Se for para agir como um robô, viver ou morrer não faz a menor diferença

Sílvia Marques

Sim, gente com mais de 70 anos ainda se interessa por amor , por sexo. Muita gente se encontra profissionalmente depois dos 50. Muitas mulheres se dão bem com homens que têm idade para serem seus filhos ou seus pais. Nem toda mulher enlouquece por causa de sapatos e bolsas. Muitas mulheres preferem livros. Têm muitos homens mais fitness do que muitas mulheres. Têm muitos homens que choram mais do que muitas mulheres. Têm muitas mulheres mais atiradas na cama do que muitos homens. O importante é cada um encontrar o seu caminho, o estilo pessoal e viver com mais espontaneidade , com mais alegria , com mais amor. Caso contrário, já estaremos mortos. Na alma. Um dos grandes arrependimentos de pacientes terminais é se darem conta de que por imposições sociais , eles deixaram de viver o melhor do amor e serem eles mesmos.

Usei uma imagem do filme Mulheres perfeitas para ilustrar o artigo pois esta obra mostra de forma paródica uma distopia apresentada por um filme dos anos 1970, traduzido para o Brasil como Esposas em conflito. Na verdade , no original, ambos filmes apresentam o nome As esposas de Stepford e se baseiam no livro homônimo , de Ira Levin, o autor do romance O bebê de Rosemary. A obra dos anos 1970 apresenta um tom sério e dramático, diferentemente do seu remake. Mas ambos deixam as mesmas mensagens, entre elas: viver como todo mundo vive não é vida.

Se formos vestir apenas o que está na moda, comer apenas o que dizem ser saudável, fazer amizade só com quem tem dinheiro, namorar apenas quem é conveniente socialmente , fazer somente o que nos permitem, pensar como todo mundo pensa…viver ou morrer não faz a menor diferença.

Obviamente , que muitas regras devem ser respeitadas pois vivemos em sociedade e seria um caos se cada um fizesse o que bem entendesse. Imaginem uma pessoa atravessando a rua com o sinal vermelho? Imaginem se as pessoas chegassem ao emprego atrasadas quando quisessem, sem um bom motivo e sem avisarem seus chefes? Imaginem se os médicos interrompessem cirurgias no meio para tomar uma cerveja? Imaginem se as pessoas aparecessem na casa dos vizinhos às três da madrugada? Imaginem se as pessoas começassem a quebrar estabelecimentos comerciais pois se sentiram mal atendidas pelos vendedores?

Não me refiro a este tipo de padrão que garante uma convivência social funcional. Me refiro a um tipo de conduta social que induz todo mundo a rir das mesmas piadas , a gostar dos mesmos livros , filmes e músicas, a se vestir de forma muito semelhante , desconsiderando a personalidade e o tipo de corpo de cada um, a escolher caminhos que são considerados mais seguros e confortáveis para a maioria. Me refiro a um tipo de padrão que nos faz perder a nossa voz, que nos impede de nos expressarmos com liberdade , pensarmos com autonomia e buscarmos formas de vida mais autênticas e compatíveis com a nossa natureza.

Quantas vezes , não abrimos mão de uma carreira mais prazerosa ou de um relacionamento amoroso mais verdadeiro por influência de familiares, amigos , colegas de trabalho, vizinhos, pessoas que frequentam a mesma academia, o mesmo clube , a mesma igreja? Quantas vezes não fazemos ou deixamos de fazer coisas porque a maioria faz ou deixa de fazer? Quantas vezes não colocamos a vida no piloto automático e deixamos de nos divertir , de nos realizar profissionalmente , de amar com intensidade por medo de sermos criticados , julgados , considerados ridículos?

Quantas mulheres não deixaram de curtir um bom dia na piscina do clube ou na praia por que estão gordinhas? Quantas pessoas deixaram de namorar alguém que tocou profundamente o coração por que esta pessoa não seria bem aceita pelo grupo de amigos e familiares? Quantos jovens na hora de escolher a faculdade que vão cursar levam mais em conta a opinião alheia , as leis de mercado do que a própria vocação? Enfim, quantas vezes não deixamos de viver o amor , quantas vezes não deixamos de nos emocionar , quantas vezes não engavetamos projetos pessoais e sonhos acalentados há anos por que nos achamos jovens ou velhos demais , magros ou gordos demais, pobres ou ricos demais? Ou por que simplesmente somos mulheres , mães, pessoas que exercem profissões mais tradicionais?

Temos que ser mais politicamente corretas e altamente preocupadas com a aparência só por que somos mulheres?

Mulheres não podem pagar a conta do restaurante e do motel nem tomarem a iniciativa para o sexo por que são mulheres? Mães precisam se enterrar vivas por serem mães? Professores, advogados e médicos precisam ser pessoas sisudas por apresentarem carreiras mais tradicionais? Pessoas com 20 anos de diferença de idade não podem formar boas parcerias afetivas? Uma pessoa não deve iniciar uma nova carreira só por que já passou dos 40 ou dos 50 anos?

As pessoas precisam perder o interesse por romance e sexo só por que passaram dos 60 ou dos 70 anos de idade?

Sim, gente com mais de 70 anos ainda se interessa por amor , por sexo. Muita gente se encontra profissionalmente depois dos 50. Muitas mulheres se dão bem com homens que têm idade para serem seus filhos ou seus pais. Nem toda mulher enlouquece por causa de sapatos e bolsas. Muitas mulheres preferem livros. Têm muitos homens mais fitness do que muitas mulheres. Têm muitos homens que choram mais do que muitas mulheres. Têm muitas mulheres mais atiradas na cama do que muitos homens.

O importante é cada um encontrar o seu caminho, o estilo pessoal e viver com mais espontaneidade , com mais alegria , com mais amor. Caso contrário, já estaremos mortos. Na alma. Um dos grandes arrependimentos de pacientes terminais é se darem conta de que por imposições sociais , eles deixaram de viver o melhor do amor e serem eles mesmos.

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Sílvia Marques
Viciada em café, chocolate, vinho barato, filmes bizarros e pessoas profundas. Escritora compulsiva, atriz por vício, professora com alma de estudante. O mundo é o meu palco e minha sala de aula , meu laboratório maluco. Degusto novos conhecimentos e degluto vinhos que me deixam insuportavelmente lúcida. Apaixonada por artes em geral, filosofia , psicanálise e tudo que faz a pele da alma se rasgar. Doutora em Comunicação e Semiótica e autora de 7 livros. Entre eles estão "Como fazer uma tese?" ( Editora Avercamp) , "O cinema da paixão: Cultura espanhola nas telas" e "Sociologia da Educação" ( Editora LTC) indicado ao prêmio Jabuti 2013. Sou alguém que realmente odeia móveis fixos.

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