Para ser feliz de verdade, é preciso parar de fugir das emoções negativas

O jornalista inglês Oliver Burkeman reúne no livro Manual
Antiautoajuda um arsenal de argumentos contra o pensamento
positivo e as estratégias simplórias para alcançar o sucesso

Foi o escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881) quem propôs pela primeira vez o desafio do urso polar. O autor de Os Irmãos Karamázov sugeriu que o incauto que tentar ficar por um minuto sem pensar no animal não conseguirá cumprir a tarefa. O mamífero ártico sempre aparece. No século 20, o psicólogo americano Daniel Wegner analisou a questão e concluiu que a mente humana sabota quem tenta se afastar de uma ideia de maneira racional. É o que explica, por exemplo, por que é tão difícil parar de fumar. Dos estudos de Wegner nasceu a chamada teoria do processo irônico: evitar pensar num assunto só faz com que ele volte à cabeça com maior intensidade.

O jornalista inglês Oliver Burkeman esbarrou com esse fenômeno em seu trabalho de colunista do diário londrino The Guardian. Quanto mais escrevia sobre psicologia, mais emergia um padrão entre os textos, as entrevistas e as fórmulas de autores que falavam de felicidade. Quanto menos convincentes essas ideias pareciam para Oliver, mais estavam relacionadas ao pensamento positivo. Havia algo de estranho com os discursos que pregavam que a força de vontade, o desejo de superação e a negação do fracasso compunham a fórmula das pessoas bem-sucedidas.

O jornalista foi buscar no estoicismo, uma escola filosófica da Grécia Antiga – que reverbera em várias pesquisas recentes -, argumentos para mostrar que as pessoas se dariam muito melhor se aprendessem a conviver com sentimentos e pensamentos negativos, fracasso, insegurança, mortalidade, e todo o resto. “Para sermos felizes de verdade, talvez tenhamos de nos dispor a vivenciar mais emoções negativas ou, no mínimo, parar de fugir tanto delas”, diz Oliver num trecho do livro Manual Antiautoajuda: Felicidade Para Quem Não Consegue Pensar Positivo (Paralela, 2014). “É claro que eu gostaria de ter uma resposta mais fácil para dar às pessoas, do tipo ‘dez passos para seguir e ser incrível’. Mas acho que ninguém sabe de verdade que passos são esses.”

Veja a seguir trechos da entrevista que Oliver concedeu:

Fórmulas simples                                                                                                  “Sou um pouco contraditório, pois acabo oferecendo algumas dicas e sugestões no livro. Mas eu não digo em vez de pensamento positivo, eis aqui uma resposta completa para felicidade e sucesso. Acho que boa parte do problema está nessa vontade que as pessoas têm de encontrar uma resposta completa para tudo. Acho que boa parte da solução é aprender a aceitar que tudo bem se você não souber exatamente a resposta. Tento evitar, no livro, dar a mesma fórmula ao contrário. ‘Leia aqui dez passos, siga-os e prometo que tudo vai ficar bem.”

Metas
“As metas são um ótimo exemplo de como o contexto do pensamento positivo pode ser algo prejudicial para uma empresa. Muitas companhias gostam de acreditar que basta pensar positivo para os problemas desaparecerem. Quando um funcionário chega e diz ao chefe que não será possível cumprir de­ter­minada meta, ele pode estar errado. Mas ele também pode estar fazendo um papel que é crucial para a so­bre­vivência e o sucesso de um negócio. Algumas pessoas têm uma per­sonalidade pessimista que permite que percebam pro­ble­mas e situações em que tudo pode dar errado. Da mesma forma, há quem torça para tudo dar certo. Acho que é bom haver um equi­líbrio entre essas duas perspectivas. Essa ideia de ter metas e pensar positivo pode ser facilmente levada de maneira muito radical. Por isso, quando um funcionário diz que não será possível alcançar uma meta, ele talvez esteja querendo dizer que essa meta precisa ser reavaliada. Acho melhor do que ter essa visão restrita que costuma ser muito encorajada nas corporações.”

“Não existe uma biografia de alguém que errou e não chegou a lugar nenhum. Esse tipo de gente não fica famoso. A pessoa deve aprender a aceitar o fracasso que não leva a lugar nenhum também.”

