E se as escolas ensinassem generosidade?

Um menino de 7 anos está chorando e esperando a mãe vir buscá-lo na escola porque cortou o queixo e precisa ir para o hospital. Ele está assustado e com medo. As outras crianças também estão confusas, não sabem muito bem como lidar com suas emoções diante do infortúnio do amiguinho. A professora pergunta aos alunos: “O que podemos fazer para ajudar nosso amigo machucado?” Um aluno responde: “Podemos praticar generosidade!” – e assim os alunos se posicionam em um círculo e começam a dizer frases de apoio e desejar a melhora do amiguinho. Esse é o tipo de coisa que pode acontecer quando se ensina generosidade na escola.

As professoras americanas Laura Pinger e Lisa Flook desenvolveram, em parceira com o “Center for Healthy Minds” da Universidade de Wisconsin, um currículo para ensinar generosidade. Porque ensinar a ler e escrever é o qualquer escola faz, né? As professoras americanas desenvolveram um programa de 12 semanas, em que duas vezes por semana, durante 20 minutos, crianças na faixa de 6-7 anos foram apresentadas a histórias e exemplos práticos sobre: cultivar generosidade, estar consciente e atento ao momento presente e regular as próprias emoções.

Os resultados da experiência foram promissores. As crianças que absorveram o programa de 12 semanas, melhoraram suas notas, sua habilidade de se relacionar com os colegas, se mostraram mais flexíveis, mais dispostas a fazer sem esperar nada em troca e aprenderam a controlar melhor suas emoções negativas.

Por que ensinar generosidade na escola?

O ambiente escolar pode ser muito estressante para as crianças. Se não fosse apenas os problemas e dificuldades que alguns já trazem de casa, muitos alunos tem dificuldades em fazer amigos e tirar notas boas. Se sentir excluído, ignorado ou objeto de implicância e gozação é muito doloroso.

Crianças incentivadas a serem gentis e conscientes são capazes de mudar completamente o ambiente escolar. Os alunos podem se colocar no lugar do outro, como na situação do menino que quebrou o queixo, e tentar entender o que ele está sentindo. A empatia constrói pontes entre os alunos, professores e até os pais. Ensinar generosidade não requer mudanças de políticas públicas, nem grande envolvimento por parte da administração escolar.

Como fazer da generosidade uma “matéria” escolar

Para ensinar generosidade as professoras americanas usaram livros, músicas e também desenvolveram atividades criativas que permitem a compreensão dos conceitos de empatia e atenção plena (mindulfness) dos pequenos. O painel abaixo é um exemplo de atividade. O painel representa o “jardim da bondade”. Todas as vezes que as crianças praticavam um ato altruísta ou se beneficiavam da generosidade de algum colega, elas deveriam colar um adesivo no painel. A ideia é mostrar para as crianças que a amizade é como um plantinha que tem ser cuidada para florescer.

Outro exemplo de atividade é o “Peace Wands” (varinhas da paz): duas crianças são colocadas uma de frente para outra, cada uma com uma varinha. Uma criança segura uma varinha com um coração na ponta – e ela irá “falar do fundo do coração” – enquanto a outra segura uma varinha com um estrela na ponta e será o “ouvinte estrela”, escutando com atenção e repetindo o que o colega diz. Segundo as professoras, essa atividade trouxe resultados positivos quando havia conflitos entre os alunos. O exercício estimula as crianças a prestarem atenção no que diz seu interlocutor, expressar seus sentimentos e desenvolver empatia.

O currículo da generosidade foi baseado ainda em pontos chaves como:

Atenção: Alunos aprendem que podem escolher onde focar sua atenção. Os alunos foram encorajados a focar sua atenção em uma série de estímulos externos (o som do sinal do recreio, a aparência de uma pedra…) e estímulos internos (está se sentindo feliz ou triste). Isso ajuda as crianças a direcionaram o foco da sua atenção e manter a concentração.

Respiração e o corpo: Alunos aprendem a usar a respiração. Deitados no chão com a barriga para cima, eles escutavam uma música de relaxamento e colocavam um bichinho de pelúcia em cima da barriga. Como o movimento de expirar e inspirar as crianças deviam tentar fazer o bichinho dormir. Durante o processo de prestar atenção na própria respiração, as crianças se tranquilizavam.

Emoções: Como são as emoções? Como as sentimos? Como saber o que nós mesmo estamos sentindo? Aqui um jogo foi usado para fazer os alunos refletirem sobre emoções. A professora encenava vários tipos de humor (triste, brava, feliz, surpresa…) e as crianças tinham que adivinhar o que era, e como esta emoção é sentida fisicamente no corpo.

Perdão: Crianças pequenas podem ser muito duras com elas mesmas e com outras crianças. Aqui a ideia era ensinar que todo mundo comete erros e pode ser perdoado. Uma das atividades foi a leitura de um livro que contava a história de uma menina que cometia um erro e era perdoada pelos pais.

Gratidão: Os alunos foram estimulados a reconhecer atos de bondade que outras pessoas tinham para com eles. Fizeram um jogo no qual as crianças tinham que assumir papéis de pessoas que prestam serviços para a comunidade (um bombeiro, um motorista de ônibus, uma enfermeira).

segundo Laura Pinger e Lisa Flook, as professoras que desenvolveram o currículo da generosidade, essas frases funcionaram muito bem com as crianças: “Que eu esteja seguro, que eu seja feliz, que eu tenha saúde e que eu esteja em paz.” As afirmações devem ser estendidas para outras pessoas e até para comunidades inteiras. “Que meu amigo esteja seguro e seja feliz” – “Que todos no meu país tenham saúde e possam viver em paz” -Que todas as crianças do mundo estejam em segurança”

Quando o menino machucou o queixo, as crianças se posicionaram em círculo e e falaram frases como essas. No meio do estresse causado pela imagem do queixo sangrando e pelo sofrimento do colega, o exercício ajudou os alunos a encontrarem conforto para eles mesmas e para o amigo. Quando o menino voltou à sala de aula, os amiguinhos contaram que fizeram um “roda de bons desejos” para ele enquanto ele estava no hospital. São essas pequenas atitudes em sala de aula que podem transformar as escolas em lugares mais fraternais e dessa maneira formar toda uma geração de pessoas mais generosas e cidadãos mais conscientes.

Este texto é uma adaptação livre do artigo: “What if Schools Taught Kindness? publicado em um site muito bacana que a gente adora: Greater Good – The Science of a Meaningful Life

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