Quero um amor para juntar os pés no domingo

Ju Farias

Desejo um amor para juntar os pés em uma tarde de domingo, foi isso que respondi quando me questionaram sobre o tipo de pessoa que quero para minha vida. Talvez essa frase tenha ficado fora de contexto, eu sei, mas essa é uma das coisas mais simples do mundo. Nada que seja muito caro, entende? Bom mesmo é a simplicidade que os momentos singelos são capazes de nos proporcionar.

Café na cama, sabe? Não precisa ser um banquete na bandeja enfeitada com flores do campo, também não é que não goste de flores, nada disso. É só um cafezinho feito na hora e um pãozinho com manteiga, seguido de um beijo doce para que o dia seja leve.

É preparar a marmita do outro, separando cuidadosamente o arroz do feijão, pois ele não gosta quando a comida se mistura uma na outra. “Detalhes tão pequenos de nós dois”, disse o Rei. É isso! Detalhes, detalhes, detalhes…

É saber dar o espaço necessário para que ele tenha seus silêncios escutados, pois todo mundo precisa de momentos assim para manter a sanidade. Desejo um amor que queira contar sobre seu dia, mas que também queira ouvir o meu.

É, quero um amor saiba ouvir.

Que um simples passeio no parque não seja mais do que um simples passeio no parque, onde a gente senta na grama e observa o céu, sem que isso precise ser um acontecimento histórico. Que nossa vida seja repleta de momentos simples assim, como ficar em casa assistindo um documentário qualquer que nos torne melhores do que somos.

Quero um amor que discuta comigo as mazelas dos que têm menos do que a gente. E que isso lhe cause indignação, mais do que pena. E que juntos possamos mudar o mundo, nem que seja apenas o mundo de quem está ao nosso redor, o que já é bem importante.

Desejo alguém que não deixe de escutar sua banda preferida, mas que abra os ouvidos para conhecer a minha. Que possamos nos permitir inteiros um ao outro, conhecer o que gostamos de ler, quais atores preferidos nos levam ao cinema. Que possamos ser quem somos – sendo ainda melhores quando estamos juntos.

Quero uma pessoa real, de carne e osso, remela e bafo, normal como qualquer outra. Desejo alguém que fique de cara quando eu pisar na bola, que brigue, que implique, mas que escute os meus motivos sem julgamento precipitado. Uma pessoa que me permita nunca desistir de aprender sobre as melhores formas de ser eu mesma, muito mais do que ser quem ela deseja.

Desejo alguém que tenha suas manias mais chatas e que não esconda nenhuma delas, pois se me permiti amar é porque quero o pacote completo. Quero alguém que não implique com minha coleção de havaianas, de chapéus, de meias ou com o mau humor que me tira da linha após dez minutos em qualquer fila.

Não quero um copiloto que sente ao meu lado esperando que eu decida o trajeto, mas alguém que faça questão de pegar junto, de revezar na cabine para evitar o cansaço e que não tenha medo de refazer o caminho se o destino indicar algum dano. Quero um amor que seja âncora, que estacione, que pouse no meu porto (e no peito) e fique enquanto houver combustível.

Desejo alguém que descanse serenamente na paz do meu colo, que recoste a cabeça sem pressa, sem dúvidas, sem preocupações. E que me acorde no meio da noite se perder o sono, que me conte seus medos, seus segredos, seus anseios e seus sonhos.

Desejo alguém que durma sem medo de destapar os pés no frio gelado que faz aqui no Sul, pois sabe que jamais permitiria que passasse frio. Quero uma pessoa que feche os olhos na certeza de que irá me encontrar ao seu lado ao acordar.

Uma pessoa que devolva o meu sorriso de bom dia, completamente feliz por estar onde está, certa de que outro lugar qualquer não seria tão gostoso quanto ali, protegida no meu abraço apertado – e sem fim.

Quero um amor para juntar os pés em uma tarde de domingo.

(Dedico esse texto a todos que acreditam no que canta o mestre Lulu Santos: “consideramos justa toda forma de amor”).

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Ju Farias

Não nasci poeta, nasci amor e, por ser assim, virei poeta. Gosto quando alguém se apropria do meu texto como se fosse seu. É como se um pedaço que é meu por direito coubesse perfeitamente no outro. Divido e compartilho sem economia. Não estou muito preocupada com meus créditos, eu quero saber mesmo é do que me arrepia. Eu só quero saber o que realmente importa: toquei alguém? É isso que eu vim fazer no mundo.


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