Pessimismo
“Não estou dizendo que devemos todos ser pessimistas, mas que certo grau de pessimismo pode ser um traço de personalidade útil, e que pessoas que são naturalmente mais pessimistas não devem necessariamente se forçar a ser otimistas. Psicólogos têm mostrado que um tipo de pessimismo conhecido como pessimismo defensivo pode ser um mecanismo de enfrentamento muito útil. Ao contemplar o pior cenário possível, as pessoas ficam menos ansiosas, se preparam para resultados diferentes de maneira racional e não emocional, seguem adiante de um jeito mais relaxado e confiante e, dessa forma, aumentam as chances de sucesso.”

A existência do fracasso                                                                                      “Só ouvimos falar dos ‘benefícios do fracasso’. Muitos livros de autoajuda mostram casos de pessoas que alcançam o sucesso após o fracasso. Não existe uma biografia de alguém que errou e não chegou a lugar nenhum. Esse tipo de gente não fica famoso. A pessoa deve aprender a aceitar o fracasso que não leva a lugar nenhum também. Isso é muito mais difícil. Acho que há um grande benefício para a felicidade quando você se permite falhar. E não quero dizer a falha seguida de acerto. Apenas o simples erro. Isso pode ajudar a perceber outros aspectos valiosos na vida. No livro, dou o exemplo de um executivo que dizia que seria milionário até os 40. Ele conseguiu, mas acabou ficando sem mulher e os filhos não falam mais com ele. Isso é sucesso ou estamos usando os padrões errados?”

Fazer o que gosta                                                                                               “Acho legítimo que algumas pes­soas­ não queiram que o trabalho seja a coisa mais importante da vida delas. Então precisamos ter cuidado em relação a essa história de ‘do what you love’ (faça o que você ama). É ótimo quando isso acontece, mas nem todo mundo consegue. Talvez você seja alguém que faça o que ama em outro contexto de sua vida que não o trabalho. Eu, por exemplo, adoro tocar piano. Mas sou péssimo. Se tivesse de fazer isso profissionalmente, com certeza deixaria de achar divertido. Outro problema é essa ideia que as pessoas têm de que precisam encontrar uma paixão, como se fosse um objeto que estivesse as esperando por aí. Por isso, elas mudam constantemente de emprego por ainda não terem achado a verdadeira paixão. Mais sábio é fazer o contrário: escolha algo e trabalhe duro até que você fique muito bom e isso se torne sua paixão.”

Metas ilusórias
A estratégia da General Motors para retomar uma participação de 29% no mercado americano nos anos 2000 (que fez a montadora conceder descontos que a levaram à bancarrota em 2009) é descrita no livro como um exemplo de mau uso das metas como fator motivador. Fazer os funcionários correr atrás de um objetivo irreal­ prejudicou mais a empresa.

Meditação distorcida
Em uma reportagem sobre o universo da meditação, Oliver­ mostra como os preceitos do budismo foram adulterados pelo pensamento positivo ocidental para ser confundidos com uma busca por bem-estar. “Há um conceito budista mal compreendido, o desapego, que situa a meditação no caminho oposto para a felicidade”, escreve Oliver.

O lado bom de tudo
Oliver descreve sua visita a um grande evento motivacional nos Estados Unidos onde assistiu a uma palestra do ex-presidente americano Geor­ge W. Bush. O jornalista analisa como Bush transforma,­ em seu discurso, os vários percalços e as polêmicas de seu governo em obstáculos superados pela fé em um “futuro melhor” para seu ­país. “Sempre se encontra um jeito positivo de interpretar uma eventualidade”, escreve.

Terapia eficaz                                                                                                                   O que Oliver Burkeman indica para combater o pensamento positivo No livro, Oliver indica o estoicismo como remédio contra a autoajuda. Essa escola filosófica nascida na Grécia Antiga tinha um conceito de felicidade muito diferente da noção atual. Ela defendia uma indiferença em relação às emoções externas, tanto as boas quanto as ruins. Para o romano Sêneca, a felicidade consiste em um estado mental de tranquilidade em relação à vida, e não de alegria. Segundo Sêneca, essa serenidade seria “o cultivo de certa indiferença tranquila em relação às circunstâncias individuais”.


>>Esta matéria foi publicada originalmente na edição 190 da revista Você S/A, em março de 2014 e pode conter informações desatualizadas. Leia mais notícias relacionadas a carreira, mercado de trabalho e finanças pessoais em vocesa.uol.com.br

VIAAnna Carolina Rodrigues
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Resiliência Humana
Bem-estar, Autoconhecimento e Terapia



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