A dor só dói assim, profundamente, quando é provocada por quem a gente ama

Iara Fonseca

Não é fácil aceitar, a gente chora, treme dos pés a cabeça e finge não acreditar que aquele amor tão bonito se transformou na mais verdadeira personificação do desrespeito.

A gente procura onde errou, se coloca em posição de vítima, depois volta a colocar a culpa em si mesma como se isso fosse apagar a dor que estamos sentindo. E rezamos para que essa dor passe, quando na verdade queríamos que aquilo nunca tivesse acontecido.

Esperamos um pedido de desculpas, mas depois percebemos que esse pedido não mudará em nada, ou quase nada, porque não apagará nem de leve a cicatriz que se formou.

A dor só dói assim, profundamente, quando é provocada por quem a gente ama. E dói tanto porque nos sentíamos verdadeiramente amados.

Ser amado é o prazer mais bonito que podemos sentir, e não dá para aceitar que alguém que diz nos amar pode vir a nos tratar com desprezo e sem um pingo de cuidado.

Chorar já não adianta mais. Conversar já não surte efeito. Reconhecer o erro já não basta.

Infelizmente o amor comete erros. Erros irreparáveis. Erros degradantes. Que desarma e marca a alma com balas sem pólvora.

Não existiu um motivo real. A única coisa que realmente existe é o verme da desilusão que corrói e destrói tudo por onde passa. O verme da incompreensão. O verme da intolerância.

A podridão do achar que pode agir como bem entender, que pode ferir, magoar, maltratar, malbaratando o tempo, afogando lembranças e enterrando o amor, sem que tenhamos chance de viver o “felizes para sempre”.

E como sonhamos com essa tal felicidade!

Era para ter sido só isso, só felicidade!

Éramos dois corações querendo ser feliz. Duas vidas entrelaçadas, jurando amizade sincera. Um querer bem sem motivo, de duas vidas inteiras pela frente.

Para quem já viveu um amor sabe que duas vidas se abrem e se entregam inteiramente e não se esquecem jamais. Elas poderiam ir para qualquer lugar, mas escolheram ficar.

Porque o amor é o sentimento que mais se encaixa na gentileza. E gentileza gera gentileza, já diziam, mas desrespeito gera desamor. O amor é a certeza da eterna presença, um afeto que faz correr vivo o sangue, e jamais deixa de se olhar com ternura. Ë como se fossem duas pequenas estrelas que brilham tão intensamente, certos de que um dia deixarão de brilhar e desaparecerão para sempre.

E quanto mais se ama, a punhalada lateja mais, arde, e faz faltar o ar.

Quanto mais se ama, maior o desejo de que a pessoa não tivesse feito o que fez.

Quanto mais se ama, mais vezes se tenta perdoar.

Quanto mais se ama, mais queremos esquecer a dor para continuar a viver.

Mas o fato é que o amor deveria ser um cuidado constante com o outro e nunca deveria causar dor, a ferida emocional é mais dolorosa que a agressão física. Porque o amor tudo tolera, tudo compreende, tudo aceita, alegra e acolhe.

No entanto, quando se ama intensamente e existe um distúrbio de comportamento, uma disfunção agressiva, o outro se sente no direito de agredir e extravasar suas dores existenciais no outro que só deseja o seu bem.

Aquele que deveria ser tratado com palavras doces e carinho, começa a receber todas as farpas e a ser destratado sem aviso prévio e sem merecer. Por mais que tentemos entender, não há compreensão em comportamentos incompreensíveis.

Infelizmente devemos aceitar que não existe amor onde se provada dor. O primeiro passo é tentar se afastar, se recolher e viver a própria vida. O importante é não aceitar a agressão. E aprender a lição!

É preciso saber se retirar da mesa quando se percebe que o amor não está sendo mais servido. E voltar apenas quando a mesa estiver extremamente farta!

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Iara Fonseca
Jornalista, poeta, educadora social, fundadora e editora de conteúdo do Rede de Ideias: PRODUÇÃO DE CONTEÚDO. Seu interior é intenso, sempre foi, transforma suas angustias em textos que ajudam muito mais a ela própria do que a quem lê. As vezes se pega relendo seus textos para tentar colocar em prática aquilo que, ela mesma, sabe que é difícil. Acredita que viemos aqui para aprender a ser, a cada dia, um pouco melhor, para si mesmo, e para o outro!

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