POR QUE ESTAMOS DESISTINDO DE EDUCAR AS NOSSAS CRIANÇAS?

Viviane Battistella

Há semanas vi uma campanha em uma rede social orientando os pais a não obrigarem suas meninas a cumprimentarem com beijo e abraço. A campanha propõe que meninas entendam desde pequenas que não são obrigadas a beijar e a abraçar ninguém se não quiserem.

Peço licença para fazer uma reflexão sobre este assunto e sobre uma série de distorções que assolam nossa sociedade atual.

Crianças precisam ser educadas e isso implica em aprenderem a seguir regras de convívio social. É imprescindível que desde a tenra idade aprendamos a cumprimentar os outros quando chegamos ou quando vamos embora. É natural que os pais ensinem e encorajem seus filhos a serem corteses com os mais velhos e com outras crianças.

A nossa cultura latina é bastante corporal. Beijos e abraços são comuns não só entre os mais próximos. É também uma forma de cumprimentar no momento em que somos apresentados informalmente. Como as crianças ainda não seguem à risca a formalidade é natural que as ensinássemos a cumprimentar inclusive com o beijo e o abraço.

Eis que então, envolta pelo feminismo exacerbado e incoerente; pela triste, porém real cultura do estupro e pela confusão de direitos e deveres das mulheres na sociedade de hoje, alguém decide propor que meninas não são mais obrigadas a cumprimentar com beijos e abraços caso não queiram.

Tenho dúvidas se as pequenas mulheres entenderão a mensagem e também tenho receio de que estejamos criando mulheres egocêntricas e pouco dispostas a fazer o que não querem. Afinal de contas, cumprimentar é educado e é uma obrigação social, ou não?

Não existe vida possível na face da terra na qual se faça apenas o que se quer e muitos educadores, colegas e até pediatras têm mostrado a importância de educarmos nossos filhos com firmeza e com clareza pois temos atualmente uma geração de jovens completamente desorientada e sem consciência alguma sobre seus deveres e direitos sociais. Muitas crianças apresentam transtornos agressivos quando ingressam na idade escolar porque encontram no professor o primeiro obstáculos à realização de todas as suas vontades cujos pais, perdidos, se esquecem de mostrarem que a vida é feita de limites – e não são poucos. Crianças não devem escolher se cumprimentam ou não, se estudam ou não, se comem ou não, se respondem ou não ao chamado.

O que pode fazer com que sua filha não se sinta obrigada a beijar e a abraçar quem não quer é algo chamado autoestima e este algo é adquirido através de uma conduta dedicada de seus pais, do amor e do respeito que tiverem por ela. Amar, respeitar e educar – esta é a lei. Não é libertando-as de cumprimentar os adultos que vamos conseguir que entendam que não são obrigadas a beijar e a abraçar todos que desejem – mas sim mostrando a elas desde cedo como amarem a si mesmas.

É ouvindo um bom e belo “não” que elas aprenderão a dizê-lo quando for preciso, e será a autoestima que fará com que elas escolham mais tarde quem beijar e quem abraçar. Meninas com baixa autoestima é que se tornam mulheres fracas e suscetíveis aos homens de caráter duvidoso.

Pode ser que estejam agora querendo me perguntar sobre o risco que correm as crianças de serem molestadas, afinal, uma entre cada cinco mulheres já sofreu abuso de homens próximos (muitas vezes bem próximos) da família. O que faz com que uma criança conte sobre o abuso e peça ajuda é o vínculo que ela tem com seus pais e vínculo se cria através do convívio, do cuidado e da dedicação a educar. Pais atentos são capazes de perceber o perigo iminente ou ainda de perceberem as mudanças de comportamento dos filhos que acabam por denunciar o problema. A palavra é: esteja sempre próximo.

É preciso ver menos maldade e também tomar cuidado com extremos. Existe hoje em dia uma inversão de valores sobre a igualdade de gêneros que têm prejudicado muito o desenvolvimento saudável do convívio e do respeito dentro da sociedade.

Mulheres têm vitimizado-se diante de situações diversas e confundido seu próprio papel social e sua própria identidade. Meninas podem desenvolver receio ou fobia ao adulto se a elas for passada qualquer mensagem subliminar de perigo em um simples cumprimento.

É importante buscar ajuda psicoterapêutica quando perceber-se intolerante ao mundo que tem sim suas particularidades entre os gêneros e é preciso principalmente pensar antes de engolir conceitos rasos como o que descrevi acima sem conhecer o desenvolvimento infantil. E junto de tudo isso, é preciso reportamo-nos ao tempo no qual respeitávamos e cumprimentávamos os mais velhos sem maldade alguma.

Se uma criança não precisa sequer cumprimentar os mais velhos, que regras sociais ela irá seguir quando adulta? Se mostrarmos aos nossos filhos apenas seus direitos, como será quando tiverem que cumprir seus deveres?

Estarmos próximos, comprometidos e atuantes na educação é a melhor segurança que podemos oferecer aos nossos filhos.

E para finalizar deixo uma pergunta:

Existe coisa melhor do que um beijo e um abraço?

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Viviane Battistella
Psicóloga, psicoterapeuta, especialista em comportamento humano. Escritora. Apaixonada por gente. Amante da música e da literatura...

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