ANEDONIA, UM SINTOMA PSÍQUICO QUE INDICA FALTA DE PRAZER NA VIDA

Resiliência Humana

Há mais de um ano não escrevo sobre minhas experiências de vida pessoal. Como me sinto melhor neste momento, arrisco-me a contar-lhe mais um capítulo. Farei um resumo. Aguente firme, que lá vem história!

A partir do segundo semestre do ano de 2012, após viver seis longos anos sob forte tensão emocional e estresse, cheguei ao ponto de exaustão psíquica, mas não a um quadro depressivo grave. Estava muito cansada. Depois de perder a visão do olho esquerdo por causa de um câncer e, posteriormente, acabar perdendo o próprio globo ocular, perder o companheiro por causa de um infarto, submeter-me à histerectomia, ablação cardíaca por arritmia, catarata e por fim, saber do diagnóstico da doença de Alzheimer de minha mãe, era natural sentir-me exaurida, não é mesmo?

Além disso tudo, nesse período, sofri um assalto ao estacionar meu carro, em plena luz do dia. Felizmente, consegui reunir forças e lutei pela vida, pois desejava continuar respirando, apesar dos pesares. Queria ser feliz de novo, de alguma maneira.

Durante essa triste jornada, eu fazia o mínimo necessário para sentir-me viva: acordava pela manhã, tomava banho, vestia-me, arrumava-me. Tomava o café-da-manhã, e, por hábito, lia o jornal mas sem muita atenção.

Obstinadamente, cumpria à risca meus compromissos sociais: pagamentos bancários, compras para a casa, consultas e exames médicos, escrevia alguns textos, participava de reuniões de trabalho voluntário, assistia um pouco de TV e vez ou outra escolhia um filme interessante para assistir ou um livro para ler. Nesse período também fiz algumas viagens de descanso, na companhia de minha filha, minha irmã, ou de amigas. Mas, sempre sentia um grande vazio dentro de mim.

Ajudava minha filha, irmãos, amigas, empregada, como também atendia a minha mãe idosa, na medida do possível. Mantinha contato com os amigos. Sempre com pouca energia, sem entusiasmo algum, em silêncio ou falando pouco. A paciência abandonara-me e sentia-me irritada. Até mesmo minha voz forte, enfraqueceu. Não era propriamente uma pessoa infeliz, mas tampouco era feliz. Além dos tratamentos médicos convencionais alopáticos, também fazia tratamento homeopático. Lutava contra a inércia e a desolação. Não me entregava à tristeza.

Nesse período, frequentemente, lembrava-me da bela música composta por Sérgio Ricardo e Glauber Rocha, “Perseguição “. Eu, tal qual o Corisco do bando de Lampião, me recusava a entregar-me.

Um certo dia decidi buscar ajuda psicoterapêutica. Era preciso fazer algo pela minha saúde mental. Queria reencontrar a alegria que havia perdido. Sempre fui uma pessoa feliz – quase eufórica! – falante, cantante, otimista, de bom humor e sempre ocupada com afazeres os mais diversos, mesmo após a aposentadoria. Parecia ligada numa tomada 220v. Tinha energia vital sobrando. Entretanto, após tanto sofrimento, passei a viver no “modo avião ” – aquele do celular – ou seja, ligada apenas no “piloto automático “. Porém, como pode perceber, não me tornara uma estátua. Movia-me, embora lentamente. E tinha plena consciência de que há coisas piores no mundo. Mas, era claro que eu não ia bem.

Meu sono diminuíra muito, porém eu não permanecia na cama. Levantava-me cedo – por volta das 7 horas – e vivia meu dia. Um de cada vez. Sem prazer algum. Essa era a questão. Perdera o prazer de ouvir música, conversar, marcar compromissos com amigos, abraçar as pessoas. Sair à noite? Nem pensar! Queria apenas cumprir minhas tarefas e ficar quieta em minha casa, na companhia de minha cadela Nina. E pensar na vida, no meu futuro. Refletir sobre os acontecimentos. Sentia a morte à espreita. Haveria futuro para mim? De que amanhã, afinal? Confesso que sentia – e ainda sinto – muitas saudades de meu companheiro Vicente.

