Relato de um coração aflito.

Anieli Talon

Hoje eu acordei pensando na vida… na minha vida, naquilo que eu posso fazer para me deixar mais feliz e tranquila.

Acordei assim porque fui dormir como se tivesse explodido uma bomba na minha cabeça. Fritei na cama buscando alternativas para aquilo que me consumia. Perguntas sem respostas. Talvez, não queria me deparar com a resposta que já tinha lá no fundo da cabeça e que minha intuição fazia esforço para trazer à tona. É difícil às vezes encarar os fatos.

Entendo que a felicidade é algo que depende de mim. Não posso esperar do outro algo que é meu. O outro pode complementar minha felicidade, aumentar, satisfazer ou até mesmo diminuir, mas esse poder de ser feliz ou não é meu, e sou eu quem comanda esse sentimento. Não dá pra deixar a felicidade ligada no piloto automático ou nas mãos de alguém, é preciso ter ela nas rédeas para não desandar e pensar: onde foi que eu a larguei?

A gente é responsável por tudo o que acontece na vida, seja bom ou ruim.

Então, num súbito pensei: “Estou repetindo um passado”! Tudo aquilo que um dia me fez sofrer, passar noites em claro, chorar de tristeza estão agora dando seus primeiros sinas, e acho que estou pisando num terreno já conhecido. Já passei por essa relação antes, então o que diabos estou fazendo aqui de novo?

A mágoa tem memória. Talvez esteja antecipando os fatos, mas é aquele ditado: “gato escaldado tem medo de água fria”! Quando a realidade passa a ser um reflexo do passado, é como se um ciclo não tivesse sido fechado. Não dá para se curar de algo voltando para aquilo que me deixou em pedaços. Porque faria uma coisa dessas, logo comigo?

Levantei e me olhei no espelho. Uma lágrima escorreu. Estava vivendo um dilema de continuar a viver essa história ou buscar outro caminho. O amor por ele não havia acabado… estava ali, latente… Eu ainda o amava, mas tenho por mim um amor maior. Fiquei entre a cruz e a espada.

A paixão é mesmo uma safada, nos deixa embriagados, numa viajem lisérgica, sem muita razão para as coisas. Somos tomados por alta dose de serotonina, e vemos tudo muito lindo, colorido, queremos viver aquele frenesi, o louco desejo de ver, beijar e amar. E para não deixar de sentir o doce gosto da paixão, colocamos panos em cima dos defeitos, tapamos o sol com a peneira. Justificamos olhando também para os nossas imperfeições, buscando assim como resposta reduzir o que a intuição nos alertou. E assim, vamos relevando até que chega um momento em que o tic tac na cabeça explode. Não dá para conviver com aquilo que já me machucou uma vez.

Em diálogo interno pensei: Como posso mudar alguém? Resposta: não posso. Não tenho este poder, só eu mesma posso me transformar. E o amor? Transforma? Resposta: Só se o outro quiser.

Segui meu dia com a cabeça envolta por pensamentos nuviosos, em dúvida: “será que sigo sozinha ou dou mais uma chance a esse amor”?

Lembrei que nas rodovias há uma placa que alerta: “Na dúvida, não ultrapasse.” E assim trago este alerta para a estrada da minha vida.

Enquanto sou tomada por essas sensações diversas e difíceis de traduzir, busquei um bom lugar, calmo e tranquilo para refletir. Às vezes é bom fazer essa pausa na vida para entender que caminho tomar e não ultrapassar sem segurança. É melhor estar consciente nesse momento do que tomado por emoções que nos fazem agir sem pensar. “Preciso dar uma chance – dessa vez, acho que pra mim.”

Observo que a vida manda seus sinais, como uma comunicação celestial. Percebo isso. Seja por meio de um telefonema inesperado daquele amigo, de algo que você lê “sem querer”, de uma música que toca e que toca nosso interior… a vida fala conosco de forma muito sábia. Repare.

Enquanto minha decisão não é tomada, prefiro estar comigo, sendo o meu porto e aconchego. É de mim que preciso agora.

Deixo o som rolar, a cabeça viajar e me acalmar. Assim, tudo há de seguir no seu divino propósito.

O amor não deixou de existir, mas enquanto eu não me amar, jamais eu serei feliz.

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Anieli Talon

É jornalista, atriz e tem a comunicação como aliada. Escritora por natureza, tem mania de preencher folhas brancas com textos contagiados por suas inspirações.


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