Não sei como, não sei quando, não sei onde, mas um dia ainda me caso com você.

André J. Gomes

Pode escrever. Um dia, sabe Deus quando, você e eu entraremos numa igrejinha antiga, repleta de santos e amigos, para ouvir a velha pergunta a que todos respondem “sim”. Há de ser um encontro simples e bonito como nossas conversas. Uma cerimônia breve e inesquecível, feito o abraço apertado e discreto de dois amantes que não podem ser vistos juntos. Pode demorar, pode levar a vida inteira. Um dia, não sei como, não sei quando, não sei onde, no fim do mundo ou ali… na esquina, eu ainda me caso com você.

Assim, devagar, em nosso tempo, tocamos nossas vidas cada um em seu lado, de seu jeito, de sua sorte. Porque o que tinha de acontecer já aconteceu. Porque o mais difícil já se realizou. A vida já nos fez próximos, o universo fez das suas, conspirou e conseguiu. Você e eu já nos pensamos à noite, já nos queremos perto. Você e eu já nos queremos bem e isso é tão bonito! Isso é muito bonito!

Ainda que o mundo inteiro se oponha e se coloque entre nós, nossos espíritos arredios já escapuliram e se encontraram por aí. Nossas vidas se tocaram, nossas mãos congelaram, nossos pés pediram as mesmas meias na solidão de nossa noite.

Juntos, demos início a um processo sem volta, ativamos uma bomba que não se pode desarmar, pegamos um caminho do qual não se retorna. Agora só se vai adiante. Ainda que lá na frente outra bifurcação nos separe, agora só nos resta o movimento franco e inevitável da vida.

E a vida capricha nas reviravoltas que dá. Quem diria? A nós, só nos resta tocá-la em frente, cada um em seu canto do mundo. Por enquanto. Porque eu não sei como, não sei quando, não sei onde, um dia eu ainda me caso com você. Pode escrever.

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André J. Gomes
http://www.revistaletra.com.br/ Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.

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