Sim, é saudade

Estela Meyer

Tentei entender o que tô sentindo.

Buscar no meu dicionário interno alguma explicação. Algo que alivie meu coração e que me faça aquietar. Mais do que um chá de camomila, ou uma prece.

Então… Hoje eu entendi.

É saudade.

Eu sei que às vezes exagero. Mas hoje talvez não.

Hoje eu sei que é saudade.

A gente sabe que é, quando os olhos fecham e dá pra ver e sentir, tudinho. O toque, o cheiro, o sabor. Dá até pra ouvir o som.

Aquela vontade doida e doída de fugir pra esse lugar que já é passado, mais ainda é tão presente… Aquela vontade de estar lá, naquele exato momento. Ou em todos, por que não?!

Saudade é fome.

A saudade é a fome do amor.

Porque quem tem saudade tem vontade.

Vontade de viver mais daquilo que não deu tempo.

De dizer, fazer e ser o que faltou.

Dá saudade até do que nem aconteceu.

Talvez seja um ótimo desafio aos inconformados e aos indignados…

Lidar com a isso não é pra qualquer um. Porque dói.

Eu me pergunto como algo invisível, imaterial, intangível, intáctil, incorpóreo pode ter tamanho poder?

O poder de dar alento, sim, porque saudade também é ter pra onde voltar.

Mas também o poder de ferir, porque ao mesmo tempo essa casa já não existe mais.

É, machuca. Ô se machuca.

Faz o coração encolher-se num cantinho. Faz as sobrancelhas abaixarem, o olhar ficar distante, o suspiro ficar forte e as lágrimas que já nem pedem mais licença, do nada desabam. Chegam até a fazer barulho.

É saudade quando o corpo procura. A cabeça perde o foco. E coração já nem sabe como lidar. Ora bate forte, ora quer parar.

A gente sabe quando é saudade quando no final dessa tempestade a única alternativa é se conformar.

É… Saudade também é amar. E é pros fortes.

Eu diria que também pros privilegiados, pois só tem saudade quem viveu. Quem se permitiu, quem deixou, quem arriscou. Quem quis.
A saudade é o legado de algo que já é eterno.

É, agora eu sei, hoje realmente é saudade

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