O peso da simplicidade

Manuela Pérgola

Em tempos em que precisamos (ou acreditamos precisar) carregar um monte de tralha, a simples ideia de esvaziar a “bolsa interna” se torna complexa e dolorida. Por que a simplicidade é uma conquista tão difícil?

Eu sempre achei que com o passar do tempo as coisas ficariam mais pesadas, uma vez que quanto mais o tempo passa, mais coisas temos: compromissos, questões, dúvidas, trabalhos, coisas, coisas, coisas. Nem é tanta coisa assim, mas no corre-corre do dia-a-dia parece ser uma montanha que nós insistimos em enfiar dentro da bolsa antes de sair de casa.

Mas eu me enganei. As coisas ficaram mais leves. Me livro de algumas bagagens pesadas que costumava carregar, das picuinhas, dos “lenga-lengas”, e, veja!, resta a vida. Nada mais, nada menos. Simples assim, como canta Lenine.
O problema é que não dá pra ser tão simples. É pesado carregar pouco. A simplicidade pesa, e pesa porque até ela há um caminho a ser percorrido. Um caminho de “livramento”, porque é preciso se livrar de muitas coisas. Coisas que já não servem mais. Coisas que pesam demais. Coisas que são leves demais e que por isso não conseguimos segurar nas mãos. Coisas que já serviram, pelas quais conservamos um apego especial (como a criança, resistente, quando a mãe pergunta quais brinquedos quer doar), mas que agora simplesmente não cabem no armário novo. Coisas que são passadas e no passado devem permanecer.

Se livrar do peso das coisas é como mergulhar de uma vez na água gelada. Dói. A gente coloca a ponta do pé e jura de pé junto que morre de hipotermia se entrar de cabeça; mas não morre. Ninguém nunca morreu por se livrar de coisas que pesam demais. As coisas que pesam demais não são apenas coisas, objetos materiais. Aliás, estão longe disso. Eu falo das coisas que pesam subjetivamente (ah, esse peso é pesado!).

Não é a vida que pesa. A vida é só a vida. Nós é que a adornamos, por vezes com coisas pesadas demais. Com demandas demais. “Por que tudo (fulano, ciclano) não pode ser diferente?”. Uma pergunta que, sozinha, ultrapassa o limite permitido para realizar a viagem. Uma pergunta que pesa.

Descobri depois de muita dificuldade (… e muita análise, mas não espalhem), que para alcançar o simples, às vezes é preciso percorrer caminhos difíceis. É uma faca de dois gumes, e afiada, por sinal. Porque, inevitavelmente, leva a nós mesmos. Somos nós que não queremos nos livrar daquele vestido de formatura de 1999, daquela velha mágoa que envelhece a cada ano e não amadurece nunca, daquele apego por alguém que simplesmente não faz questão, daquele padrão de pensamento que sempre nos leva pro buraco. É a gente que, no fundo, gosta de sofrer. “E se eu sair de casa carregando apenas meu RG e alguns trocados na bolsa? Vão achar que não tenho nada, vou me sentir inferiorizada(o)…”; “Por via das dúvidas, deixa eu carregar isso aqui, porque vai que me desprendo disso e o espaço fica vago para aquele meu desejo de tocar oboé?”.

Por isso o simples é complicado. Porque não se trata apenas das coisas, mas de como nós enxergamos as coisas. O complicado continuará sendo o mais fácil enquanto não nos desapegarmos das sofrências desnecessárias. Enquanto insistirmos em ter essa demanda incansável em relação à vida e às pessoas. É nesse sentido que o simples abre espaço para a leveza das coisas como elas são, para as pessoas como elas são: porque limpando a nossa área interna, abrimos espaço para outras coisas. O céu fica livre de nuvens e podemos enxergar as cores mais vivas e os detalhes que quase nunca podíamos reparar, devido à névoa das complicações.

Enquanto escrevia, me lembrei desse poeminha muito certeiro, do Horácio Dídimo:
“as coisas não acontecem
como a gente quer
nem mesmo como a gente
não quer
as coisas nunca pedem
a nossa opinião”

Chego à conclusão de que talvez nos falte ver a vida como ela é, apenas. Talvez só assim belezas desabrochem dos buracos na terra nos quais costumávamos plantar de tudo, e ao mesmo tempo, nada. A simplicidade pode pesar, porque, por incrível que pareça, emerge do contato com o que temos de mais difícil. As coisas continuarão sendo coisas, as relações continuarão trazendo para a superfície nossos conflitos internos, as dificuldades continuarão a surgir, mas cabe a mim – e apenas a mim – decidir como vou olhar pra tudo. A simplicidade é um grande clichê, mas clichês fazem todo sentido quando sentidos. Não pode ser tão complicado assim.

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Manuela Pérgola
Autora de "Fragmensos" (Patuá, 2015), Manuela Pérgola gosta das palavras em todas as suas formas, de dar risada, tomar café e sempre está em busca (de vez em quando descobre do quê). além da poesia, trabalha como psicanalista, mas antes disso já havia sido diagnosticada com uma doença incurável: a análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas.

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