Liberte sua mulher da torre de marfim

Andrea Pavlovitsch

Eu não sei como é ser mulher. Sei como é ser eu, serve? E tem um lado meu que é mulher. É o maior lado, sim. Mas era engolido por outros papéis.

O meu lado mulher foi engolido por uma menina carente, certa feita. Ela se apaixonou por um homem e ficou fora de cena. A menina carente tomou a frente. Deixou de fazer coisas que gostava por ele. Passou a cuidar mais dele, e da vida dele, dos problemas dele, dos que dos dela. Ela se apagou, engordou 5 quilos e as raízes dos cabelos cresceram. E, no final, ela se viu sozinha e abandonada.

Não, não abandonada pelo homem. Este nunca esteve de fato do lado dela, abandonada por ela. A mulher foi trancafiada numa torre de marfim, a menina birrenta e ferida, não deixava ela sair de lá. A alimentava com jujubas e carboidratos, para comê-la viva assim que saísse. Foi horrível!

Mas depois de muito sofrer e saber que ela é mais forte que a menina, ela se libertou. Ela pegou a menina, e ao invés de uma surra, deu a ela muito amor, apreço. Elas se abraçaram, choraram juntas e hoje a menina está quieta, feliz e sendo muito amada.

A minha mulher também já foi engolida por uma profissional voraz. Essa megera trabalhava 16 horas por dia, atendendo pacientes um atrás do outro. Por isso ela comia muito mal, não conseguia sair com os amigos e nem ir à academia dançar (coisa que a minha mulher mais ama). Mas os pacientes estavam ótimos, todos fortes e felizes, ela que estava um caco. Não fazia o que ela amava, de verdade. Acabou trancafiada na torre, de novo, tomando litros de café e só comendo pão de queijo.

Mas, mais uma vez, ela venceu. Bateu o pé, quebrou as correntes e mandou todo mundo passear. Falou, alto, “quem manda aqui sou eu” e reassumiu o seu poder.

Eu poderia contar mais causos: quando ela foi engolida pela filha (essa é uma boa história), quando foi engolida por amigos nada legais. Quando foi engolida por narcisistas, pervertidos, com fobia a compromisso e problemas com a lei. Quando foi engolida por viciados em cigarro, álcool, em dirigir bêbado, em pessoas do mal, mas vamos ficar por aqui. Ela foi, engolida, usada e maltratada muitas vezes. Por mim mesma.

Até que eu entendi a força dela. A força do poder feminino. Que não é agressivo, se não precisar, mas é firme. Que é doce, gentil, mas não deixa ninguém pisar. Que se preserva, cuida de si mesma.

Cuida para que a saúde esteja boa. Cuida do seu coração e das suas emoções. Não tem vergonha de dizer que vai sim deixar de atender um cliente porque precisa fazer as unhas, ou colorir os cabelos. Que gosta das roupas, dos sapatos, da casa que parece de boneca. Que pode ou não, querer assumir outros papeis, como mãe ou esposa. Mas que quer ser amada, acima de tudo, da maneira especial como ela merece.

A sua mulher não nasce pronta. Não numa sociedade machista e misógina como a nossa. Nós, meninas, já aprendemos qual é o “nosso lugar”. E geralmente ele está em ajudar todo mundo, menos a gente mesma. Não queremos ser a vilã, queremos ser a mocinha que se sacrifica, mas no processo sacrificamos essa mulher. Sacrificamos a nossa força, o nosso amor próprio e a nossa autoestima.

Não permita! Tire a sua mulher da torre do castelo, seja lá por quem ela tenha sido presa. Faça para ela o que ela precisa, é só perguntar. Pode ser que ela queira ser mais feminina, ou menos (não existe um jeito só de ser mulher). Pode ser que ela queira parecer mais jovem, ou mais velha. Pode ser que ela precise de um novo amor, de uma nova maquiagem, de um botox ou de um novo trabalho, que ela realmente ame. Mas respeite! Se você quer ser respeitada como mulher, respeite-se primeiro. Respeite quem ela é, respeite o que ela quer, respeite a sua vagina, esse centro maravilhoso de força. Não estou falando para não fazer sexo com estranhos ou usar roupas curtas (pode ser que seja isso que ela mais queira), mas de sentir verdadeiramente o que ela precisa!

Deixe-a livre! Liberte-se de verdade! A verdadeira magia da vida começa com essa maravilhosa aceitação. Ninguém mais me engole por aqui. Pode ter certeza!

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Andrea Pavlovitsch
Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto, fotografia e toda forma de arte. Adora pão de queijo e café com leite e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.Espaço Terapêutico Andrea Pavlovitsch Av Dr. Eduardo Cothing, 2448A Vila Formosa - São Paulo - SP +55 (11) 3530 4856 +55 (11) 9.9343 9985 (Whatsapp) [email protected]

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