Como um caminho espiritual pode afetar um sensitivo?

Iara Fonseca

Uma jornada de autoconhecimento é e sempre será um processo difícil! Cada um busca uma coisa na vida! Alguns ainda não sabem o que buscam! Mas a natureza tem o poder de revelar a essência da gente! E é bem difícil perceber os pontos negativos que ainda temos que trabalhar em nosso interior, mais difícil ainda é aceitar as coisas como são e deixar de julgar o outro por não ser o que gostaríamos que ele fosse! Mas é isso que temos que fazer!

É isso que eu fui fazer!

Mesmo sem saber o que eu buscava, achando que ia me encontrar apenas, acabei acatando aprendizados simbólicos mais do que conheci a mim mesma! E essa questão ainda permanece incógnita e de difícil solução!

Eu fui!

Percorri cerca de 200km pelo caminho dos diamantes, através da Estrada Real. Independente da sua grande importância histórica, para mim, essa longa caminhada se apresentou como um amigo conselheiro! Com toda a sua imponência e magnitude transbordou meus pensamentos com esses códigos muito significativos que me proporcionaram aprendizados inesquecíveis. Só por isso, já agradeço imensamente a oportunidade de ter ido!

A dor e o cansaço me acompanharam por exatos 11 dias. A exaustão e a confusão interna deram lugar a uma paz de espírito e a uma nova atitude frente a vida. Encontrei com uma mulher diferente, essencialmente, uma com mais coragem para enfrentar os seus desafios, mas, ciente de vários medos que estão borbulhando dentro da sua mente! Eu testei todos os meus limites. Alguns simplesmente não consegui enfrentar de frente, quando a dor e o cansaço pareciam insuportáveis não me envergonhava em pedir carona, como não me envergonho em pedir ajuda quando necessário! Mas esse foi mais um conflito interno que tive que saber lidar!

Conclui com isso que o nosso alto padrão de exigência é o motivo que nos faz andar tristes por aí e, muitos de nós, detestar a própria vida. Acabamos achando que o problema são as pessoas ao redor.

Percebi que a obrigação do sucesso profissional fez da rotina e do trabalho diário, para alguns, um inferno, e por essas e por outras, todos os dias pensamos em desistir de algo. Estamos todos desesperançosos do futuro, angustiados com o presente.

Nesse caminho também entendi que se tivermos a atitude certa podemos sim modificar a nossa realidade, a partir da mudança dos nossos padrões de pensamento. Ou seja, usando a nossa mente a nosso favor! E entendi a duras penas!

Mas ao longo do caminho, sempre me perguntava:

Por que nos sentimos assim?

Eu não sei ao certo, mas me veio a sensação que por termos a obrigação de logo ao entrar na vida adulta, de ter um projeto de trabalho seguro e rentável, acabamos tendo que deixar de lado a vida afetiva, ou melhor, nossas descobertas interiores. E o que é realmente importante acaba ficando tão obscuro, que passa a ser encarado por nós como se fossem meras superficialidades, por isso, acabamos nos deixando em stand by. Eu mesma, fiquei em stand by por muitos anos.

Mas não tenho como falar para quem houve ou escrever para quem lê, que ela ou ele, devem fazer um caminho como este ou aquele para que sua vida melhore, ou até mesmo para que se encontrem ou encontrem um melhor caminho para seguirem! O que eu posso dizer é que várias coisas ficam evidentes quando nós nos colocamos à disposição e abertos a fazer um caminho como este! Coisas que inconscientemente já estavam ali, mas se encontravam adormecidas, afloram como certezas absolutas.

Percebi que dentro de nós existe uma ansiedade boa e outra ruim.

A boa nos inquieta e nos faz buscar modificar tudo aquilo que nos incomoda, ou até mesmo, faz com que fiquemos em uma paranóia criativa que nos leva a mudanças e transformações internas e externas!

A ruim, encontra uma fronteira tênue na angústia, que por sua vez, paralisa e cria barreiras imaginarias, medos e conflitos internos de difíceis soluções, visto que muitas vezes, essa angustia está relacionada a algo que nem aconteceu ou mesmo pode estar relacionada com uma falta de confiança em si mesmo que desmotiva e faz com que o indivíduo simplesmente se acovarde frente as dificuldades da vida.

O que eu posso dizer, diz respeito apenas à mim, e ao meu processo de autoconhecimento, de busca interior e de conexão com a minha felicidade.

