POR QUE ESTAMOS TÃO CANSADOS?

Manuela Pérgola

Começamos a trabalhar mais, a ganhar menos e a Terra a girar mais rápido, ou há algo mais escondido nessa canseira nossa de todo dia?

É fim de ano, já temos enfeites de natal nos entupindo as artérias, perus sendo vendidos no mercado, o vasilhame da coca-cola cada vez mais gordo, expectativa para o amigo secreto da firma. Nos restaurantes, pontos de ônibus e farmácias escutamos a mesma frase “Nossa, esse ano voou, hein?” (eu mesma me pego dizendo isso a todo instante), mas a pergunta que não quer calar é: por que estamos tão cansados?

Todo mundo anda reclamando que não aguenta mais, que não vê a hora de entrar em férias, que sente muito sono de manhã, que está sem dinheiro (de novo) para os presentes. Deus meu, o que é que está havendo? Falo do alto de minha baixa de energia, às quase onze da noite, depois de um dia de muito trabalho e uma noite de estudo. A questão aqui é pessoal, é social, é minha, é sua e é de todos nós. Por que diabos andamos tão exaustos da vida?

O que nos exaure as energias é mesmo o tempo que anda passando depressa demais, as obrigações que só aumentam e o lazer que só diminui ou há algo mais a notar? O que estamos perdendo, afinal?

Acho que toda essa canseira brota de uma desatenção aos detalhes. Estamos perdendo tempo demais com coisas grandes e deixando de reparar nas miudezas. Nos detalhes das causas da nossa própria insatisfação. Tem muito 3G, muito wi-fi, muita lama, muita guerra, muito ódio, muita política ruim, muito coração partido, muito trabalho, muito tudo. A vida é um imenso plural. A vida é uma vaca megalomaníaca que nos sufoca com suas tetas imensas.

Esquecemos de ir ao médico pra ver aquela dorzinha de cabeça insistente, deixamos de encontrar aquele amigo tão bacana que nos faz rir, desmarcamos o happy hour porque temos que continuar trabalhando (mesmo depois de 8, 9 ou 14 horas diárias); nos deixamos à mercê. Vamos levando, seguindo, tocando a vida. Mas… é isso? Viver é ir tocando? Ir levando? Até quando? Parem o mundo, eu quero descer. E o último ao sair apague a luz, porque a conta de energia só sobe.

E a nossa própria conta, cai na conta de quem? Quem vai pagar a conta dessa enorme insatisfação? Estamos em débito com os nossos desejos?

No fim das contas, volto ao mesmo: é preciso olhar pro próprio umbigo. É preciso se encarar de frente pro espelho, enxergar os cabelos brancos, as rugas em volta da testa sisuda, o peito sempre sufocado, os ombros, que parecem carregar caminhões de carga. Detalhar é preciso. Mas a impressão que eu tenho é que às vezes a vida me atropela. É como se o meu corpo não conseguisse alcançar a linha de chegada porque minha cabeça está em outro lugar. É tudo muito rápido, e eu gosto de olhar pra cima, observar as árvores, tomar o meu café em paz. Às vezes eu só quero descansar. Mas o que nos falta não é tempo.

O que me falta não é tempo. Tempo eu tenho. Tenho tanto, que até trabalho, estudo, trabalho mais um pouco, leio, escrevo, choro, rio. O que eu estou deixando para trás são os detalhes. É aqui mesmo que quero ficar? É por essa rua que quero passar todos os dias? É essa marca de sabão que quero comprar? Não. Eu quero ir embora, dar o fora, “e quero que você venha comigo todo dia todo dia”, quero fazer meu próprio sabão, quero comer orgânicos.
O problema está em ter deixado algum tempo passar fazendo sempre a mesma coisa sem se questionar e de repente culpar o tempo – ou a falta dele – pelas nossas próprias insatisfações.

Fico 40 minutos no facebook, rolando e babando pelo feed de notícias – sangrento e lamacento – e esqueço de ouvir Mozart, que gosto tanto. Fico 30 minutos escrevendo uma mensagem de feliz aniversário para um amigo que mora em Mogi e deixo de discar o número dele e gravar uma mensagem na secretária eletrônica (quem faz isso hoje em dia? Eu acharia o máximo, by the way). Fico correndo de lá pra cá com os ombros tensos, sem respirar direito, e me esqueço de sentar por cinco minutos num banco qualquer e tomar um sorvete. Tá, depois eu volto ao trabalho. Fico assistindo ao noticiário enquanto poderia ler poesia. Fico pensando em quem não está nem aí para o meu músculo cardíaco e não olho o rapaz que acaba de entrar no ônibus e sorri pra mim. Fico acostumada a almoçar em 15 minutos, a mastigar a comida 3 vezes antes de engolir, e perco a oportunidade de experimentar aquele molho agridoce. Deixo de sentir.

Deixo de cheirar. Deixo de suspirar. Deixo de chorar. Deixo de notar. Deixo de andar sob quatro patas.

“A gente se acostuma, mas não devia.”

Eu quero sair de dentro desse abismo que chamo de tempo, quero correr num campo aberto, quero gastar todas as minhas fichas, quero pagar a conta dessa insatisfação sozinha. Quero me alcançar, porque sei que em algum momento – ou em vários pequenos momentos – me deixei ali, na beira da estrada, esperando, enquanto eu corria atrás de alguma coisa que nem sequer descobri o que é. Eu me quero de volta, com todas as imperfeições e contratempos, com a mancha de café no vestido, com o cadarço desamarrado, com todas as marcas que atestem essa gastura causada pela passagem do tempo, não me importa como, desde que eu tenha a verdade de mim mesma.

Pra isso talvez seja preciso parar um pouco. Re-pensar. Re-significar todo esse corre-corre. Planejar algo que alimente a alma. Traçar metas, se lembrar de sonhos esquecidos, fazer a famosa lista de resoluções para o novo ano.

Que bom que a vida foi dividida nesses ciclos de 12 meses que chamamos “ano”. Que bom que o ano está no fim. Passou voando. Que depois das férias essa correria continue, mas que não nos escapem os sentidos mais singulares, que fazem essa correria toda valer a pena. Que o tempo continue voando, mas que não leve a nossa leveza de sentir a brisa que nos toca o rosto.

COMPARTILHAR

RECOMENDAMOS


Manuela Pérgola

Autora de “Fragmensos” (Patuá, 2015), Manuela Pérgola gosta das palavras em todas as suas formas, de dar risada, tomar café e sempre está em busca (de vez em quando descobre do quê). além da poesia, trabalha como psicanalista, mas antes disso já havia sido diagnosticada com uma doença incurável: a análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas.


COMENTÁRIOS