Não há mal que dure para sempre!

N„o h· mal que sempre dure e n„o h· bem que nunca acabe!

“A luz brilha na escuridão e a escuridão não poderá superá-la”. (João 1:5)

Na Grécia Antiga, Aristóteles definia justiça como sendo uma igualdade proporcional, tratamento igual entre os iguais, e desigual entre os desiguais, na proporção de sua desigualdade. Aristóteles também reconhece que o conceito de justiça é impreciso, sendo muitas vezes definido a contrario sensu, de acordo com que entendemos ser injusto – ou seja, reconhecemos com maior facilidade determinada situação como sendo injusta uma situação justa. Platão reconhece a justiça como sinônimo de harmonia social, relacionando também este conceito à ideia de que o justo é aquele que se comporta de acordo com a lei. Em sua obra “A República”, Platão defende que o conceito de justiça abrange tanto a dimensão individual quanto coletiva: “A justiça é uma relação adequada e harmoniosa entre as partes beligerantes de uma mesma pessoa ou de uma comunidade.
Platão associava justiça aos valores morais. Em grego, verdade se diz “Aletheia”, significando não-oculto, não-escondido, não-dissimulado. O verdadeiro é o que manifesta aos olhos do corpo e do espírito.

 
A verdade é a manifestação daquilo que é ou existe tal como é. O verdadeiro se opõe ao falso, pseudos, que é o encoberto, o escondido, o dissimulado, o que parece ser e não é como parece. O verdadeiro é o evidente ou o plenamente visível para a razão. Aqui, neste ponto do texto, temos duas palavras-chave (e os seus significados históricos) para direcionarmos o nosso raciocínio, que é a justiça e a verdade como pilares para a construção de uma sociedade humana do terceiro milênio. Mas para tal, devemos considerar as palavras-chave como companheiras do homem durante a sua trajetória pelo planeta Terra. Parceiras tanto no caos das guerras e dos dramas individuais e coletivos, quanto nas experiências sociais ou pessoais nas quais predominaram os sentimentos de paz e de bem-estar.

 
Portanto, os conceitos de justiça e verdade são focos de luz que acompanham a humanidade desde tempos imemoriais, sendo responsáveis diretos pela superação de crises que ficaram registradas na história individual e coletiva do homem. Nesta direção, o homem superou o medo do desconhecido e saiu da “caverna” à procura de melhores condições de vida. Superou o medo do isolamento e saiu à procura do semelhante como forma de interagir, descobrir e ampliar conhecimento e horizontes. Superou o medo da morte e saiu em busca de si mesmo pelo caminho do autoconhecimento.

Nesta lógica de raciocínio, Charles Chaplin deixou registrado para a posteridade sua genial percepção de existência: “Minha fé é no desconhecido, em tudo que não podemos compreender por meio da razão. Creio que o que está acima do nosso entendimento é apenas um fato em outras dimensões e que no reino do desconhecido há uma infinita reserva de poder”.

 
O “poder” ao qual refere-se Carlitos, passa pela aceitação do binômio justiça-verdade como uma referência da vida pessoal e da vida em sociedade, ou seja, o próprio homem já provou em sua trajetória existencial, repleta de enganos e desenganos, que não consegue evoluir satisfatoriamente quando negligencia conceitos que são inerentes à sua natureza voltada para o crescimento.
Neste sentido, o egoísmo, a ambição desmedida por poder e o orgulho que infla o ego e torna o homem cativo de sua limitada visão de mundo, representa o bloqueio de um processo individual e coletivo que interfere na expansão consciencial da humanidade e atrasa a evolução da espécie.

No entanto, o século XVI, alvorada do terceiro milênio, surge como uma estrela guia a focar a sua luz na necessidade de nos tornarmos cada vez mais transparentes na experiência existencial. Realidade que está em curso, à medida que a sociedade global, interconectada pelos avanços da tecnologia, começa a exigir transparência daquilo que encontra-se oculto no âmbito da política, das mídias e das organizações religiosas.
No mundo contemporâneo, vários países passam pela experiência de transparecer o que está dissimulado nas sombras da ignorância. Acontece esse processo também no Brasil, que se autodescobre pela necessidade da depuração ética e moral de uma sociedade que encontra-se em transitório conflito, em busca de melhores dias.

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E a busca de melhores dias para o Brasil e para os povos do mundo, passa pela percepção do desconhecido que tem o poder de transformar realidades, à medida que ao estimular o indivíduo como agente transformador, atua sobre o medo de sair de sua zona de conforto.Em “Tempo de repensar o mundo”, crônica atualíssima do poeta e escritor Rubens da Cunha, a sensibilidade e a razão traduzem o que precisamos para a nossa reflexão. É o que veremos a seguir.

 
Tempos de surdina, de surdez que se propaga, tênue, sobre os corpos da massa. Tempos dos velhos clichês propagados ininterruptamente, apenas para perpetuar o quanto somos ordeiros e pacíficos. O quanto somos gado numa manada e devemos nos contentar com nosso meio metro de pasto. Há décadas, Manuel Bandeira disse que estava farto do lirismo comedido, do lirismo bem comportado.

Soubesse Bandira o quanto ainda precisamos lutar para que esse lirismo “boa gente com os do andar de cima” sucumba, caia por terra, que outro lirismo estabeleça justiça social, acesso aos direitos fundamentais, cuidados efetivos com as cidades, o meio ambiente, a vida em comum, se solidifique por aqui. Só que para muitos não podemos nos revoltar, não podemos causar qualquer desordem na ordem do pasto.

 
Até quando não podemos sonhar com o sonhado lirismo do verso final do poema da Bandeira: “Não quero saber do lirismo que não é libertação”? O poeta só queria esse lirismo, mas não nos é dado tempo, temos que consumir, temos que manter a ordem e o progresso. Tempos de anestesia, de circo, pão e circo, mas tempo de latência também. Os furúnculos da pele da sociedade estão cada vez mais constantes. Sintomas da doença visível que sempre insistimos em esconder, em negar, em jogar para os morros, mangues, longe das vistas e dos remédios que deveriam ser ministrados há décadas. Os sintomas estão por aí vermelhando, inflamando, rompendo a pele do social. Hilda Hirst, outra que queria o lirismo libertação, pediu que repensássemos a tarefa de pensar o mundo, e aos que insistem em manter a vida ordeira e pacífica, mesmo que não haja paz ou ordem ao seu redor, Hilda avisa: “Senhoras e senhores, olhai-nos; repensemos a tarefa de pensar o mundo, e quando a noite vem, vem a contrafação de nossos rostos, rosto perigoso, rosto-pensamento sobre os vossos atos”.

 
Assim, é tempo de repensar o mundo e não desejar outro lirismo que não seja a libertação.
Sem dúvida, é preciso repensar o mundo para que possamos nos libertar da acomodação pela influência daquilo que nos acompanha desde tempos remotos: a luz da justiça e da verdade, porque não há mal que dure para sempre.

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VIAFlávio Bastos
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