Os psicólogos costumam chamar isso de inteligência instrumental, sei porque já li a respeito, mesmo nunca tendo frequentado um analista, e até acho que em certos casos, um profissional é a melhor recomendação, porque realmente é difícil encontrar respostas sozinho!

Mas nesses dias intensos percebi que existe uma receitinha simples, e ela aflorou sensivelmente e me veio à mente depois de muito andar pelos vales de Minas Gerais, depois de incontáveis momentos de aflição e luta interna na iminência de desistir. Naqueles momentos onde minhas pernas não aguentavam mais subir as ladeiras dos morros e as lágrimas caiam involuntárias, eu percebi que toda aquela dor e aquele limite que eu achava que tinha atingido o máximo, era na verdade, fruto da minha mente, das minhas criações inconscientes sobre o que eu acreditava que daria conta e a realidade daquilo que eu realmente era capaz.

Estrada Real

Nessa parte tive muita ajuda do meu namorado que me fez enxergar que o meu sofrimento maior estava acontecendo porque eu estava sendo levada pela fraqueza que a minha mente me mostrava! A minha mente acreditava que eu não era capaz! Isso tem bastante relação com a figura que criamos de nós mesmos, e o que sempre disseram sobre nós!

Incontáveis vezes me peguei lembrando de pessoas que diziam que eu não ia conseguir, que eu não daria conta de andar tantos quilômetros, e no momento que eu acreditava nelas, eu desmoronava e perdia as forças, chorava, queria desistir! Momentos depois eu respirava e conseguia andar mais e mais, subir outros tantos morros e me deslumbrar depois, lá no alto, com a beleza extraordinária da paisagem que a natureza me proporcionava, me levando a pensar profundamente na simbologia de tudo isso.

O que eu conclui pode ser difícil de ser colocado em pratica, ou pode ser fácil, vai depender do que a minha mente acreditar.

Entendi que a felicidade interior depende exclusivamente das nossas atitudes e não das dos outros, e que para conquista-la precisamos fazer por onde.

Você deve estar dizendo: Mas como?

Posso listar aqui N coisas que você e eu devemos fazer para encontrarmos nosso caminho para a felicidade, mas vou pontuar os que vieram à luz no meu coração mais rapidamente!

O primeiro insight que tive foi durante o primeiro trecho, de Diamantina à Vau, foram 26 km e meu joelho travou, simplesmente não dependia da minha vontade sair do lugar naquele momento, e foi muito difícil querer fazer e não poder, principalmente porque era o primeiro dia. Foi aí que me veio um pensamento forte sobre a vida e entendi que deveria, não só naquele momento, mas em todos os outros dai em diante, saber priorizar as coisas e alinhar… Cabeça, vida e coração.

Novo questionamento interno… Eis a questão… Eu tinha que descobrir como, e por isso não me entreguei as dores no joelho e consegui seguir adiante…

Caminho dos Diamantes

Descobri muitos dias depois que, muitas vezes, queremos fazer mais do que nossas pernas aguentam, carregar mais do que nossas mãos suportam, perseguir metas irreais… Naquele momento entendi que devemos priorizar o que é mais importante, provar algo para alguém, ou para nós mesmos? Resolvi simplesmente ser feliz com as pequenas conquistas diárias, dividindo-as com quem eu amo!

O segundo ponto veio no sétimo trecho, quando já tinha passado do vilarejo de Vau, São Gonçalo do Rio das Pedras, Milho Verde, Três Barras, Serro, Alvorada de Minas e chegamos em Itaponhacanga! Lembro que sentei na calçada, logo na entrada da cidade, e pensei que tinha chegado ao meu limite, chorei muito porque não queria desistir, sempre parece que desistir é um fracasso imperdoável, não é mesmo? E foi o meu sentimento naquele momento!

Passado um tempo, almoçamos a melhor comida que pude experimentar durante toda a viagem, lá na pousada do Bill, e o segundo insight se fez forte: É preciso constância para perseguir os objetivos com força e com os pés no chão, respeitando as suas reais capacidades! Ou seja… De nada adianta uma mente que se considera mais forte do que realmente é, ou uma mente que se nivela por baixo e paralisa em sinais de dificuldade.

Depois de uma conversa sobre enfrentamento e respeito com o Tom… Segui feliz para o próximo trecho, respeitando minhas limitações e na constância que me comprometi, sem mais, nem menos, simplesmente no meu tempo.

