A morte do meu pai

Maria Fernanda Ribeiro

No momento em que vi a ligação do meu irmão às quatro e meia da manhã do dia 25 de novembro de 2015, não atendi. Eu sabia que ele vinha a pedido da realidade como portador de más notícias. Nosso pai tinha morrido e esse era o motivo do telefonema. E eu só queria dormir, dormir, dormir após uma noite regada a cervejas e empanadas. Não era justo acordar para ir ao enterro do próprio pai. Eu só queria dormir. Por dias ininterruptos.

Meu pai estava doente havia cinco meses e eu estava cansada da vida regrada diante de tanta dor quando aceitei um convite que chegou quase às dez horas da noite para ir até Pinheiros me divertir um pouco. Eu estava de pijama e lendo, como sempre acontecia na maioria dos dias da semana, mas decidi que era necessário tentar sorrir para esquecer que na cama de uma clínica meu pai padeceria até a morte e nós, família e amigos, assistíamos como meros espectadores de uma luta de boxe em que o vencedor é conhecido antes mesmo de o sino do primeiro round tocar. Se houvesse apostas, todos nós teríamos escolhido a morte como aquela que subiria ao pódio. Afundada pela espera dessa batalha, troquei o pijama por outra roupa qualquer, mandei às favas o pilates que começaria no dia seguinte às seis horas da manhã e fui.

Após cancelar a chamada do meu irmão, fechei os olhos novamente, mas sabia que eu não conseguiria fugir para sempre. O telefone tocou novamente e mesmo que meu irmão tivesse ficado mudo, eu já sabia o que ele queria. O pai morreu, Maria. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Estou indo para Bauru, respondi enquanto um calafrio começava a dominar o meu corpo até se transformar em uma tremedeira que quando me acomete me impede de andar, falar, comer e até de respirar, como sempre acontece ao ouvir notícias que me abalam profundamente.

Meu corpo entrou em colapso e eu chacoalhava o suficiente para não conseguir caminhar do quarto até o banheiro. Eu precisava tomar banho. E pela primeira vez me senti sozinha e abandonada naquele apartamento de dois quartos. Mas era uma solidão que estava dentro de mim e que não cessaria nem mesmo se houvesse pessoas esparramadas por todos os cômodos. Consegui chegar até o chuveiro. Fazia calor, mas dentro de mim a temperatura era abaixo de zero. Rezei. E pedi que junto com o meu pai eu também não perdesse a minha mãe. Eu só queria que ela continuasse a gostar da vida como quando o meu pai ainda estava ali e eles conseguiam ser dois mesmo sendo um.

Chorei uma vez, de maneira rápida e explosiva, e minhas lágrimas se misturaram com o shampoo que escorria do meu cabelo. Pensei que chegaria ao enterro do meu pai sem dormir. Parei de chorar. E por alguns instantes me arrependi por ter cedido à tentação de uma noite de diversão com alguém que nunca tinha visto o meu pai nem mesmo por fotos.

Eu tinha me comprometido comigo mesma que eu não iria ao enterro dele. Não queria que a última imagem fosse num caixão, como aconteceu com os cinco amigos que perdi. Foram necessárias algumas sessões de terapia para decidir que ficaria em casa esperando todos voltarem arrasados. Já conseguia me enxergar no sofá da sala vendo um dos meus irmãos abrirem a porta da e minha mãe entrando na sequência. Mas isso foi antes de ele morrer. Quando eu dei por mim estava no velório. Foram necessárias quase cinco horas para que eu chegasse perto daquele corpo envolto em flores e tocasse pela última vez naquela mão que mais parecia a minha. Mas ali, já não havia nada. Não era o meu pai.

Das coroas de flores, separei as gérberas e as levei para casa. Fiz pequenos buquês e distribuí em três vasos pelos cômodos. As roxas eu coloquei no meu quarto. Depois de girassóis, as gérberas são as minhas preferidas, mas os girassois não estavam tão bonitos quanto as gérberas. O quarto dos meus pais receberam um vaso. E o outro ficou na sala. Tomei um calmante inteiro. Ainda se passariam mais quatro horas até eu conseguir pegar no sono. Meu pai tinha morrido.

O coração dele parou de bater há sete meses, poucos minutos antes de o meu irmão ligar, mas desde que meu pai entrou para fazer uma cirurgia, há um ano, nós perdemos um pai e minha mãe ficou não só sem um marido, mas sim sem a pessoa que talvez mais tenha a amado durante toda a vida dela. Sorte da minha mãe, que amou e foi amada. Deve doer mais por causa disso. Mas é melhor o vazio da falta de afeto ou saudade do amor? Fico com a segunda opção. E acho que ela também.

Pensávamos que seria difícil viver sem meu pai, mas descobrimos que ele permanece vivo, acordado e inteiro em cada ato nosso, em cada conversa, em cada lembrança entre os amigos. Talvez até muito mais do que quando estava vivo. É um pouco estranho. Percebemos logo que a morte é assim mesmo, esquisita. Além disso, tem a personalidade forte e, se ela quiser, o primeiro lugar do pódio será sempre dela. Já a você cabe aceitar a derrota, voltar para casa e viver até ser convidado para assistir à próxima briga. Mas essa não é uma história triste e nem de morte. É de vida.

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Maria Fernanda Ribeiro
Maria Fernanda é jornalista e está em uma jornada Amazônia adentro para conhecer e compartilhar as histórias dos povos da floresta. Escreve para o Jornal Estado de São Paulo.

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