O QUE APRENDI APÓS SEIS MESES DE TERAPIA

Eu sempre soube que precisava de um acompanhamento terapêutico. Depressão, crise de identidade e ansiedade sempre fizeram parte da minha vida e algo em mim parecia estar desajustado. Lá no fundo eu sabia que ter a opinião imparcial e conselhos de uma pessoa de fora dos meus círculos de relacionamentos abriria meus olhos para encontrar as soluções para os problemas que passava.

Contudo eu demorei para iniciar um acompanhamento psicoterapêutico. Primeiro por que precisava ser independente financeiramente já que, em sua maioria, as sessões são caras. Em segundo lugar, havia algo em mim que dizia que iniciar esse tipo de tratamento seria como desistir, erguer a bandeira branca, perder a guerra.

Um preconceito que não poderia estar mais errado.

Depressão e outros problemas associados à psique humana ainda são um tabu na nossa sociedade. As pessoas preferem varrer para baixo do tapete suas angústias a admitirem publicamente que necessitam de ajuda profissional. Mas ignorar um problema não o torna inexistente. A busca por esse tipo de ajuda profissional demonstra maturidade e uma atitude positiva na busca pelas soluções. Iniciar um tratamento terapêutico é colocar o dedo na ferida, escancarar a sua vida para uma pessoa que você não conhece e iluminar cantos de uma alma que já se acostumou com a escuridão.

Naquele dia cheguei pontualmente e logo fui atendido. Minha terapeuta já me aguardava e meu processo de desconstrução começou ao entrarmos na sala. Não havia o famoso divã. Apenas nos sentamos em duas poltronas, um de frente para o outro, e ela me perguntou: “O que te traz aqui?”

Só sei que desde aquele dia eu não parei mais de falar. O que me levava ali? Eram tantas coisas! Assuntos da infância, pré-adolescência, juventude, coisas da semana passada, do dia anterior… Eram assuntos sobre amizades, relacionamentos, autoestima, família, um leque de categorias. Conversamos até mesmo sobre assuntos que nem passavam por minha cabeça de se tornarem pauta.

E as nossas conversas nunca mais pararam, sempre iniciadas pela sentença “O que te traz aqui?”.

Seis meses ainda é muito pouco tempo. Ainda avanço devagar, a passos de criança, mas o quanto amadureci e o quanto me conheci nesses últimos meses compensaram todo o tempo em que sofria em silêncio e sozinho.

Admitir que precisamos de ajuda não é um fracasso.

Se você sente dor de estômago sua busca por uma cura é procurar um gastro. Se seu dente está doendo não é de se estranhar que você busque por um dentista. E o que fazer quando a alma vai mal? Quando os sentimentos estão à flor da pele, gritando e sangrando, também precisamos de ajuda profissional. Não há nada de errado em admitir que algo não vai bem. Esse gemido interior não passará por encanto. Problemas envolvendo nosso psicológico devem ser tratados como qualquer outra doença e isso pode envolve consultas, remédios (ou não), idas e vindas, retornos e atestados. E, mais do que isso, se ao buscarmos um médico especializado em outra área nos sentimos bem, por que ir a um terapeuta seria algo ruim? Não veja como fracasso os passos de vitória que você dá.

Muitas vezes maximizamos os nossos sentimentos e perdemos a real visão da situação.

De minha visão limitada, todos os meus problemas parecem grande demais, difíceis demais. O terapeuta olha para a sua vida como um leitor lê um livro. Ele vê de fora, sua opinião é imparcial. Exatamente por isso ele pode apresentar para você uma nova perspectiva, ele pode tentar direcionar seu foco para o outro lado da moeda, aquele que você não conseguia encontrar.

Seus sentimentos são legítimos. Cada um sabe aonde dói e nunca podemos dizer que alguém está exagerando. Mas é comum perdemos o foco no turbilhão de problemas e vestirmos uma posição passiva na hora de resolvê-los. A grande chave do psicoterapeuta é te ajudar a olhar para cima, levantar do chão e buscar as soluções.

Quanto mais cedo procurarmos por ajuda, melhor.

O que importa é buscar a ajuda, sim. Porém, assim como qualquer outra doença, quando mais cedo isso acontecer menos a sua visão sobre a situação estará distorcida. Quanto mais tempo demorar para admitir que você precisa de ajuda pior a situação ficará. Logo, o tratamento será mais longo e mais caro. Se procurarmos ajuda mais cedo é bem mais simples e menos traumático.

Eu sou responsável pelas minhas escolhas e por lidar com as consequências delas.

E, mais do que responsável, eu sou capaz de lidar com as minhas decisões. As escolhas que eu faço em minha vida cabem a mim, e somente a mim. Um terapeuta não irá dizer o que você deve fazer, ele o aconselhará. Ele irá te ajudar a entender que as pessoas ao seu redor podem te influenciar, mas não podem te dominar. Isso foi um passo muito importante em meu processo de cura. É comum chegar em uma sessão descarregando amargura ou queixas sobre alguém sendo que, em muitas vezes, o problema está em nós.

Todos temos questões mal resolvidas. Essas questões puxam outras questões durante a nossa vida e no final temos uma bola de neve. Sempre há um motivo que possa nos levar à uma sessão de terapia. Em alguns casos essa necessidade é menor, em outros é essencial para termos qualidade de vida.

Após iniciar o meu tratamento psicoterapêutico percebi que seria possível restaurar as ruínas da minha vida, bloco por bloco, passo por passo. Esse processo é lento e pode durar meses… anos. Mas valerá a pena. Assim como outros tratamentos em nosso corpo, os resultados vão aparecendo e a cada vitória você se sente estimulado a continuar, a caminhar mais uma milha.

Eu precisava de ajuda. Busquei essa ajuda. Hoje sei quem eu sou e como devo lidar com as muitas faces da minha identidade. Se você, assim como eu, se vê em uma situação sem saída e querendo ter alguém para conversar, deixe o preconceito de lado e procure ajuda de um profissional que está apto para te ouvir, consolar e orientar.

* Acho importante ressaltar que esse texto foi escrito por um paciente. O relato é feito por uma visão não clínica e que cada caso é um caso. 😉

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