Então, iniciando uma terapia cognitiva-comportamental , a psicóloga ouviu-me atentamente. Depois de algumas sessões de longas conversas, ela disse-me o seguinte: você vive um quadro de anedonia, como sintoma isolado, levada a ele por exaustão. Assegurou-me de que eu sairia daquela situação e que ela me ajudaria nisso. Foram muitas conversas, práticas de relaxamento e exercícios físicos para combater e aprender a controlar o estresse. Dediquei-me a recuperar o prazer de viver. Não há solução mágica. É preciso bastante esforço pessoal. Lembrava-me do mito de Sísifo: eu chegava com a pedra ao cume e ela rolava pela ribanceira abaixo. Começava a subida de novo. Todos os dias.

Após uns dez meses de terapia, eu já conseguia tomar algumas decisões importantes para mim e via uma “luz no fim do túnel”: ninguém sabe se haverá futuro, nem mesmo as pessoas felizes e saudáveis. Portanto, esse não era um problema só meu. Melhor parar de pensar nisso e agir no presente, sonhando com um futuro melhor. Tocar o barco.

Aos poucos, contando com o carinho de familiares e amigos (as), consegui sentir prazer em cuidar das pequenas coisas do cotidiano. Voltei a ouvir música diariamente, cantar e dançar acompanhando o som. Passei a cuidar mais da minha alimentação diária e a beber cerveja ou vinho – com ou sem álcool – com prazer e sem compulsão. Mesmo sozinha. E, com bom humor, vou levando a vida. A solidão não me assusta. Sempre gostei um pouco de estar só. Quando jovem, viajei pelo mundo sozinha, algumas vezes. Leio muito. Livros sempre foram a minha companhia constante.

Já não faço psicoterapia. A ajuda que ela me deu foi importante e considerável, mas preferi seguir sozinha. Ainda há uma grande caminhada pela frente, acho eu. Continuo buscando realizar algum sonho que possa proporcionar-me prazer. Já tentei aprender canto, ser fluente na língua inglesa, fazer Pilates, Ioga etc. Não houve fluxo. Estanquei. Todavia, quando escrevo ou leio, não percebo o tempo passar. Enquanto isso, saboreio a vida. As vezes ela tem gosto de limão, outras vezes de chocolate.

Bem, mas quando eu ouvi, pela primeira vez na vida, a palavra “anedonia” não tinha a menor idéia do que ela significava. A psicóloga explicou-me, evidentemente, o sentido dela, mas ao chegar em casa fui consultar meus dicionários. E, na falta do Oráculo de Delfos, fiz o que milhões de seres humanos fazem hoje em dia, que é consultar o “Dr. Google “. E entendi melhor tudo aquilo. Por isso, atrevo-me a escrever hoje sobre isso. É para compartilhar com você caro (a) leitor (a), o que aprendi nessa caminhada.

Vamos lá.

Começando pelo nosso dicionário de língua portuguesa, o Houaiss, a palavra anedonia significa (1) incapacidade de ter prazer ou divertir-se; (2) forma especial de rigidez afetiva em consequência de experiências traumáticas de vida (p.ex., passagem do indivíduo por um campo de concentração).
Prosseguindo, temos o significado de Anedonismo no Dicionário de Psicologia, organizado por Roland Doron e Francoise Parot, ambos da Universidade de Paris, com tradução de Odilon S.Leme, publicado pela Editora Ática, SP: “Assim como a psicologia das emoções se interessou recentemente pelo hedonismo, a psico-patologia parece dedicar um novo interesse ao anedonismo, definido, desde 1913, por T.Ribot, como a perda da capacidade de experimentar o prazer. […]Vários autores puderam encontrar a mesma proporção (cerca de 12 a 15%) de depressões anedônicas no conjunto dos estados depressivos, mas o sintoma isolado, mesmo de forma discreta, é mais frequente. […] Seu caráter exclusivamente subjetivo deve evitar que ele seja confundido com o embotamento afetivo, que implica sinais de observação além da vivência de indiferença afetiva. O Anedonismo pode ser medido por escalas de avaliação. (R.Jouvent).Anedonia

Caso você queira entender melhor esse sintoma psíquico, recomendo a leitura do livro ” A ANEDONIA – A insensibilidade ao prazer “, escrito por Gwenole Loas, com tradução para o português por Rita Rocha, publicado pela CLIMEPSI EDITORES, Lisboa-Portugal, 2006.

