QUANDO A CUMPLICIDADE INTELECTUAL VIRA DESEJO FEROZ

Sílvia Marques

Quem já amou alguém intelectualmente compatível, sabe o quanto o sexo fica muito mais saboroso depois de uma boa conversa. Sabe que uma boa conversa é a melhor das preliminares, o caminho mais certeiro para alcançar e satisfazer os desejos mais íntimos da pessoa amada. Sabe que conversar é uma forma muito especial de fazer amor.

Muito se fala sobre os encantos físicos que atraem rapidamente o interesse das pessoas. Muito se fala sobre a química da pele , sobre o beijo perfeito, sobre os lábios que parecem ter sido feitos para nos beijar, sobre as mãos que parecem ter sido feitas para nos tocar.

Muito se fala sobre sensualidade e virilidade. Corpos malhados, perfeitos. Grande preparo físico para loucas empreitadas sexuais. Corpos flexíveis , mãos experientes e hábeis. Fôlego infinito. Verdadeiras maratonas sexuais em que é preciso estar atraente sob os mais variados ângulos.

Muito se fala sobre estímulos que nos capturam quase que imediatamente, que nos fazem cair na teia de um jogo sexual bem banal se a gente for parar para pensar. Para falar a verdade , nem é preciso pensar tanto assim…
O sexo virou performance, um exibicionismo a mais na nossa cultura do simulacro. O amor mero detalhe no contexto das relações eróticas.

Se ele acontecer , aconteceu. Como diria a música “Amor e sexo”…sexo antes , amor depois.
Mas, muitas vezes nos esquecemos de que grandes encontros afetivos , pautados no amor, centrados no amor necessitam de muita química intelectual. Sim, o intelecto pode ser um grande afrodisíaco. Mais do que isso. Pode ser a bomba propulsora de uma relação consistente e densa.

Nenhuma relação se sustenta com caras e bocas e joguinhos de sedução desprovidos de inteligência e ideais em comum. Sim, é preciso gostar de conversar com a pessoa. É preciso gostar de estar com a pessoa. É preciso gostar de fazer amor com a pessoa pelo simples fato de ser a pessoa que amamos e que nos ama.

Quando existe amor das duas partes, com o tempo, o sexo vai se tornando cada vez melhor. Vai se tornando melhor não porque nos tornamos atletas do sexo. Vai se tornando melhor porque aprendemos a dar prazer a quem é especial para nós. Vamos aprendendo a conhecer os limites e as necessidades de quem nos faz feliz fora da cama.

Quem já amou sabe o quanto vale um abraço ou um beijo de despedida por parte de quem amamos. Quem já amou alguém intelectualmente compatível, sabe o quanto é prazeroso e erótico conversar com a pessoa pois a sexualidade não se expressa somente por meio de músculos e genitais. A sexualidade está nas palavras, nas ideias compartilhadas , na troca cúmplice de olhares , naquele sorriso que demonstra que a pessoa amada está te compreendendo.

Quem já amou alguém intelectualmente compatível, sabe o quanto o sexo fica muito mais saboroso depois de uma boa conversa. Sabe que uma boa conversa é a melhor das preliminares, o caminho mais certeiro para alcançar e satisfazer os desejos mais íntimos da pessoa amada. Sabe que conversar é uma forma muito especial de fazer amor.

Em uma sociedade materialista como a nossa , muito mais voltada para a aparência física e os estímulos sexuais imediatos , o meu texto pode soar bizarro. Em uma sociedade que busca parcerias afetivas no tumulto e no frenesi dos bares e das baladas, pode soar estranho falar de conversa e intelecto como manifestações do erotismo.

Na pressa em arranjar alguém ou simplesmente se satisfazer sexualmente, muitas pessoas estão perdendo a oportunidade de se desenvolverem e aprimorarem suas potencialidades afetivas e intelectuais, transformando tudo em espasmos momentâneos.

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Sílvia Marques
Viciada em café, chocolate, vinho barato, filmes bizarros e pessoas profundas. Escritora compulsiva, atriz por vício, professora com alma de estudante. O mundo é o meu palco e minha sala de aula , meu laboratório maluco. Degusto novos conhecimentos e degluto vinhos que me deixam insuportavelmente lúcida. Apaixonada por artes em geral, filosofia , psicanálise e tudo que faz a pele da alma se rasgar. Doutora em Comunicação e Semiótica e autora de 7 livros. Entre eles estão "Como fazer uma tese?" ( Editora Avercamp) , "O cinema da paixão: Cultura espanhola nas telas" e "Sociologia da Educação" ( Editora LTC) indicado ao prêmio Jabuti 2013. Sou alguém que realmente odeia móveis fixos.

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