicts” [1969], mandei para ele, que escreveu uma crônica que é o único comentário de livro que ele já fez. Esse texto virou o prefácio nas edições seguintes. Ele escreveu a crônica, eu tinha feito três quadros que ganharam o prêmio de humor na Bélgica e mandei um original para ele dizendo “quero que você saiba que é o melhor desenho que eu fiz na minha vida”.

Era um astronauta chegando em casa, beijando a mulher e o filho dele abrindo a mala, que estava cheia de estrelas. A partir daí, a gente ficou trocando bilhetes. Até poema ele fez. Não quis publicar as cartas porque o pessoal ia achar que éramos duas bichas. Mas eu amava ele, o que eu posso fazer? Ele tinha muita deferência comigo.

Vocês se frequentavam?

Nada, ele era um ser telefônico, não gostava de visita não. Nem de conhecer gente nova, dizia que estava muito velho para fazer novas amizades. Ele ficava horas no telefone, com aquela vozinha dele. Ele era muito debochado, era infernal. Igualzinho ao [Ariano] Suassuna. Eu e Zuenir [Ventura] fomos conversar com Suassuna lá em Pernambuco, ele falou mal de todo mundo que pôde. Uma hora riu para burro e falou “a melhor coisa do mundo é falar mal dos outros, né?”.

E como surgiu a colaboração em “O Pipoqueiro da Esquina”?

O Drummond gostava demais de desenhar. Quando ele era jovem, sonhava em ser chargista, gostava muito dos chargistas brasileiros, mencionava todos. Ele começou a fazer essas frases, que ele chamava de “pipocas”, na coluna do JB chamada “O Pipoqueiro da Esquina”. Quando eu ia fazer a charge e [o tema] tinha saído no “Pipoqueiro da Esquina”, eu ligava para ele e dizia “Drummond, você fodeu comigo.

Tenho 30 charges para fazer essa semana. Quer saber, vou ilustrar suas charges, pode?”. Ele ficou entusiasmadíssimo com o livro. Eu caprichei muito nos desenhos. Em geral, a charge você faz muito depressa, não tem tempo de ficar compondo. Aqui eu exagerei um pouco, está muito caprichado, ficava horas, dias desenhando. Foi um trabalho que eu fiz com muito prazer, ele gostava muito quando eu mandava os desenhos para ele.

Na sua variada carreira, que peso o sr. dá para o trabalho de chargista?

O que me deu mais resposta foram os livros para criança, né? A minha fila de autógrafo nas feiras de livros é de pais levando os filhos. Muita gente acha que eu sou só um autor infantil. A charge dava muita alegria. Hoje em dia está todo mundo publicando charge na internet porque ninguém quer pagar mais. O Jaguar saiu do [jornal] “O Dia”, o Aroeira também. O único chargista rico do Brasil hoje é o Chico Caruso, porque ele é funcionário do [jornal] “O Globo”.


Como é sua rotina atualmente?

Continuo com o mesmo regime de trabalho que sempre tive. Essa coisa de estar na prancheta trabalhando até de madrugada, com 85 anos, é vital para mim. Não é que eu escolha fazer isso não. Se eu parar, morro. Não sei fazer outra coisa na vida. Ando desenhando muito pouco, o mercado de trabalho mudou muito depois da crise, em relação à minha idade. Eu fazia muito livro especial, cartilha para empresa, ilustração para publicidade, tinha muito trabalho. Tem três ou quatro anos que não tem trabalho nenhum. É a crise, [e o fato de que] agora tá cheio de menino competente aí. Eu sou da geração de pioneiros, quando comecei, era eu e mais cinco. Agora não.

Quais seus projetos atuais?

Estou trabalhando nos últimos livros da série “Os Meninos do Espaço” [ed. Melhoramentos], são dez livros, já era para eu ter entregado os dois últimos. Eu trabalho demais no texto, fico enlouquecido, não acabo. Agora, como eu estou mais lento, é pior ainda. Eu capricho muito, reescrevo 300 vezes, não está me agradando. É um pouco a cabeça do sujeito. Eu fiquei velho tem uma semana.

A velhice é uma coisa que te acontece de surpresa. Você vai vivendo e sempre achando que não mudou nada. Se você viveu intensamente, envelhece sem perceber. Eu sempre disse que sou o adolescente mais longevo que já vi. Agora, de repente você levanta, sai andando e tropeça nesse negócio aqui [aponta para o rejunte] do ladrilho e descobre que está arrastando o pé. “Puta que o pariu, fiquei velho.” Tem uma semana. Em mim demorou 85 anos para chegar, fiquei irremediavelmente velho. Ancião.

