A tristeza de conviver com um amor egoísta

Iara Fonseca

Por muitos anos vivi com pessoas extremamente egoístas. Desde a minha infância me deparo com situações onde tento entender os motivos pelos quais, pessoas muito próximas a mim, pensam mais nelas e em suas frivolidades momentâneas do que dão importância a família ou aos que elas dizem amar.

Meu pai foi um cara muito egoísta. Durante a sua vida presenciei momentos aterrorizantes onde pude perceber a sua ânsia em viver cada minuto como se não fosse existir um amanhã. Tudo o que acontecia com ele era extremamente intenso, violento, catastrófico e me impactava fortemente.

Quando criança, tentava ajudar como se fosse a mãe dele, minha mãe tentou ajudar bastante também, mas chegou uma hora, e eu nunca esqueço desse dia, que eu mesma com 9 ou 10 anos, pedi a ela que se separasse. Lembro quando cheguei na casa da minha vó, após a separação, o alivio que senti em não estar na mesma casa com ele, de não ter mais que presenciar as brigas sem motivos por conta dos descontroles emocionais e transtornos que ele sofria.

Na cabeça de uma criança, como eu era, se passava muitas coisas. Eu me sentia adulta já aos 11 anos, e ao mesmo tempo, frágil. Por cerca de 6 anos ele continuou muito mal, não aceitou a separação e sempre me atormentava um sentimento de medo e apreensão, já que eu não sabia o que ele seria capaz de fazer se encontrasse minha mãe com outra pessoa, mesmo oficialmente separada.

E sim, ele agiu muitas vezes por egoísmo, e esses anos foram longos e tristes.

Eu fui uma adolescente triste. Acho que carrego ainda no olhar essa tristeza. E sei que se temos em nosso convívio uma pessoa que amamos e que é extremamente egoísta, estamos fadados a tristeza se não fizermos um trabalho interno de perdão e desvinculação.

Eu não consegui fazer isso. Ainda nos dias de hoje me pego recordando coisas da minha infância e adolescência e ele sempre estava lá, agarrado as minhas lembranças tristes.

Ouvia minha mãe dizer que se eu não o perdoasse e tentasse seguir minha vida livre dessas lembranças, como bem fez a minha irmã, eu poderia inconscientemente, me casar com uma pessoa parecida com ele.

E, não é que aconteceu exatamente isso. No começo tudo eram flores. Me conquistou e se mostrou uma pessoa maravilhosa, generosa, um verdadeiro companheiro, apenas no primeiro ano de relacionamento.

Vivi cerca de 10 anos da minha vida com uma pessoa extremamente egoísta. Tudo que ele podia usar a favor dele, mesmo que fosse por cima das minhas convicções e vontades, ele o fazia. Abusava da minha inocência e sensibilidade constantemente, usava meu carro, meu dinheiro, minha casa, meus moveis, tudo que era meu, era dele, mais dele do que meu, e em dez anos, nunca comprou nada durável para nossa família, sempre esperou que eu o fizesse para que ele pudesse usufruir, e ele sabia que eu iria fazer.

Eu era fraca e covarde perante tudo, não entendia como me deixava usar daquela forma. Aceitei muitas humilhações, e me via sempre em uma situação de comando e subserviência dolorida.

Meus pensamentos eram tão lindos, meus sonhos mais ainda, meu coração transbordava amor e só queria ser amada como amava a possibilidade do amor. Até que veio o golpe final, descobri uma traição escancarada. Uma pessoa egoísta nunca é fiel. Eu sei bem disso.

A pessoa egoísta não se importa com o sentimento do outro apenas com o seu, o que explica as atitudes de meu pai que nunca pensou no mal que estava me causando, e as dele.

A pessoa egoísta vive o momento, e busca sempre mais prazer e realização pessoal, ela sabe exatamente do que gosta, e geralmente, gosta das coisas boas da vida, por isso, se aproxima de pessoas que possam oferecer a ela algo que ela não quer se esforçar em ter, ou acredita ser merecedora, mesmo que as custas do outro.

A pessoa egoísta sabe muito bem dominar uma pessoa sensível, são exímios manipuladores e chantagistas emocionais. Isso eu também sei bem.

Finalmente, consegui me libertar e sair dessa situação, e como se tivesse rebobinado o filme da minha vida, vivi novamente uma situação de opressão e perseguição, exatamente como minha mãe viveu.

A história da minha infância se repetia. Dois anos se passaram, e ele não me deixava em paz, foi duro, e a cada dia ele se mostrava mais egoísta, só pensava no seu sentimento de vingança por eu ter conseguido dar um basta. E adivinhem? Ele comprou um carro para ele!

Pessoas egoístas nunca aceitam que outras pessoas terminem algo que ele não quer que acabe, ou o impeçam de fazer alguma coisa que eles gostariam de fazer, no caso, ele não queria se separar, então, egoisticamente não aceitou, era típico.

Mas depois de muito orar e pedir a Deus proteção, luz para ele, meus pedidos foram atendidos, ele se acalmou, não aceitou até hoje, mas se conformou.

Mas os ensinamentos de minha mãe ainda me atormentam: Perdoe e se desvincule minha filha, se não conseguir fazer isso, outra situação parecida voltará a te perturbar o coração.

Perdoar realmente é um ensinamento que Jesus deveria ter deixado bem claro em um manual de instruções. Só a palavra não faz sentido quando a ferida não cicatriza. Muitos dizem, recolha-se e perceba o outro como um ser em evolução, que é imperfeito e está aqui justamente para se aprimorar como você.

