O HÁBITO FRENÉTICO DE FOTOGRAFAR MOMENTOS SEM VIVÊ-LOS

Numa tarde de sábado parecia tudo normal, rotineiro, assim como a dinâmica da vida moderna. Se era necessário um refúgio para escapar de tal modernidade, algum lugar que não faz jus a este elemento deveria ser procurado. Não exatamente um lugar cuja característica principal é antagônica à modernidade, mas um lugar em que não houvesse nenhum sinal, objeto, ser, barulho, reação ou qualquer outra coisa que remetesse a ela.

Alguns quilômetros foram percorridos a pé para chegar a uma cachoeira. Foi este o refúgio escolhido. Talvez o desejo não fosse só o de fugir da inquietude persistente do cotidiano, mas também o de encontrar uma espécie de tranquilidade interna, um equilíbrio que não sei de onde, nem por onde encontraria naquela água que caía das pedras. A constância intensa das águas se consolidava a cada momento em que a nascente a libertava para seguir a gravidade. A cachoeira se movia num frenesi que só a natureza é capaz de ocasionar.

Partindo do poder faraônico natural para a influência humana devastadora (no sentido de transformar, claro!), paulatinamente a sistematização deu origem à modernidade, pensamento contrário, porém possa revelar uma relação de interdependência entre estes dois elementos, é o de que a modernidade deu origem à sistematização, que deu origem à mecanização, à materialização, à necessidade de exatidão, de precisão, de (relativa) perfeição.

A cachoeira lá estava, servindo de cenário, plano de fundo, constantemente. Um olhar analítico observava pessoas posando da maneira mais superficial para fotos. A frequência do flash era frenética, que só a tecnologia é capaz de ocasionar. A cada milésimo de segundo a constância das águas era registrada de modo que cotejasse com a felicidade exibicionista e artificial estampada nos sorrisos das famílias. Um lugar natural e rico em pureza sendo injustamente objetificado, equivocadamente apreciado.

Sobre uma pedra, um olhar analítico de alguém que observava isso com incompreensão e desespero. A cachoeira, por um mísero momento, saiu do lugar de protagonista e tomou o lugar de coadjuvante. As pessoas não mergulhavam sob ela, não se refrescavam com ela, não se sentavam ao redor dela, não relaxavam através dela, usavam-na para benefício do próprio ego. Usavam-na porque isso era a única coisa que restava para fazer com um celular nas mãos. Ícone da modernidade.

Uma sequência de cinco ou seis flashes bastava para causar o distanciamento daquelas pessoas preocupadas em mostrar para outras que, por privilégio (ilusório), estiveram em uma cachoeira, sem perceberem que somente passaram por uma.

O legado da artificialidade da era contemporânea é a escravização do natural pelo egocentrismo da humanidade. O artificial se sobressai ao natural. O natural se torna estranho. O puro se torna entediante. A essência é ignorada. Num frenesi constante.

VIASTEPHANNIE CAMPOS
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