Parece até que eu estava prevendo que o caminho mais difícil estava por vir, e por isso a ansiedade antecedeu os fatos! Mas minha mente estava disposta a conseguir, e o melhor, eu estava feliz!

De Itaponhacanga a Tapera, na minha concepção, foi o segundo percurso mais difícil, foram 14km apenas, mas 8 deles eram as subidas mais íngremes que já pude presenciar em minha vida!

Quando cheguei lá no topo, uma sensação incrível tomou conta de mim, uma mistura de conquista com revelação interna.

Para os mais céticos chega a parecer clichê, mas é a pura verdade! “Nada conquistamos nessa vida sem vontade firme e sem ir a luta”.

A vontade era tão grande que no mesmo dia depois de almoçarmos na Mercearia do Antonio Totó, ainda reunimos força e seguimos mais 12 km até Córregos, um vilarejo com cerca de 300 pessoas apenas!

Poderia enumerar várias outras coisas e detalhes que me encantaram, pessoas que encontrei, mas isso colocarei em outro texto para não estender tanto, já que o real motivo desse é fazer uma analogia sobre os aprendizados internos que a peregrinação pela Estrada Real me proporcionou e a vida que seguirei daqui pra frente!

E depois de Córregos ainda andei por muito chão!

O quarto insight veio depois de seguir para Conceição do Mato Dentro, chegar a Morro do Pilar, conhecer Dona Das Dores, seguir com coragem para o trecho que seria o mais pesado, com 36km, de Morro do Pilar até Itambé do Mato Dentro, disposta a dormir ao relento, sem saber ao certo onde!

Durante todo o caminho a beleza era tão grande, que enchia meu coração de esperança. Pela estrada, meus olhos não acreditavam no que viam, cristais por todo canto, brilhavam pela estrada de terra batida. A beleza do caminho amenizava a dificuldade das subidas intermináveis e das decidas que castigavam os meus joelhos!

Caminho entre Morro do Pilar e Itambé do Mato Dentro

Já a noite, quando nos preparávamos para dormir em um campo de pastagem limpo que terminava em um precipício aparentemente infinito, me veio como que em um afago carinhoso pelo dia de esforço, o seguinte pensamento: “Devemos sempre manter a motivação para crescer, enxergando a beleza em tudo, mesmo onde não houver, aparentemente, nenhuma, e sobretudo, mesmo com as dificuldades da vida”.

Depois de entender que tinha aprendido tanto, mais tanto, e que precisava conceber e acomodar tudo aquilo dentro de mim, resolvi ir embora, mas o meu companheiro ainda queria mais e percorreu 400km até Ouro Preto. Recebeu o certificado da Estrada Real com mérito e ainda conseguiu um record, fez todo o trecho em 15 dias, quando o indicativo para o caminho eram 27. Isso me fez pensar mais uma vez… Os nossos objetivos podem ser diferentes na vida, e optamos ou não em caminharmos juntos, mas o fazemos por amor, até onde achamos que devemos. O mais importante é continuar no amor, e aceitar as escolhas de quem caminha ao nosso lado e que tanto amamos.

Agradeço muito a oportunidade de ter ido, sei que ainda me surgirão outros pensamentos, mas esses, por ora, foram os ensinamentos mais fortes e impactantes que tive nessa viagem!

Se valeu a pena?

Sim, valeu muito! E quero muito poder continuar peregrinando por aí com o Tom, meu companheiro, razão que me levou até lá.

Ele me avisou da dificuldade que eu encontraria, e por muitos trechos me estendeu a mão, mas eu quis provar, e pude ver com os meus próprios olhos. E muito mais que isso, pude sentir com todo o resto! Lembram do primeiro insigth? Com a cabeça, com a vida e com o coração!

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Iara Fonseca
Jornalista, poeta, educadora social, fundadora e editora de conteúdo do Rede de Ideias: PRODUÇÃO DE CONTEÚDO. Seu interior é intenso, sempre foi, transforma suas angustias em textos que ajudam muito mais a ela própria do que a quem lê. As vezes se pega relendo seus textos para tentar colocar em prática aquilo que, ela mesma, sabe que é difícil. Acredita que viemos aqui para aprender a ser, a cada dia, um pouco melhor, para si mesmo, e para o outro!

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