Aos vinte e poucos

Iandê Albuquerque

Eu sempre achei que a minha vida mudaria aos dezoito anos, que a maioridade seria uma viagem incrível pra um destino que eu sempre quis conhecer e que aos vinte e poucos eu faria tudo que eu sempre quis. Puro engano! Aos vinte e poucos a gente soma mais decepções e machucados que dinheiro na conta, aos vinte e poucos a gente aprende a gastar menos pra poder aproveitar mais um final de semana com os amigos, aos vinte e poucos a gente aprende a poupar tudo, dinheiro, paciência, tempo com gente que não soma e até mesmo pessoas que não nos leva a lugar algum. Aos vinte e poucos a gente aprende a gastar só o necessário, gastar o nosso tempo com quem realmente valha a pena, sorrir com quem realmente nos fazem bem, gastar abraços com quem é importante pra gente, gastar beijos com quem faz o nosso mundo melhor.

Aos vinte e poucos você começa a enxergar o tempo passando mais rápido do que nunca e isso bate um medo danado. A gente vê, no duro, os anos passando e a nossa capacidade de sonhar diminuindo, a realidade tomando conta de tudo e como a realidade é cruel. Aos vinte e poucos você começa a ver os seus amigos se casando, você se pergunta porque diabos resolveu entrar naquele curso que não tinha nada a ver com você e o que te fez passar tanto tempo da tua vida com alguém idiota quando você poderia estar viajando ou fazendo qualquer outra coisa mais útil.

Aos vinte e poucos você continua se interessando pelas pessoas, mas dessa vez, percebe que nem todo mundo consegue te agradar e que é mais fácil resolver uma equação de quarto grau que encontrar alguém interessante. Aos vinte e poucos anos você sente ansiedade de sair da sua cidade e da sua rotina pra conhecer novos lugares e se conhecer. Aos vinte e poucos anos você leva no bolso uma nostalgia sem tamanho de quando era bem mais jovem e isso te faz parar no tempo e perceber ainda mais o quanto o tempo voa. Aos vinte e poucos você se livra daquela ideia de procurar o amor da sua vida e passa entender que as coisas vão acontecer na hora em que tiverem que acontecer e que pode ser que aconteçam de uma forma melhor que imaginamos ou planejamos.

Antes dos vinte temos uma mania de achar que já somos donos do mundo, que já amaduremos o bastante ao ponto de sabermos o suficiente, mas é aos vinte e poucos que a ficha finalmente cai, a gente começa a entender que amadurecimento é adquirido ao longo do caminho e que a bagagem que a gente carrega é constantemente trocada por novas experiências, a gente nunca é tão maduro que não possa amadurecer ainda mais. Aos vinte e poucos a criança de dentro da gente grita, esperneia, nos tira o sono. Às vezes bate aquela vontade de deitar em posição fetal e chorar um bocado, de fingir que ainda somos crianças, largar a academia e queimar as calorias brincando pique-esconde. De jogar todas as contas pro alto, de entrar numa máquina do tempo e voltar umas dez casas.

Aos vinte e poucos os laços se soltam pra sempre ou viram nós apertados. Não tem meio termo, não tem como afrouxar. Quanto mais o tempo passa mais existe uma necessidade impaciente de ser âncora, certeza, e às vezes tudo que você consegue é encalhar, ter dúvidas, receios. Aos vinte e poucos sarar uma ferida talvez seja amanhã, talvez demore tanto. A queda é bem mais alta aos vinte e poucos, o risco é maior, principalmente quando não dá pra confiar em ninguém pra te livrar da queda, pra te dar colo, pra evitar o tombo.

Aos vinte e poucos você consegue ser mais dúvida que certeza, e a única certeza que você tem é que você não é exatamente quem queria ser antes dos 20. Mas quando a coragem e a autoconfiança vem pra desancorar o barco, vinte e poucos é leveza, se torna a idade que você pode ser você mesmo sem se importar com o que os outros acham, existe uma vontade de viver intensamente, viajar, ganhar o seu próprio dinheiro. Talvez os vinte e poucos seja a idade ideal da vida real, sem maquiagem, com cara cansada, contas pra pagar, muita coisa pra fazer. Talvez aos vinte e poucos seja o momento do teu primeiro encontro contigo mesmo.

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Iandê Albuquerque
Sou recifense, 24 anos, apaixonado por cafés, seriados e filmes, mas amo cervejas e novelas se houver um bom motivo pra isso. Além de escrever em meu blog pessoal e por aqui, escrevo também no blog da Isabela Freitas, sou colunista do Superela e lancei o meu primeiro livro em Novembro de 2014 pela Editora Penalux. .

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