“Eu já fiz tudo o que era possível para me sentir bem e não consigo. O que eu faço agora?”

Rodrigo Pereira

Gostaria de dedicar essas palavras que estou escrevendo nesse exato momento e que ao final serão mais um longo texto da página, a todas as pessoas que possam vir a lê-lo e que acreditam que já fizeram tudo o que era possível para se sentirem bem, que já tentaram de diversas formas curarem suas dores emocionais, mas, ainda sentem que não conseguiram fazer isso. Dedico as próximas palavras a vocês, com carinho e respeito por suas histórias.

A travessia da vida não é feita de um caminho único e ligeiro, pelo qual seguimos e chegamos até o destino desejado na hora marcada. O caminho que nos faz atravessar a vida de cabo a rabo é, na verdade, um emaranhado de caminhos esburacados, que com nossas visões turvas, vemos como uma estradinha com buracos que podemos taponar quando assim desejarmos.

Não, não podemos taponá-los realmente. Esse é o ponto que vale entender para que nos libertemos da necessidade do querer que a mente exerce sobre nós.
Muitas pessoas me dizem que já fizeram de tudo para se sentirem bem. Dizem que já procuraram todos os profissionais de saúde possíveis, que já tomaram remédios, fizeram anos de várias formas de terapia, foram procurar religiões, livros, e que ainda sim, não se sentem plenas e felizes como gostariam. Sentem que serão sempre infelizes e amargurados, mas, não entendem que isso é uma escolha .

Algumas vezes, pergunto, com um bom ânimo na voz e brilho nos olhos, à essas pessoas, por que fizeram tudo isso, e se foi com o intuito de se sentirem melhor. E como resposta, quase sempre, escuto que sim. As pessoas me dizem que fizeram tudo isso para se sentirem melhores e menos infelizes. Aí, logo já percebo o motivo de não terem conseguido alcançar seu objetivo. O próprio objetivo. A própria cobrança indevida sobre si mesmo.

Como, na sociedade na qual vivemos, absolutamente tudo vira um produto, todas as fontes que vamos buscar para encontrar nosso bem estar estão fadadas a apenas nos trazer um prazer e um alívio imediatos(que, pode ser sim, benéfico), mas, que não nos permite atingir o bem estar pleno e ainda nos afasta de nós . Caracteristicas básicas da produtificação: bem estar momentâneo, distanciamento da real necessidade e a ilusão da felicidade.

Buscamos, como na frase do início do texto, fazer de tudo para nos sentirmos bem, mas, no fundo, é essa atitude que nos faz realmente sentirmos mal. Pois, observem, tomamos a atitude de buscar em algo externo, muitas vezes, um produto, uma relação ou algo materializado, uma sensação de bem estar, que até encontramos, mas, que nos é insuficiente e que ainda sim queremos que dure para sempre e nos preencha por inteiro.

É como querer fazer da satisfação de uma necessidade momentânea, a mais duradoura felicidade. Uma grande furada. Pegar a alegria momentânea para tapar nossos buracos mais profundos, com a idéia de que ela vai preenchê-los é uma grande falta de consciência de nós mesmos e do que somos. Como dizia meu avô: – isso é que é tapar o sol com a peneira bem mal tapadinho.

Não é possível, ao meu ver, que sejamos felizes agindo assim, pois agindo assim nos tornamos cada vez mais inconscientes. Enquanto procuramos, à todo custo, nos sentirmos seguros e livres de ameaças ao nosso bem estar momentâneo, estamos condicionados a ser cada vez mais infelizes. Enquanto não aprendemos a viver sendo inseguros e falhos, e nos amarmos por ser exatamente assim, não podemos nos sentir bem plenamente. Afinal, estamos negando uma parte importante de nós. O bem estar pleno só nos alcança quando conseguimos nos sentir bem até quando estamos mal. Isso mesmo: se até quando estamos mal, nos sentirmos bem, se até na insegurança nos sentirmos seguros, nós estaremos caminhando em direção ao amor e a luz. Porque no fundo, a nossa vida é repleta de instabilidades, e sabemos disso, o que não quer dizer que genuinamente aceitamos.

O bem estar pleno não nos surge quando vamos buscá-lo com a razão, mas, sim, quando o deixamos aparecer com a presença dessa reduzida. Não o obtemos com nosso controle remoto egoísta que tudo quer controlar, mas, sim, quando o guardamos na gaveta após desligarmos as nossas mentes do desejo e da razão obsessivos de nos sentirmos bem a todo custo, porque acreditamos que estar bem é o “certo”, e aceitarmos verdadeiramente errar.

Quando nós não nos permitimos ser quem somos (e isso inclui nossas fraquezas e medos) é que sofremos. Não sofremos porque sentimos o sofrer chegando em nossas vidas, mas, por não aceitarmos que ele entre e nos faça companhia. Nós fechamos a porta na cara dele e vamos procurar algo para nos sentirmos melhores e mais seguros e é aí que ele se apropria de nossa mente e não vai embora. Justamente porque queremos nos livrar dele, por nos querermos desfazer de uma parte importante do que somos.

Como seria possível fazer isso?

É tudo isso que fazemos todos os dias, e é isso que não nos permite nos compreender e alcançar o bem estar pleno, o bem estar que brota de dentro e que independe do que estará lá fora quando eu abrir os olhos. O bem estar que surge da aceitação plena, o bem estar que se faz presente exatamente por aceitarmos que ele não esteja sempre presente.

Se dentro de mim há paisagens, fora eu as posso ver e delas me nutrir. A felicidade só é possível quando aprendemos a conviver bem com a presença da infelicidade. Aaah, como é libertador poder se sentir livre. Você está livre agora. Livre de toda sua mente que quer respostas para tudo . Sinta essa liberdade de tudo poder ser do jeito que puder ser.

Você aí, que já tentou de tudo para se sentir bem e ainda não conseguiu. Ofereço-lhe uma sugestão: Não faça nada, não agora, pare, sobretudo, de tentar de tudo para se sentir melhor, porque você já sabe que assim não vai conseguir. Não dessa forma sistematizada. Você ja fez isso e não deu certo. Agora é a hora de apenas se respeitar por completo, nada de fazer pela metade. Agora é a hora de deixar suas águas fluirem naturalmente e de apenas observá-las irem, tão naturais, inseguras, humanas e belas. Siga o rítmo delas. Agora é sua hora para ser quem sempre quis ser, mas, não podia, porque não aceitava sofrer, agora é a hora de ser inteiramente você. Você está pronto!

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Rodrigo Pereira
Psicólogo, Psicoterapeuta, Educador e Palestrante.

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