Está bom, mas o fato é que eu não fiz nada para eles, só fiz o bem, e recebi muita ingratidão. Daí vem outra pessoa e diz: Os relacionamentos dessa vida não são explicados aqui, mas sim, em outras vidas, a felicidade não é desse mundo.

Ok. Respiro fundo e me conformo em aprender com essas pessoas como eu não devo ser. Talvez seja exatamente esse o ensinamento que vim aprender nessa vida.

Sigamos… O fato é que a pessoa egoísta é capaz de coisas tão mesquinhas e infantis que não dá para compreender. Agora falando de um modo geral, porque esses foram só alguns exemplos, mas já cruzei e convivi com inúmeras pessoas assim, elas não conseguem pensar em um movimento de troca. Suas mentes funcionam diferente, elas sempre pensam no melhor para si, não enxergam isso como um coisa ruim, acham que todos deveriam fazer isso, e que estão completamente certas em suas posturas e comportamentos.

Geralmente não gostam de estabelecer vínculo afetivo, fingem amar, pois na verdade não conhecem o amor em sua totalidade, acham que amar é esse eterno usar e abusar, ignoram a importância da comunicação e interação de ambos os lados, porque na verdade, não acham necessário saber o que sente o outro, já que não se importam nem um pouco.
As pessoas que se relacionam com os egoístas vivem na esperança de que um dia vão aprender a amar com o exemplo que dão diariamente a eles. Mas isso é uma ilusão, isso não acontece, infelizmente, e o erro é das pessoas que criam expectativa nisso.

Temos que aprender que uma pessoa egoísta não precisa ser vista como uma pessoa ruim. E também não quer dizer que não goste de você ou não te queira bem. Mas pessoas egoístas tem dificuldade em perceber o outro, a sua necessidade em atender o próprio ego, faz com que não enxergue, não ouça e não dê muito espaço para o outro existir na relação, além do mais, ele tem muita dificuldade em enxergar esse comportamento como um descontrole emocional que precisa ser revisto e transformado.

São pessoas que preferem o silêncio à conversa, mas costumam falar muito sobre suas atividades, sua profissão, suas viagens e constantemente buscam outras pessoas, mesmo estando em um relacionamento sério, porque precisam conquistar o tempo todo, precisam se mostrar importantes e se sentir desejados por todos, indistintamente. Muitas vezes procuram pessoas desconhecidas em redes sociais apenas pelo prazer de se sentirem desejados e para poderem contar mentiras supervalorizadas sobre si mesmos. Prova de insegurança e da necessidade de serem o centro das atenções. São vaidosos e extremamente frios em suas vontades calculadas, o maior medo que possuem é acordarem um dia e não conseguirem a atenção de ninguém.

Normalmente, por mais que desejem a relação, não estão abertos a trocar ou interagir, visto que não há interesse real pelo que o outro é, e sim por si mesmos. E vale recordar aqui que para ter uma boa relação feliz é preciso ter duas partes de pé, caminhando, interagindo, sendo acolhidas e desejadas. Senão, a separação se torna inevitável.

O egoísta é sutil, pois parece interessado nos outros. Porém é um interesse “interessado” mesmo, de quem quer que os outros se submetam a si.

O egoísta é um grande controlador que tenta mover os outros como se esses fossem um conjunto de peças de um jogo. Como jogador, o egoísta acredita que sabe, melhor que ninguém, o rumo que deve dar às peças.

Ele é na verdade um individualista convicto e só ele pode querer mudar essa situação, mas infelizmente eles são muito felizes assim, e não querem mudar de forma alguma. As pessoas a sua volta é que se encontram demasiadamente tristes e para eles, isso é um problema exclusivamente delas e elas precisam resolver. A famosa frase dita por eles: “É só você não ficar triste ué, viva a sua vida”. Mas, para a pessoa que ama uma pessoa egoísta, faz parte do seu cotidiano, a frustração por falta de afeto e generosidade.

Para encerrar exemplifico o egoísta com um personagem celebre da nossa literatura. Fernando Pessoa eternizou o egoísta na figura de Álvaro de Campos, o personagem em um de seus discursos disse: “Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. / Assim, como sou, tenham paciência! / Vão para o diabo sem mim, / Ou deixem-me ir sozinho para o diabo! / Para que havemos de ir juntos? / Não me peguem no braço! / Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho. / Já disse que sou sozinho! / Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia! ”

Clara personificação do egoísta. Triste a sina de quem ama um!

O individualista é aquele que aprendeu a conviver consigo mesmo, que pensa que não precisa de ninguém e, mesmo precisando, acaba ferindo todas as pessoas que se aproximam na intenção de formar ao seu lado, uma família.

Eu também gostaria que todos os egoístas que se aproximaram de mim enxergassem o quanto estão errados e tentassem se transformar em pessoas generosas, cheias de compaixão. Mas isso é mera ilusão!

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Iara Fonseca
Jornalista, poeta, educadora social, fundadora e editora de conteúdo do Rede de Ideias: PRODUÇÃO DE CONTEÚDO. Seu interior é intenso, sempre foi, transforma suas angustias em textos que ajudam muito mais a ela própria do que a quem lê. As vezes se pega relendo seus textos para tentar colocar em prática aquilo que, ela mesma, sabe que é difícil. Acredita que viemos aqui para aprender a ser, a cada dia, um pouco melhor, para si mesmo, e para o outro!

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