Se ontem fosse hoje eu faria diferente

Marina Melz

Lembro como se fosse ontem, mas tem mais a ver com querer que seja amanhã. Confundo os tempos verbais porque, no fundo, eu queria mesmo que o tempo retrocedesse – não pra viver tudo de novo, mas pra fazer tudo diferente.

Se hoje fosse amanhã, eu dançaria conforme a música. Não tentaria acelerar os compassos e os nossos passos em direção ao futuro. Dançaria dois pra lá, dois pra cá no escuro sem pensar em andar de mãos dadas na praça. Teria dividido o sorvete sem a expectativa de dividir uma casa, um cachorro e filhos. Declarado menos, sentido mais. Mesmo que seja difícil pensar em entregar mais de mim, já que quando você bateu a porta não sobrou nada. Teria te entregue o meu tempo presente, não a minha expectativa para o futuro.

Não teria me preparado tanto para ser alguém que você gostaria de ter e me preocupado menos em parecer culta, engraçada, sexy-sem-ser-vulgar. Teria sido mais eu e menos quem você procurava, porque só depois eu descobri que a sua busca era por você.

Diria mais “não sei” e menos “eu também”. Porque é nas diferenças que se descobre o mundo do outro e nas semelhanças onde estão os mais frágeis perigos. Teria lido as suas obras favoritas completas, não apenas buscado um resumo na internet para dizer que conhecia este ou aquele personagem e te impressionar.

Não teria procurado o seu nome no Google, no Facebook, no Instagram, no Twitter e até no site da Receita Federal. Teria deixado os seus gostos (mesmo os duvidosos) e caretas para descobrir na vida real. Talvez, com isso, não tivesse me sentido uma louca conhecendo alguém que eu já conhecia tanto.

Deixaria que você conhecesse a minha tristeza, já que é dela que eu gosto e nela em que eu sempre me encontro. É a parte de mim que mais me envergonha e mais me fortalece, mesmo que me faça parecer frágil. Eu queria que você me visse forte.

De todas as dúvidas em relação ao que eu faria diferente, só tenho uma certeza: seria eu quem sairia pela porta para nunca mais voltar. Porque você diz que faria tudo igual. E eu, hoje, reconheço de longe quem vive para brincar com os sentimentos dos outros.

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Marina Melz
É jornalista e trabalha com assessoria de imprensa.

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