Defendemos a essência, mas por fim, julgamos pela aparência.

Luciana Marques

Essa imagem faz parte do trabalho de um fotógrafo paulista, Thiago Fogolin. Lendo brevemente o contexto, vi que ele tentou entrar no mundo de moradores de rua, demonstrar que são gente, como a gente.

É aqui que eu parabenizo o fotógrafo pela imagem belíssima, mas te chamo para conversar comigo sobre algo que vai mais além. Por que é preciso um trabalho com fotografias tão lindas para que eu ou você nos lembremos que essas pessoas são gente, muitas vezes, mais do que a gente?

Deixa eu te perguntar… Você toma banho todo dia? E quando não toma, você deve se sentir destruído, quase indigno, não é? Eu me sinto. E você dorme onde? Em um colchão macio, com aquela cobertinha gostosa, quase de estimação, eu suponho. Você come com talheres? Em um prato? Você cheira a perfume e shampoo? Mas me diz… Você tem experiência e resistência para dormir na rua? Na calçada molhada? Tomar banho na pia do banheiro do posto?

Sabe… Essas pessoas sabem viver e sobreviver. Do alto da nossa arrogância, damos esmolas em dinheiro e atenção achando que estamos fazendo algum bem, ignorando o fato de que eles estão a anos luz de mim e de você, que andamos cheirosinhos e aquecidos, mas não sabemos comer um pão duro e seco agradecendo por não sentir fome.

Porém, o ponto em questão não é o grau de evolução e sobrevivência. Eu quero te falar sobre julgamento e aparência…

Nós olhamos para um morador de rua e desviamos o olhar. Se encontrarmos com ele na padaria, vamos nos incomodar pela presença para nós suja e fétida, dele. Se fazemos a boa ação de pagar pelo café da manhã dele, vamos postar em algum lugar sobre a boa pessoa que fomos. Com sorte ainda rola uma selfie! E vamos embora agradecendo a Deus pela abundância para a qual não damos valor.

Olha só… Esquece o material. Você tem sorte, legal! Olhe para além da aparência, guarda tua câmera no bolso e busca ouvir a essência dessa pessoa. Ela tem uma história. Não precisa ser triste, comovente, mas ela tem, como eu tenho, você também. Porque são pessoas tais como nós. Não tem mistério.

Mas julgamos a aparência. Se não se enquadra nos moldes sociais impregnados em nossa mente, entendemos, somos complacentes, mas não serve para nosso convívio, não serve para nossa família, para a vaga no emprego.

E não estou sendo hipócrita em dizer que você deve empregar um mendigo amanhã, não é nada disso. Só… abra seus olhos, seus ouvidos e seu coração.

É claro que fui extremista e peguei imagens de mendigos. Mas poderiam ser ciganos, hippies, roqueiros, motociclistas. Julgamos! Imaginamos o livro pela capa e sequer nos damos ao trabalho de examinar cuidadosamente o conteúdo. Entendemos que aquela imagem externa, desajustada para nossos padrões, reflete alguém que desenhamos, formamos e condenamos, sem dar a menor chance de defesa. E ainda fazemos isso com ares de grandeza e superioridade, acreditando que nossos banhos diários ou nossos talheres nos fazem alguém melhor.

Um dia, quando a coragem lhe vier e, desejo que seja logo, sente-se para conversar por alguns minutos com aquela pessoa alcoolizada olhando para o nada, sentado no banco da praça. Ouça a história do morador de rua que te estende a mão pedindo uma esmola. Bata um papo com aquele hippie esquisito. Eu vou apostar com você sobre como sairá boquiaberto, talvez envergonhado e imensamente mais enriquecido.

Sabe… a gente julga o livro pela capa. Porque todos nós, incluindo os que defendem a essência, no final das contas somos guiados pela aparência.
Talvez você pense que essas pessoas vivam a margem da sociedade. E talvez elas te olhem com piedade por você viver sob os cabrestos dela… a sociedade.

Enquanto você se penaliza de cá pela má sorte dessas pessoas desajustadas, desamparadas, elas oram de lá, para que você enxergue que o mundo em que está vivendo é pura realidade virtual. Você… Eu… Não sabemos sobreviver. Sabemos viver, sob condições favoráveis.
Eu tenho tanto para aprender…
E você?

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Luciana Marques
Sou mãe de um casal (lindo!), 35 anos, formada em Gestão Empresarial, gerencio uma Clínica Médica e escrevo por hobby e amor. Leonina de coração eternamente apaixonado, gosto de manter uma visão romântica sobre a vida. Humana, sou uma montanha russa de sentimentos e quando as palavras me sobram, escrevo. Minha alma deseja profundamente, um dia, apenas escrever

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