Amor Próprio, Amor ao Próximo, Fazer Amor… Que Confusão! Por Flavio Gikovate

Resiliência Humana

Pensar de forma mais rigorosa é condição necessária para quem deseja ser mais feliz.

Pensamos por meio de palavras e frases. Em nosso processo de reflexão, elas desempenham um papel semelhante ao dos números na Matemática. Qualquer erro no uso das palavras determina um engano que, na sequência dos pensamentos, tenderá a se amplificar e nos conduzirá a conclusões cada vez mais equivocadas. Não se trata de insistir para que sejamos mais atentos ao significado das palavras que utilizamos apenas por purismo ou por um anseio perfeccionista. Trata-se de não utilizarmos mal nossa mente, já que ela funciona a partir das palavras, frases e suas conclusões que delas extraímos. Qualquer erro poderá ter consequências desastrosas para nosso futuro. O mais grave é que teremos cada vez mais dificuldade para detectar onde ele está, já que ele costuma se perder na cadeia das nossas reflexões.

A forma mais comum de engano no nosso sistema de pensamento deriva de usarmos uma mesma palavra com mais de um sentido. No caso em questão, a palavra é AMOR. Na linguagem coloquial, amor é usado como sinônimo de solidariedade, como amor por tudo e por todos aqueles que estão sobre a Terra. “Eu te amo” é uma expressão usada por um sedutor que conheceu sua “vítima” há poucos minutos e deseja levá-la para a cama. Pessoas alegres e pouco criteriosas se dizem encantadas e amam com facilidade cada nova pessoa que conhecem. Uma pessoa egoísta empenhada em se mostrar feliz consigo mesma não titubeia em afirmar: “eu me amo”. Estamos diante de diferentes usos da mesma palavra: uso equivocado, vazio, idealizado ou maroto. Usamos a palavra amor como o coringa em certos jogos: ela serve para todos os momentos e para todas as situações.

Amor é palavra usada e abusada. É dita por quem tem alguma ideia acerca do seu significado e também por aqueles que a repetem apenas por imitação. Usa-se mais a palavra amor do que vive-se o sentimento. E quantas são as pessoas que se sentem felizes no amor? Pouquíssimas. E quem é capaz de definir o que seja o amor? Quase ninguém. E como podemos pretender nos dar bem nesse campo se não sabemos nem mesmo como conceituar o sentimento? Peço licença para propor uma definição de amor. Sugiro que acompanhem com atenção a sequência do pensamento para que possamos iniciar a desenrolar esse intrincado novelo de lã. A questão é fundamental, pois envolve emoções que nos são fundamentais e em torno das quais temos sofrido muito. Envolve também um exercício de reflexão, uma introdução à arte de pensar com rigor e precisão, condição importantíssima a ser respeitada quando pretendemos nos aprofundar em qualquer setor da nossa subjetividade – ao menos por aqueles que pretendam desenvolver uma vida íntima rica, gratificante e criativa.

Defino o amor como o sentimento que vivenciamos em relação àquela pessoa cuja presença nos provoca a agradável sensação de aconchego. O aconchego é fundamental para nós, já que, desde o nascimento, nos sentimos desamparados, ameaçados, inseguros e incompletos. Nosso primeiro objeto do amor é nossa mãe. O objeto do amor vai se modificando ao longo da vida, mas em cada fase corresponde a um objeto definido. Assim, o amor é um fenômeno interpessoal, já que amamos alguém cuja presença nos aconchega. De acordo com essa definição, não pode existir amor por si mesmo, posto que não me sinto completo e aconchegado quando estou sozinho. Se me sentisse assim pleno em mim mesmo, o mais provável é que não existiria o amor por outra pessoa, uma vez que o convívio íntimo implica em concessões e dificuldades que só são enfrentadas em decorrência dos benefícios que experimentamos a partir dessa intimidade.

Não tenho a menor dúvida de que sexo e amor correspondem a impulsos completamente diferentes, apesar de que sempre foram tratados com parte de um mesmo instinto, especialmente por parte da psicologia psicanalítica, tão influente no século XX.

Temos que ter a coragem de discordar até mesmo dos grandes mestres. Não podemos continuar a repetir suas falas como papagaios. Temos que poder pensar por conta própria. Do meu ponto de vista, o sexo corresponde a um fenômeno instintivo que se caracteriza pela sensação de excitação que experimentamos ao tocarmos nossas zonas erógenas. Essa é sua manifestação primeira e que se dá pelo fim do primeiro ano de vida.