O sr. sente limitações?

É engraçado você chegar aos 85 anos e ainda estar com toda disposição para tudo, para trabalhar, para criar. Só que o físico não responde como respondia. Você reparou quantas vezes te perguntei sobre o que estava falando? Você acorda com a ideia, vai mexer no texto, não acha onde queria mexer. Isso é que é ruim. Toda vez que eu falo isso dizem “ah, você tá triste por envelhecer”. Eu não, eu já tenho 85. Você [referindo-se ao repórter] não sabe se vai garantir 85. Se bem que, agora, ninguém morre mais, só se você bater com o carro ou tiver uma dessas doenças malucas. Mas até elas têm cura, se forem descobertas no começo. Então quer dizer, se eu viver mais dez anos, não vou morrer mais.

O sr. tem projetos futuros?

Ia fazer uma exposição para comemorar os 85 anos, mas, com essa crise, não teve jeito. Vou fazer uma em São Paulo no ano que vem, minha obra toda, no Sesc. Mas não diz que eu falei “minha obra” porque eu tenho pavor do sujeito dizer isso. São todos os desenhos que eu fiz na minha vida. Tenho muitos originais comigo, do “Pasquim”, todos os do “Jornal do Brasil”, onde desenhei por 13 anos. Todos os meus quadros estão com um marchand de São Paulo, muito bem guardados.

Fiz uma coleção de livros, “ABC”, com 26 livros, um para cada letra, que vira um personagem. Essa já está pronta. E vou fazer dois livros com os 500 nomes mais comuns para meninos e meninas no Brasil, 250 de cada. Vou desenhar o significado de cada um deles, vai se chamar “Onde Está Você?”. Desenhados os 500 nomes, eu posso fazer o que quiser com eles, vou bolar ainda. Tenho seis dicionários com o significado de qualquer nome que você imaginar. Tenho livros em francês, inglês, vou comprando quando ando pelo mundo.

O sr. disse que Drummond tinha medo de ser esquecido. E no seu caso?

Eu não tenho nenhum. Não é porque eu seja bom, é porque sou autor infantil. Se você é lido por uma geração, vai ser lembrado sempre. Fui muito visto por gerações, você chega na Bienal e tem avô levando netos. Aqui no Brasil tem o Monteiro Lobato, a Ana Maria Machado, a Ruth Rocha, o Pedro Bandeira. Esses vão ser lembrados sempre, porque conquistaram as gerações deles.

O sr. viu “Vazante”, o novo filme da Daniela [Thomas, sua filha]?

Vi. Achei difícil, mas lindíssimo. Primeiro, é a mais fantástica recriação do tempo que eu já vi no cinema. Você entra na época, é impressionante. Ela arranjou uns negros que estavam chegando da África, pegou um quilombo lá onde filmou, no Serro [MG], as pessoas do quilombo ainda se vestem como os avós se vestiam na África. Mas achei muito difícil, ela não faz concessão nenhuma. Eu falei para ela “você não podia fazer filme mais simples?”. Ela disse que fez o filme que estava na cabeça dela. Confiava tanto que fez o filme sem música.

Agora, não sei onde é que acharam racismo no filme. Chamaram ela de sinhazinha. Não sei onde é que se privilegia alguém de pele branca lá, se aparece em algum momento que o branco é superior ao negro. Nunca vi uma descrição do negro tão fiel ao que eles deviam sentir naquela época.

Ela foi uma das diretoras da cerimônia de abertura da Rio-2016.

A repercussão daquela abertura deu uma foto de primeira página no “New York Times”, falando da surpresa que o Brasil fez para o resto do mundo. Ela é boa de serviço.

Mas, desde então, a própria escolha do Rio como sede passou a ser suspeita.

Que coisa triste, né? E o Serginho Cabral? Eu conheço ele desde bebê, sou superamigo do pai dele. Graças a Deus ele [Cabral pai] está com Alzheimer. Ele buscou esse Alzheimer, não tinha o que fazer da vida se estivesse assistindo ao filho dele ser levado para a prisão, com 72 anos [de pena]. Criar um filho como ele criou, no samba… O Sérgio era um sambista carioca, a casa cheia de sambistas, sempre de porta aberta. Ele foi um dos fundadores do “Pasquim”, morava em Cavalcante [zona norte do Rio], só veio morar na zona sul quando o jornal deu muito dinheiro no primeiro ano e ele alugou um apartamento aqui, acabou de criar os filhos aqui, num ambiente ótimo.

