ESSA TAL DE TRISTEZA PROFUNDA QUE NÃO PASSA

Wellington Freire

Estraçalhado.

Você afundou em um oceano de dor e sofrimento. Cada passo dado foi como se tivesse caminhado com a água pelo joelho em direção a um turbulento abismo de incertezas e confusão. Na verdade tudo o que queria era entrar naquele trem velho que o levasse rumo ao fim da noite. Que pudesse sentir, finalmente, aquela sensação de que o término da tristeza estava próximo.

Você foi reduzido lentamente a nada. Sentiu-se zerado, fulminado, desacreditado, envergonhado de si próprio. É como se um maçarico de solda lhe queimasse com violência e você percebesse latejar até o ponto em que já não pudesse sentir mais nada, de tanta dor.

É como se quatro lanças lhe espetassem lentamente. Como se estivesse em vias de ser esquartejado. Como se cada braço e cada perna estivesse atado a um cavalo pronto para correr em disparada após um sinal. Esteve frente a frente com a iminência da dor, do fim.

Rolou na cama por noites. Ligou e desligou o celular. O dia mais ensolarado parecia o mais glacial dos invernos na estação da sua vida. Dançou uma dança triste. Sentiu o vento frio bater no rosto. Seus sonhos foram despedaçados e a sua esperança partida em duas.

As pessoas desapareceram, assim como as estrelas do céu. Você foi encoberto pela mais temível nebulosidade. Não ouviu ninguém falar nada, mas no fundo sabia que para eles você se converteu em uma enorme pedra, num grande peso insustentável.

Você chegou ao ponto de se sentir tão só que até mesmo as suas lágrimas lhe abandonaram. É como se o mundo tivesse lhe empurrado para baixo de um tapete de remorsos e sentimentos confusos.

Você sabe que o caminho para a luz é longo e talvez você sinta que não tem forças suficientes para sair desta penumbra. Durante tudo isso, um único pensamento que não cessa: quando essa noite eterna vai acabar?

Você resistiu bravamente. As vezes acordava pela manhã e não sentia a menor vontade de levantar da cama. É como se a noite não acabasse nunca.

Você pode não saber, mas você morreu.

Morreu para aquela velha vida que já não pode ser vivida. Morreu porque já não pode mais encenar o seu papel de trouxa no palco do mundo. Morreu porque entendeu o porquê de tudo, compreendeu como funcionam as engrenagens que movem a vida das pessoas que te cercam. A tristeza é o seu eu-superior que está em luto. Em luto pela falsidade, pelos sentimentos efêmeros, pela falta de amor próprio, pelo eu fugidio, pela dolorosa percepção de que as verdades nas quais acreditava simplesmente morreram e, suas lágrimas nada mais são do que a emoção incontida por alguém que vela um corpo sem vida.

E sabe o que vai acontecer agora? Você submergiu no mais profundo dos poços e não conseguirá cavar mais. Toda a força que resta é para subir. Vai demorar um pouco e não vai ser fácil. Mas você precisa encontrar a saída porque necessita respirar. Toda essa descida não foi nada menos que um doloroso entendimento que vai ser o responsável pelo seu renascimento.

Quando você chegar lá em cima, vai olhar para si próprio e vai perceber a roupa puída, os arranhões nos braços e vai sorrir. Vai sorrir porque está vivo e, sobretudo, porque você já não é mais a mesma pessoa. O seu antigo eu morreu e você acaba de acordar neste exato momento.

 

 

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Wellington Freire
Profissional das Letras e alguém muito curioso. Desde cedo se interessou pelos desdobramentos possíveis da leitura, motivação que até hoje o faz ler e escrever para si e para os outros.

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