É PRECISO RACIONALIZAR O AMOR PARA QUE ELE SOBREVIVA

É fácil amar quem não erra. É fácil amar quando não é preciso se desculpar ou aceitar desculpas – quando não é preciso perdoar ou ser perdoado. É fácil amar o perfeito (ou a ilusão da perfeição). É fácil amar quando não há imprevistos no meio do caminho, quando o outro supre todas as necessidades que deixamos explícitas e principalmente aquelas que contamos nas entrelinhas. É fácil amar quando há concordância em gênero, número, grau e programação de televisão, quando não há contas em atraso nem o medo que elas possam atrasar. É fácil amar quando a saúde e a conta bancária estão em dia – bem alinhadas e sobrando. É fácil amar quando só há o belo, o arrumado – quando as unhas estão feitas e os cabelos aparados. É fácil amar quando só há sorrisos e todas as lembranças acumuladas durante o romance são boas.

O amor se fortalece e prova ser amor quando se torna difícil! E o amor se torna difícil no dia a dia, na intimidade e na convivência. Alguns mais, alguns menos – mas em sua grande maioria, difícil. Difícil porque o outro é ‘outro’, não pensa e não age como nós e apesar de ser algo tão óbvio, é complicado entender e absorver esta diferença. Difícil também porque o outro carrega pesos, medos e principalmente vivências que são anteriores a nossa presença, assim como nós carregamos as mesmas coisas, mas diferentes.

Somos únicos em nossos aceites e recusas, em nossa criação e crenças, necessidades, urgências e esperas. Os sentimentos não são iguais em uma relação. Nunca serão! Alguns são tempestade à noite, outros são chuva de verão. Alguns são inteiros, outros são metades e há aqueles que são 80% – tentando ser 100%. Os pesos são diferentes, as balanças têm calibres diversos e precisam ser aferidas constantemente.

Fica difícil amar quando somos contrariados em nossos quereres, em nossas certezas, em nossa pressa ou calma de viver. Quem é ‘pressa’, quer pontuar e definir. Quem é ‘calma’, não se importa em esperar. Nestes extremos, tudo vira ponto nevrálgico e não é preciso ser uma definição importantíssima como a data do casamento ou da viagem à praia para o nervo latejar: Quem tem pressa em definir o local do jantar para poder se programar – por exemplo, incomoda aquele que quer pensar durante o dia, verificar todas as possibilidades, os menus e confirmar se tem estacionamento no local. Por sua vez, este incomoda quem quer definir e passar para o próximo estágio da programação.

Não, o amor definitivamente não é fácil, mas a questão é que as pessoas estão desistindo umas das outras com muita rapidez. É preciso entender que o amor só se edifica nas dificuldades, na persistência do amar – mesmo ‘quê’. É preciso fé no amor.

O amor verdadeiro se senta na sala (nem sempre em silêncio) e espera o outro se entender com seus conflitos internos, medos, ausências alimentadas durante toda uma vida e tantas outras coisinhas miúdas e gigantescas que nos fazem ser humano. O amor atravessa a pior tempestade de mãos dadas. Olha com olhos atentos o outro encharcado, sujo de lama, querendo soltar as mãos e se esconder debaixo de uma marquise qualquer, de um passado qualquer, de uma desculpa qualquer – mas não solta o outro de forma alguma. Conversa, explica, fica disponível para se encharcar também, se enlamear tanto quanto, suporta o desejo de fuga, a ausência enlouquecedora – mas quando a chuva diminui é este amor, fortalecido como rocha – que o outro vai encontrar. Um amor incontestável que já passou por todos os estágios: a fase da paixão, das unhas sempre feitas, da falta da necessidade de se desculpar e desculpar o outro, da concordância de tudo, dos sorrisos e do passado só de boas lembranças. Este amor já apanhou e bateu (nunca literalmente), já se desculpou e foi desculpado, já machucou os dedos batendo na porta que não abriu, já se apresentou com as unhas lascadas, já esteve com a conta bancária no negativo, já se encharcou na chuva misturando água com lágrimas, secou suas roupas no corpo, já ficou só em noites intermináveis, já teve centenas de vontades não saciadas e sobreviveu. Não intacto, mas vivo.

Amar não é fácil, nem sempre é branco, nem sempre é doce, nem sempre é sorriso! Nunca será! Nunca! Mas quando o amor conhece o melhor e o pior lado de uma pessoa, os seus encantos e desencantos, certezas e incertezas, presenças e ausências e ainda assim permanece vivo – mesmo que não tão limpo – não tenhamos dúvidas que o melhor amor foi encontrado. Não o perfeito, não o isento de indisposições, não o que estará sempre pronto para uma caminhada às 9 horas de um domingo, mas talvez o único que sempre estará, aquele feito sob medida para suportar o nosso lado certo e também o nosso avesso.

O desafio é reconhecer o amor mesmo em dias de silêncio – quando não há pistas do que se passa dentro do outro, quando até respirar parece não provocar movimento.

É preciso estar disposto, atento e se manter racional para enxergar com a visão de quem quer ficar. Olhar além da fronteira do abraço conhecido pode dar a sensação de que lá fora é um lugar melhor. A dificuldade está em olhar para dentro e realmente se dispor a ouvir, calar, conversar e permanecer. Só não se engane: Lute pelo amor que vale a luta, se esforce em reconhecê-lo. Não corra o risco de passar seus dias regando flores de plástico.

“Os opostos se distraem, os dispostos se atraem!” Fernando Anitelli – O Teatro Mágico

 




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