Gostaria de dizer a você que o antônimo de anedonia é hedonismo. E o que significa hedonismo? Essa é uma palavra que se origina de outra palavra grega, “hedonê ” que, por sua vez, significa prazer ou vontade.

O hedonismo, segundo o “Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia, André Lalande, significa “Toda doutrina que tome por princípio único de moral que é necessário procurar o prazer e evitar a dor, considerando nestes fatos apenas a intensidade do seu caráter afetivo, e não as diferenças de qualidade que podem existir entre eles. Especialmente, refere-se a doutrina da Escola de Cirene (Escola hedonística).manual perpétua. Para entender melhor essas colocações de hedonismo, indico-lhe dois livros que li: (1) “A Euforia Perpétua – ensaio sobre o dever de felicidade “, escrito por Pascal Bruckner, com tradução de Rejane Janowitzer, DIFEL-RJ, 2002; (2) “Manual do Hedonista – Dominando a esquecida arte do prazer “, escrito por Michael Flocker, com tradução de Talita M.Rodrigues, Rocco-RJ, 2007.

É isso. Todavia, devo dizer que, o que mais me trouxe compreensão de fato do que era um quadro de anedonia, foram as imagens de um curta metragem – com 6 minutos de duração – denominado, justamente, “Anedonia“. Foi filmado na Academia Internacional de Cinema (SP), Intensivo de Cinema Digital, 2º semestre de 2009, com a participação de Armando León Carvalho, Amélia Jamile Farah, direção de Leonardo Grubman, roteiro Rafael Rodrigues. Um belo trabalho o deles. Para assisti-lo bastará clicar neste link:

Também encontrei algumas músicas ligadas a esse tema. O músico argentino Charly Garcia, p. exemplo,expressa bem a angústia contida com sua música “Anhedonia “. Aqui segue a letra se desejar:
El tiempo vuelve a pasar/ pero no hay primavera en Anhedonia./ El tiempo vuelve a llorar pero no hay primavera en Anhedonia./ Y aunque las luces son suaves/ y el cine está aquí/ no hay nada que hacer de noche no pasa nada/ nada más que el tren./ Un ángel vuela en París y un chico nace casi en Anhedonia/ Está tan lejos de aquí/ porque ella sólo vive en Anhedonia. Ella hizo un pacto de sangre/ a pesar de mí/ No tengo que volver/ sangre en la calle, calle No hay que vivir así./ Porque antes que tu madre/ mucho antes que el dolor./ El amor cambia tu sangre/ Porque la noche es tan suave/ y el tiempo feliz/ no tengo que hacer maletas/ no siento nada.

E, o músico brasileiro Arnaldo Antunes deu sua versão de anedonia, com a canção denominada, adequadamente, “Socorro ”.

A vida continua e permaneço otimista. O copo com líquido pela metade me parece meio cheio. Apenas, percebo que perdi aquela animação toda que um dia eu tive. E, ainda, não consigo sentir prazer em fazer exercícios físicos… Agora eu “voo” baixo e estou “plugada” em 110v, não mais em 220v! Mas, verdade seja dita, nesse tempo eu também envelheci, oras! Já completei 67 anos! Mantenho-me perto das pessoas queridas. Desacelerei meu ritmo diário e reduzi bastante meus compromissos. Sou feliz mesmo assim. Sinto prazer em acordar pela manhã e ter a perspectiva de viver mais um dia. Há sempre o que fazer. Gosto muito de ir ao cinema e vou. Mas confesso que não me sinto pronta para voar mais alto.

Também tenho prazer em escrever neste blog para você, caro leitor (a) . Viver é, de fato, maravilhoso! É isso o que penso e sinto. E respiro. Não importa que os prazares venham aos pares. Há dentro de nós uma força vital que, às vezes, precisa apenas ser Floricultura_Bouquet_de_Rosa_Rosaacionada com determinação. Buscar ajuda é fundamental. Dar asas à imaginação também é. Como dizem os jovens de hoje: aperte o play ! E vai!

Para finalizar, encontrei uma música brasileira bem pertinente a esse assunto e que você poderá ouvir: “Aprendendo a jogar “, de Guilherme Arantes, na belíssima voz da saudosa e amada cantora Elis Regina.
E você, é feliz? Sente prazer em viver, ou nunca pensou nisso antes?

FONTEBlog da Ines
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