CHEGA UM MOMENTO NA VIDA EM QUE EVITAR PROBLEMAS E DRAMAS EXCESSIVOS É A MELHOR FORMA DE FELICIDADE

Sílvia Marques

A gente perde um pouco daquela ansiedade da juventude que quer tudo para ontem, que quer agarrar o mundo com as pernas. A gente começa a entender que cada coisa tem o seu tempo, o seu ritmo, que não adianta dar murro em ponta de faca. Que devemos lutar pelos nossos sonhos, mas se não rolar, não rolou. A gente descobre novos caminhos, novas possibilidades. Nada é tão definitivo. A gente começa a perceber o nosso valor, a bagagem que acumulamos, ficamos menos mendigos afetivamente , menos manipuláveis socialmente.

Dramas excessivos e peripécias mil são ótimas no cinema. Mas na vida real, o que nos traz bem estar , sentimento de pertencimento, paz de espírito é ficar com quem nos aprecia e com quem apreciamos, é conversar com quem nos entende e nos aceita como somos, é trabalhar naquilo que gostamos , é fazer o que se bem entende no final de semana, mesmo que seja simplesmente vagar pela casa de pijama, lendo jornais e comendo comida chinesa diretamente da caixinha para não sujar pratos.

Chega um momento na vida em que a gente descobre que é bom estar em paz conosco mesmo e com quem está ao nosso redor. A gente descobre que nem tudo é para nós, que a gente não precisa importar um modelo de felicidade aceito pela maioria, que para nós passar o Carnaval vendo Netflix pode ser muito mais divertido, que amor para ser de verdade não precisa ser complicado. Muito pelo contrário.

A gente perde um pouco daquela ansiedade da juventude que quer tudo para ontem, que quer agarrar o mundo com as pernas. A gente começa a entender que cada coisa tem o seu tempo, o seu ritmo, que não adianta dar murro em ponta de faca. Que devemos lutar pelos nossos sonhos, mas se não rolar, não rolou. A gente descobre novos caminhos, novas possibilidades. Nada é tão definitivo. A gente começa a perceber o nosso valor, a bagagem que acumulamos, ficamos menos mendigos afetivamente , menos manipuláveis socialmente.

A gente percebe que ter dinheiro é bom, mas que ter tempo para relaxar e curtir é fundamental. A gente descobre que trabalhar por amor é delicioso, mas que o pagamento precisa ser justo pois as contas não se pagam sozinhas. Às vezes , a gente abre mão de um passeio ou de um projeto porque admite que está cansado, que anda trabalhando demais, que precisa de um tempo para ler aquela pilha de livros deixada sobre a mesinha da cabeceira.

Que a gente não precisa ser o super herói ou a super heroína o tempo todo. Que a gente não precisa dizer sim para todos os convites. Que a gente não precisa estar no clima do role todas as sextas à noite. A gente percebe que um vinho de quarta-feira também pode ser muito bom e que réveillon feliz não precisa acontecer necessariamente na praia e que a gente deve tratar a todos com respeito, mas não precisamos ser amigos de todo mundo nem permitir que nos manipulem pois somos bonzinhos.

A gente descobre que pode voltar atrás sim se pegou o caminho errado. Que não há vergonha alguma em se reconhecer meio perdido neste mundo louco. Que a gente não precisa provar nada a ninguém nem a nós mesmos. Que a gente vive do jeito que é possível, que a gente consegue viver. Que a vida não é fácil, mas que a gente não precisa complica-la ainda mais com autoenganos e pessoas que só tumultuam. Que fazer seu trabalho com amor e viver com dignidade podem ser grandes formas de sucesso.

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Sílvia Marques

Viciada em café, chocolate, vinho barato, filmes bizarros e pessoas profundas. Escritora compulsiva, atriz por vício, professora com alma de estudante. O mundo é o meu palco e minha sala de aula , meu laboratório maluco. Degusto novos conhecimentos e degluto vinhos que me deixam insuportavelmente lúcida. Apaixonada por artes em geral, filosofia , psicanálise e tudo que faz a pele da alma se rasgar. Doutora em Comunicação e Semiótica e autora de 7 livros. Entre eles estão “Como fazer uma tese?” ( Editora Avercamp) , “O cinema da paixão: Cultura espanhola nas telas” e “Sociologia da Educação” ( Editora LTC) indicado ao prêmio Jabuti 2013. Sou alguém que realmente odeia móveis fixos.


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