Se você não é livre, não é amor – e onde não houver amor, não permaneça.

Viviane Battistella

O amor e o medo
…ela então lhe esticou a mão e disse: -Vem, não tenha medo!

Ele hesitou. Olhou para os lados e lá estavam as pessoas que o rodeavam. Elas julgavam-no com os olhos e o ameaçavam sem que preciso fosse dizer uma palavra.
Ele sentiu medo.

Por muito tempo ela se manteve ali, braços esticados sob a dor latejante.
O que a mantinha ali era o amor. Ela acreditava piamente que conseguiria trazê-lo para perto dela, até que um dia descobriu que o medo é mais forte. Sim, existe algo que pode ser mais forte do que o amor e este algo chama-se medo.

Existem duas formas de mantermos alguém ao nosso lado, a primeira é o amor e a segunda é o medo.

A primeira forma é livre, prazerosa e a chamamos de amor. Cura para todos os males, nada pode ser mais sagrado do que o amor. Afeto é planta que cresce até em solo seco.

Amor é acalento, é paz, é bastar-se. Amor não morre, não mata. Amor não machuca, não faz mal e pode ser usado em altas doses. Quanto mais se ama, mais se produz amor.

Mas há uma outra energia, capaz de vencer o amor: e chama-se medo. O medo escraviza, adoece e pode até matar. Não falo do medo natural, do medo das coisas que realmente devem ser temidas, como cobra, arma na cabeça, avião ás vésperas de cair. Não falo do medo real, falo do medo psíquico, criado e usado para manter o outro sob o cárcere emocional. Falo do medo que se vê nos rostos das pessoas capazes de nos dar frio na espinha sem que precisem abrir a boca. Falo do medo que nos ensinam ter do outro e de seu julgamento. Falo do medo que as pessoas tóxicas, incapazes de amar e de serem amadas, exercem sob as outras.

Não foram raros os casos que ouvi dentro do consultório nos quais pacientes relatavam uma vida mal vivida, na qual deixaram de fazer quase tudo que gostariam pelo medo dos outros. Medo de mães castradoras, de pais opressores que se projetam nas futuras relações na fase adulta.

É mais fácil se casar pelo medo do que pelo amor. É mais fácil escolher um cônjuge que continue alimentando a nossa neurose do que se jogar liberto nos braços de quem não nos cobra nada porque não temos consciência e muitas vezes nem sequer conhecimento de que exista outra forma de cuidar e ser cuidado.

O medo aprisiona porque é confundido com segurança. O medo que hoje domina nossa psique, criando sentimentos de culpa inexistentes – sim, porque a culpa é o prêmio para quem tem medo – é o que amanhã cria um famoso transtorno intitulado Síndrome do Pânico.

De tanto sentir medo e de tanto sucumbir a ele, sem sequer saber o que nos amedronta e se existe mesmo algo de que se amedrontar; passamos a viver as vinte e quatro horas do dia perseguido pela sombra de que o pior possa, e vá acontecer a qualquer momento. O medo da morte, o medo de enlouquecer torna-se forte e constantemente presente a ponto de controlar o nosso corpo físico. O coração bate tal qual estivesse tendo um infarto. A garganta trava e as vias respiratórias parecem não mais serem capazes de levar o ar até nossos pulmões. Do início de tudo, até o dia em que, em um pronto socorro ouvimos de um médico que não temos nada que não seja um ataque de pânico, passaram-se muitos anos, e muita coisa deixamos de fazer. Desistimos de tudo, porque uma voz que há muito tempo foi colocada dentro da gente, insistia, como uma profecia autorealizadora, em nos dizer que era perigoso, que era errado, que era feio. Sob o efeito da falsa sensação de segurança, quando abrimos os olhos para a realidade, percebemos que nunca fomos sequer donos das nossas vidas.

Deixamos de fazer tudo que queríamos controlados pelos olhares, pelo julgamento e pelo cárcere que nós mesmos criamos.

Um dia, a doença do pânico se transforma mesmo em doença do corpo. A pressão arterial passa a bombear com força até um dia arrebenta um cano. O estômago, cansado de engolir e de se calar, apodrece a si mesmo, o coração não agüenta a falta de amor e pára….o medo venceu.

Ter medo do imaginário é morrer um pouco a cada dia para perceber no leito de morte que aquelas mãos que um dia lhe foram estendidas era a única vida possível.

Não existe vida sem amor, existe apenas sobrevida.

Nenhum ser humano possui o direito de exercer sobre o outro qualquer tipo de cárcere. Não se tira do outro o direito de ser quem é, de correr os riscos que quiser, de ir e vir para onde escolher.

Amor só dura em liberdade. Se você não é livre, não é amor – e onde não houver amor, não permaneça.

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Viviane Battistella
Psicóloga, psicoterapeuta, especialista em comportamento humano. Escritora. Apaixonada por gente. Amante da música e da literatura...

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