Lembra-te de manter os olhos frescos e o coração leve

Luiza Dal Grande

Ahh, minha cara, que bom que nos encontramos hoje. Há tempos estou querendo tomar esse café para relembrar-te algumas coisas que, por conhecer-te tão bem, tenho certeza que já esqueceste. Não… fica tranquila, eu sei que não fazes por mal, também não és relapsa. Isso é normal e cedo ou tarde alcança todos os corações enamorados que pela convivência diária acabam por ficarem cegos e insensíveis para o sutil que um dia já os tocou, acredite em mim.
Eu sei, é trabalhoso sim manter os olhos frescos e o coração leve por muito tempo. Tem gente demais no mundo apontando-te os erros, corrigindo as tuas rotas e fazendo questão de comparar tudinho que te cerca.

Tem também, remando contra a maré, uma parte que achas ser tua. Ah… arrisco-me a dizer que essa é a mais danosa, ela não te deixa viver o hoje. Ora estás com ela no passado relembrando todos os sapatos que já recolheste pela sala, ora estás lá no futuro adiantando as frustrações por ter ouvido que aquilo não se repetiria mais. Eu sei, o sapato é o de menos, foi só um exemplo, mas melhor do que eu sabes a que me refiro. É… talvez ele também tenha deixado de te olhar, tenha esquecido do poder do teu cafuné e tenha ficado cego para o brilho do teu sorriso… mas de que adianta viver alimentando essa mágoa que só os afasta mais e mais?

Se me permites uma dica, quebra isso. Limpa essa sujeira que tomou conta dos teus olhos, deixa o passado para lá e coloca os teus pés no agora. Ao chegar em casa hoje depois da reunião tão importante, deixe o trabalho no escritório, os problemas na rua e as contas no banco. Entra como se entrasse pela primeira vez.

Lembra como ele nos olhava? Como era doce aquele sorriso apaixonado e a admiração por aquela garota que seguia sua própria intuição? Para onde ela foi? Por que não faz mais parte de nós? Lembra como nos perdíamos naquele sorriso? Como nos embriagávamos juntas naquela voz suave e animada que contava sobre os planos futuros da vida? E quando chegávamos do treino de corrida e ele esperava-nos com pães de queijo recém-assados e croissant de amêndoas fresquinhos ignorando todas as recomendações da nutricionista?

Sejamos sinceras, se não fosse ele nossa geladeira nunca teria abrigado aquelas inúmeras latas de doce de leite! Lembra quando nos largávamos no conforto daqueles braços no sábado de tarde e acordávamos sentindo o calor suave emanado daqueles lábios…? Ahhh… e aquela voz que só de ouvir pelo WhatsApp durante uma viagem de trabalho nos fazia querer correr para o aeroporto largando tudo? O olhar então… o que falar sobre aquele que mais do que ninguém nos desvenda em cada sorriso? Lembra disso? Dos cliques por detrás da lente? Dos cartões trocados, os olhares secretos e os abraços eternos? Naquela época nossa maior alegria de sexta-feira à noite era acordar ao lado dele no sábado pela manhã…

Eu sei, esqueceste de tudo isso… e é por isso que estou aqui, para te lembrar como pode ser bom, como já viveste tudo isso e como acreditavas ser tudo eterno. Esqueceste de olhá-lo nos olhos e enxergar aquele sorriso doce. Passaste a ver nele um espelho que reflete somente as tuas expectativas não ditas, tuas frustrações diárias. Se te conheço bem, estás cometendo a injustiça de depositar nele teus anseios pela vida e busca pela felicidade.

É provável que tenhas te perdido de ti também. Porque isso que enxergas no espelho tampouco é quem és de verdade.
Não sabes ainda, nem teria como, mas há muito pouco tempo aprendi que o outro não é um espelho nosso. Não pode ser. Porque se assim o for, deixaremos de enxergar quem ele é. Deixamos de observar as suas necessidades, sua essência e tudo o que nos fez apaixonar-se por ele.

Eu sei que sempre nos ensinaram o oposto, nos disseram que o outro é um espelho que reflete quem somos. Esqueça-te disso, oras. Se não te serviu até agora, por que servirá amanhã? Olhe-o nos olhos! Olhe pra ti, direto, profundo, sem espelho, sem reflexo. Abracem-se com alma, com amor e honestidade.

Essa é na verdade uma carta que te escrevo sobre nós. Não ele. Porque isso já sabes, está dentro de ti. Para estar com ele, precisas antes estar contigo, inteira, completa e serena. Se estás assim, mudam os medos, mudam as dúvidas, mudam os sonhos, mas continuas firme em quem tu és e evitas assim de te perderes entre os espelhos que refletem tantas expectativas e frustrações.

Vai! Volta pra casa hoje e digas o que não falas há muito tempo. Eu sei o quanto ele é importante pra ti, nós sabemos o quanto de diferença ele já fez. Peça desculpas por ter esquecido, por ter deixado de lado. Quebra o espelho que os separa, abraça, beija, namora, casa de novo! Hoje. De noite! Com aquela garrafa de vinho que está guardada esperando um dia especial, porque nenhum dia é mais especial que hoje, quando relembramos quem somos.

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Luiza Dal Grande
Designer de formação, com alma aventureira e em busca da sua melhor expressão artística. Alimenta um amor não tão secreto por fotografia, cerâmica, pinturas e escrita. Navega entre centros urbanos e natureza intocada, se alimenta de mar e sol e já percebeu que a falta de água salgada enferruja e faz mal. É entusiasta de projetos e parcerias inspiradoras. Consultora e empreendedora de negócios com propósito, trabalha com inovação e mercado digital.

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