Ele era super-honesto. O Sérgio [filho], quando virou autoridade, arranjou um título para ele de Procurador-Geral do Estado, que é vitalício [na verdade, Cabral pai foi conselheiro do Tribunal de Contas do Município do Rio entre 1993 e 2007, quando se aposentou, aos 70 anos, mantendo a remuneração vitalícia]. Mas, para ele aceitar isso, só faltou a gente bater nele. “Deixa de ser besta, Sérgio. Você não tem onde cair morto, não tem salário, seu filho está te dando isso, poderia dar para qualquer um. Pode ser nepotismo, mas você tem competência para ser isso, e vai te salvar”. Ele era assim.

Por que Sérgio Cabral fez o que fez?

Acho estranho essa coisa de ele gostar de conviver com rico. É muito pouco comum o sujeito com um mínimo de inteligência, no meio em que ele viveu, achar divertido andar com o [empresário Fernando] Cavendish. Você pode me dar o Cavendish de graça que eu não quero sentar num bar com ele, entendeu? Você vê que ele estava sempre com gente rica, levando uma vida de rico. Isso deformou um pouco. Aí, quando ele viu que era fácil ganhar dinheiro, ele resolveu virar o cara mais rico do Brasil. É uma deformação de caráter extraordinária, não dá para entender.

A carreira dele veio bem, foi o primeiro governador que não se ajeitou com a escrotidão da polícia, pelo contrário, chamou o Beltrame [ex-secretário de segurança pública do Rio], que tentou moralizar. Foi um belo governador do Rio. Mas descobriu que era muito fácil roubar. Onde ele podia se meter, se meteu para ganhar dinheiro. Foi ficando muito rico, acho que ele queria ficar o cara mais rico do Brasil.

Quando o sr. o viu pela última vez?

Quando ele foi eleito pela última vez [2010, reeleito como governador], eu falei “eu vou te dar de presente a marca do seu governo”. Fiz um negócio caprichadíssimo, mandei imprimir as camisetas e tudo mais, liguei para o palácio. “Eu queria falar com o Sérgio”. “Como é seu nome?”. “Ziraldo Pinto”. “O senhor liga para fulano de tal, que é quem marca audiência”. “Não quero marcar audiência com o Serginho, manda ele amolar outro, pergunta a que horas eu posso levar o negócio aí”. “Ah, não é assim não”.

O Serginho ficava com essa mania de pedir audiência, eu não consegui levar as camisetas. Ele não usou a marca que eu fiz para ele. E eu descobri o porquê: uma marca é boa para lavar dinheiro, porque você pode cobrar por ela o preço que quiser. Uma agência fez uma marca para ele, mas se eu ia dar uma, porque ele foi fazer com agência? Deve ter custado R$ 25 milhões.

O sr. acompanha o noticiário político? Pretende votar nas próximas eleições?

Sempre votei, nunca deixei de votar. Votei na Dilma, mas ela se perdeu no meio do caminho. Não era do ramo. O governo Lula foi o mais bem-sucedido da história do Brasil, porque ele foi o primeiro presidente que não achou que o mundo começava nele. Tudo que o Fernando Henrique tinha feito, ele pegou, ajeitou e deu continuidade. Ele teve a humildade de dizer que não entendia nada de economia, quem é que orientava ele? O Delfim [Neto]. A Dilma entrou e achou que era economista, ela que conduziu a economia, e enfiou os pés pelas mãos.

O sr. acha que Lula vai disputar as eleições ou vai ser preso antes?

Vai acabar preso, claro, porque se ele disputar, ele ganha. Esse país é muito maluco. O Lula já está no DNA [do país]. Por que essa eficiente equipe da Lava Jato, que já pegou todo mundo, está nessa dificuldade de pegar o Lula? Não tem nem um deputado do Brasil que não tenha ganho presente de empresário.

E o sr. acha isso aceitável?

É claro que não acho, mas não é o habitual, não é como se faz? O Lula é esperto, mas não tem berço, não tem a nossa moral burguesa.

Ele teria seu voto para presidente?

Agora, não sei não. Na Marina eu não votava nem para síndica. O Ciro eu acho meio tolo, fala demais. O Doria é um rapaz que lutou muito para ficar rico, segundo a história que ele conta, mas é um idiota completo. Não tenho candidato não.

Em quem o sr. votou para prefeito do Rio?

No [Marcelo] Freixo, por eliminação. Ele é a mesma coisa da Dilma, um menino de coragem desabrida, mas não é do ramo, vai administrar essa cidade? Eu não preciso de um cara desabrido para prefeito, preciso de um competente.

FONTEFolha Uol
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