Desculpe, minha mãe. Mas ser sozinho para mim é uma conquista e não um fracasso.

André J. Gomes

Ô, minha mãe! Senta aqui um pouquinho, faz um esforço. É só ouvir um minuto ou dois. Tenha a bondade. Eu sei que é duro, sei como é difícil guardar aí consigo as suas opiniões e seus conselhos tão definitivos e importantes, mas você precisa escutar.

Não, eu não sou triste porque vivo só. Tal e qual todo mundo, sinto tristeza de quando em vez, mas nunca é porque não me casei de novo. Ser sozinho, para mim, deixou de ser um fracasso há muito tempo e virou uma conquista preciosa. Um prêmio pelo trabalho duro de olhar a mim mesmo com respeito e com apreço.

Foi fácil, não. Não quando a gente cresce ouvindo que quem não casa é “encalhado”, “solteirão”, “fica para titio” e essas maldades próprias da crueldade familiar. Perversões bem intencionadas. Você me desculpe a ingratidão, mas essas “lições” caseiras só me fizeram mal. Demorou, mas eu consegui: juntei todas elas, joguei no lixo e senti uma alegria tão grade, minha mãe! Você não imagina a minha felicidade quando me dei conta de que não preciso agradar a você e aos outros mas só a mim mesmo. Não sabe o tamanho do meu alívio quando percebi que já não me afetava mais o seu olhar de piedade pelo filho que “não deu certo com ninguém”.

É claro que você não tem culpa, mãe! O mundo a fez aceitar o inaceitável, que toda gente tem de “ter alguém” a qualquer custo, inclusive o da infelicidade conjugal, das brigas na frente dos filhos, da reclusão, da submissão e da angústia por uso continuado. Mas eu não. Eu tô fora. Agradeço a preocupação mas me permito me ocupar de outras coisas, inclusive “envenenar” as minhas primas e sobrinhas e parentes e a quem mais interessar possa contra a sua ladainha familiar bem intencionada do “encontre um moço bom, case e tenha filhos”. Isso não funciona pra todo mundo, mãe! Deixe as meninas serem felizes como quiserem. Deixe o povo escolher o que é melhor a si mesmo!

Agorinha ainda, minha mãe, uma multidão de machões com o cérebro de um mexilhão agarra à força mulheres sem companhia masculina tentando cumprir a recomendação de suas mamães. Desprovidos de discernimento, eles acreditaram que ninguém nasceu para ser sozinho e não se conformam que moças estejam sós porque querem ou porque as opções andam sofríveis. Logo, avançam contra elas com sangue nos olhos e uma faca nos dentes, como zagueiros desferindo carrinhos por trás, decididos a ganhá-las de qualquer jeito e exibi-las mais tarde, como troféus, no almoço da família.

Deus me livre! Honestamente, prefiro ser o “caso perdido” da ótica materna tradicional. Compreendo que toda mãe deseje a felicidade de seus filhos. Mas felicidade é tarefa pessoal e intransferível. Cada um constrói a sua. E a minha passa longe da sua concepção do assunto.

Estou só, minha mãe, porque errei e acertei o suficiente para deixar e ser deixado por alguém. Porque respeito o outro tanto quanto a mim mesmo. Porque sou livre para trabalhar e fazer escolhas. Livre para errar e acertar. Livre para me arrepender e corrigir. Livre para novas tentativas. Livre até para, quem sabe, caminhar de novo ao lado de alguém tão livre quanto eu.

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André J. Gomes

http://www.revistaletra.com.br/
Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.


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