O LADO SOMBRA

O Círculo de Estudos do Psiquismo, um projeto que está em andamento em Saquarema, promovido por uma instituição da qual faço parte, abre um espaço de reflexão sobre temas ligados aos aspectos psíquicos do ser humano, em uma visão interdisciplinar mas bastante calcada na Psicologia de Carls Gustav Jung. Uma das questões abordadas no último encontro foi a existência de um lado obscuro da personalidade, a que Jung chamou de Sombra.

A Sombra é um arquétipo primordial incluso na estrutura psíquica nos processos de concepção, gestação e nascimento, instalando-se como um patrimônio da mente que passará a influenciá-la ao longo de sua existência.

A princípio, na postura da Psicologia tradicional, esse arquétipo viria do inconsciente coletivo, tornando-se parte do inconsciente individual.

O lado Sombra é aquele aspecto da personalidade que insistimos em negar, que permanece obscuro e quase sempre com tendências a se projetar naqueles que estão próximos de nós afetivamente, na maioria das vezes nas pessoas do mesmo sexo. Dessa forma, acabamos por ver nosso lado Sombra no comportamento alheio, valorizando-o no outro porque, na verdade, ele se ressalta a partir de nós mesmos. Quando observamos estar criticando nas pessoas, muito sistematicamente, determinados tipos de comportamento, fiquemos atentos pois poderá ser um aspecto de nossa própria Sombra que queremos negar.

Entretanto, poderemos estar pensando que esse lado Sombra só é composto de sentimentos ruins, o que não corresponde à realidade, ainda que esta seja a prevalência. Algumas vezes a Sombra pode ser algo de bom que queremos negar, por não ser útil as necessidades do contexto de nossas vidas. Para determinadas pessoas, um comportamento bom pode vir a ser motivo de fraqueza diante de relações sociais regidas pela competitividade e violência, tornando-se ela mesma, a Sombra, algo perigoso para a sobrevivência.

Trazendo a interpretação da Sombra para o paradigma transpessoal, vamos entendê-la como a bagagem de nossas histórias pregressas, das vidas passadas que permanecem em nós, através das personalidades que já vivemos, não elaboramos, e que continuam presentes influenciando nossas atitudes inconscientemente.

O fato de termos uma história palingenésica, de termos vivido muitas encarnações, nos leva à concepção de uma personalidade global em construção, que é o somatório das personalidades transitórias vividas. Quando alguma dessas personalidades deixa conflitos não resolvidos, que não foram elaborados pela consciência para se transformarem em produtos de evolução, e isso parece acontecer quase que invariavelmente, esses conflitos continuam aguardando resolução. Nesse estado psíquico, apesar de estarmos com a nova personalidade da vida atual, as anteriores se mantêm influenciando o comportamento.

O grande problema dessa situação é o desconhecimento do fato, o que se dá no caso da Sombra, quando os conteúdos psíquicos negados se transformam em complexos que poderão adquirir autonomia, imunes à ação da consciência. Nessas condições, algo parece existir que nos leva em uma direção quando gostaríamos de seguir em outra, fazendo não aquilo que conscientemente sabemos ser o melhor, mas o que as forças inconscientes nos induzem.

Determinados casos de vícios, de comportamentos obsessivos-compulsivos, de emoções e atitudes repetitivas e incontroláveis podem ser explicados dentro desse referencial.

Assim, um grande desafio para o encontro do equilíbrio emocional é tornar consciente nossa Sombra, no processo que Jung chamou de individuação, dando-nos uma visão mais clara de nosso Self, de nossa totalidade.

Estudar-se e conhecer-se a si mesmo, como autodidata ou em processos analíticos, é facilitar medidas profiláticas e terapêuticas para o alcance da felicidade e da paz interior.

Nem sempre conseguimos ver como estamos, por isso fazemos uso de um espelho que reflita nossa imagem. E a melhor forma de analisar a íntegra de quem somos é observar, no espelho da mente alheia, as projeções que fazemos de nossa Sombra, para que, olhando-a frente a frente, venhamos a aceitá-la e elaborá-la no rumo da saúde mental.

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João Carvalho Neto
-Psicanalista -Terapeuta Floral -Terapeuta Regressivo -Mestre em Psicanálise -Psicopedagogo -Autor dos livros “Psicanálise da alma” e “Casos de um divã transpessoal” -Autor da tese “Fatores que influenciam a aprendizagem antes da concepção” publicada na Revista da Associação Brasileira de Psicopedagogia e apresentada no V Congresso Brasileiro de Psicopedagogia -Autor do trabalho “Estruturação palingenésica das neuroses” apresentado no 3º Congresso da Associação Médico Espírita do Brasil -Autor do Modelo Teórico para Psicanálise Transpessoal, apresentado no 3º Congresso Mundial de Terapia Regressiva (RJ) e no I Congresso Nacional de Terapia Regressiva (BA) -Presidente IV Congresso Nacional de Terapia Regressiva (RJ) -Professor convidado do Curso de Pós-graduação em Terapia Regressiva da Faculdade Einstein (São Paulo, Salvador e Aracaju) -Criador do Espaço Terapêutico “Elaboração – terapias e cursos” -Coordenador do Grupo de Estudos em Psicanálise Transpessoal -Editor do jornal “Elaboração” -Escritor de artigos publicados em revistas e jornais especializados -Orador de palestras realizadas em reuniões, eventos, congressos e seminários -Poeta



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