Quanto custa a nossa paz?

Ju Farias

É difícil afirmar quantas pessoas nascem no mundo diariamente. Por aqui, somando todos os estados brasileiros, são 321 bebês que percebem o mundo pela primeira vez a cada dia. Ao mesmo tempo, cerca de 20 mulheres são mortas por dia no Brasil apenas pelo fato de serem mulheres e, a cada 25 horas, uma pessoa LGBT morre de forma cruel vítima do preconceito.

Há algo errado acontecendo, há algo muito errado acontecendo com a gente. Enquanto alguns enfrentam o trânsito difícil de São Paulo, outros ejaculam dentro desses veículos como se fosse a coisa mais natural do mundo.

E, pior do que isso, enquanto alguns enfrentam o trânsito difícil de São Paulo e outros ejaculam dentro desses veículos, uma minoria de juristas e especialistas em Direito colocam a culpa na Lei como justificativa para não prender quem pratica essa violência moral contra uma mulher ou qualquer outra pessoa.

Quando alguém ejacula no corpo de outro sem seu consentimento, muito mais do que uma mera contravenção penal, está praticando um estupro. Talvez não seja um estupro carnal, mas certamente é um abuso para a alma.

Só o transporte público de São Paulo – segundo dados oficiais, registrou 288 casos de abuso sexual em ônibus, trens e metrô. Se calcularmos direito, podemos dizer que ao menos uma pessoa por dia sofre essa violência.

Enquanto tentamos entender tudo isso, o furacão Harvey devasta o Texas e deixa milhares de pessoas desabrigadas. E o desastre de Mariana ainda sangra as feridas de quem perdeu não só a casa, mas os filhos, a mãe, o pai e os amigos.

Enquanto a Glória Perez tenta explicar que as pessoas têm direito de ser o que são, a desnutrição aguda provoca a guerra da fome no Sudão do Sul, na Somália, na Nigéria e em tantos outros.

Enquanto o racismo persiste, o Tsunami na Indonésia e as chuvas na região serrana do Rio de Janeiro ainda estão em carne viva na minha memória. Enquanto os políticos roubam nosso dinheiro na cara dura, a Coreia do Norte informa que seu teste nuclear foi muito ‘bem-sucedido’. E quando achamos que os países poderiam se unir para combater uma possível terceira guerra mundial, os EUA prometem ‘resposta militar maciça’ às ameaças do inimigo.

Não sei ao certo qual é o caminho da mudança, mas tenho certeza de que não é esse. Sinto uma vontade imensa de pedir pela paz, mas uma descrença absurda por não entender o que pensa esse juiz de São Paulo, o Trump, o cara do ônibus, os corruptos, o Cunha, o Temer, o agressor da esposa.

Não sei o que acontece com o pastor que prega o amor genuíno, mas condena o cara que ama outro cara ou o travesti que também quer exercer sua fé. Não dá para compreender o ódio contra o próximo, contra a natureza, contra os animais.

Que a gente tenha coragem de pagar o preço, de correr contra o tempo e de gritar tudo aquilo que nos causa indignação. Que as injustiças morais, físicas e todas as outras sejam combatidas, aniquiladas e colocadas à prova do amor.

Por que o amor vence tudo. Só o amor vence o ódio, ainda que o segundo pareça mais forte. O amor é mais importante do que todo o resto e o ser humano é capaz de amar muito mais do que imagina.

Basta olhar o próximo como ele é: um irmão, um amigo, um parceiro de vida. É preciso impor a nossa voz, pois só assim ela se tornará maior do que o murmurinho de quem ainda acredita que o dinheiro compra tudo.

Talvez ele compre quase tudo, mas nunca comprará a paz que o amor causa naqueles que acreditam que viver seja construir. Pode ser que o mundo mude e minha fé consiga se reerguer nesse momento difícil. Precisamos abraçar o mundo como a mãe que segura o filho pela primeira vez.

Afinal, quanto custa a nossa paz?

Custa exatamente aquilo que o amor nos traz.

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Ju Farias

Não nasci poeta, nasci amor e, por ser assim, virei poeta. Gosto quando alguém se apropria do meu texto como se fosse seu. É como se um pedaço que é meu por direito coubesse perfeitamente no outro. Divido e compartilho sem economia. Não estou muito preocupada com meus créditos, eu quero saber mesmo é do que me arrepia. Eu só quero saber o que realmente importa: toquei alguém? É isso que eu vim fazer no mundo.


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