É evidente que o processo se sofistica principalmente a partir da puberdade, quando surgem as diferenças físicas entre os sexos e onde entra em cena a excitação que deriva dos estímulos visuais e também aqueles que derivam de fantasias que nossa mente é capaz de construir.

De todo o modo, as diferenças entre amor e sexo são gritantes: amor é a sensação de prazer que deriva do fim da dor relacionada com o desamparo; sexo é um prazer positivo, já que independe da existência prévia de uma dor ou desconforto. O amor é interpessoal, uma vez que o aconchego depende da presença de uma outra pessoa; o sexo é pessoal, posto que a estimulação das zonas erógenas pode ser feita pela própria pessoa.

O amor é sentido por um objeto definido, ao passo que a excitação sexual independe de objeto definido e pode ser despertada por múltiplas pessoas em um tempo muito curto. Amor e sexo são impulsos completamente diferentes, que podem ser vivenciados separadamente. É claro também que combinam muito bem e nada é mais agradável do que trocar carícias eróticas com aquela pessoa que também nos provoca a sensação de aconchego!

A partir dessas definições precisas – e que podem não ser as melhores, substituíveis a qualquer momento por outras igualmente rigorosas – fica claro como é difícil sustentar como interessantes as expressões “amor próprio”, “amor ao próximo” e principalmente “fazer amor”. Fica difícil também entender como é que se perpetuou o uso de “autoestima”, já que, de alguma forma significa o mesmo que amor por si mesmo.

Vamos tentar desfazer essa confusão passo a passo. Fazer amor é expressão usada como sinônimo de trocas eróticas, o que não tem nada a ver com o fenômeno amoroso. Acredito que a expressão foi cunhada com o intuito de “purificar” os “pecados” do sexo, uma vez que a palavra “amor” daria dignidade e beleza ao que era visto como sujo e indigno. Amor é um sentimento e não se “faz” um sentimento. É comum que as trocas eróticas se deem entre aqueles que se amam. Porém, não sei se a prática sexual não é mais comum entre os que não se amam – e que muitas vezes nem mesmo se conhecem. Transar é expressão bastante mais adequada para descrever as trocas eróticas que envolvem um relacionamento sexual.

Amor ao próximo pressupõe um sentimento difuso de amor por todas as pessoas, o que não está de acordo com a ideia de que o sentimento só se manifesta em relação a quem nos provoca aconchego. Pode existir uma certa sensação de aconchego quando nos sentimos integrados em um grupo maior, como por exemplo quando nos sentimos parte de um povo, de uma pátria. Penso que a melhor palavra para definir esse outro tipo de aconchego derivado de nos sentirmos integrados em um todo maior é solidariedade.

Solidariedade é um sentimento humano sofisticado, através do qual nos integramos em uma dada comunidade. Nos sentimos parte dela, corresponsáveis por seu destino e dispostos mesmo a morrer em sua defesa. Nossa identidade se afrouxa, de modo que nos tornamos antes uma ínfima parte daquele todo e depois nós mesmos. Nosso destino se identifica com o destino daquele grupo. O sentimento pode nos fazer integrado a toda a humanidade, o nos permite entender as palavras do poeta quando ele fala “desses pobres de nós seres humanos”.

Outras vezes usamos, inadequadamente, a expressão amor ao próximo para descrever situações nas quais não estamos integrados, mas estamos preocupados com as pessoas que nos cercam. Compaixão descreve um sentimento derivado de nos sentirmos sofridos em virtude de nos identificarmos com o sofrimento daqueles que estão à nossa volta. Determina um desejo de ajudar aqueles que estão necessitados. É um sentimento vivido por alguém que se encontra em uma boa condição, mas que se incomoda com o fato dela não ser compartilhada por outros membros do grupo. Na solidariedade, somos parte do grupo e nos sentimos integrados nele.

Na compaixão, estamos fora do grupo e sofremos com as dores dele. Em nenhum dos casos cabe a expressão “amor ao próximo”, quase sempre usada quando nos preocupamos com o destino daqueles que nos cercam e principalmente quando nos preocupamos em ajudar os que estão próximos. Daí outra confusão, através da qual se costuma dizer que “amar é dar”. Amar é amar e dar é dar! Trata-se de dois verbos com significados completamente diferente.

Amor próprio e autoestima derivam da ideia de que existiria um efetivo amor por si mesmo, o que contraria frontalmente a definição de amor que venho defendendo há 35 anos. Acontece que existe alguma coisa que sentimos em relação a nós mesmos. Só que não se trata de um ingrediente amoroso e sim sexual. Não existe amor por si mesmo, mas existe um importante elemento autoerótico. Existe um tipo de excitação sexual que deriva de nos sentirmos importantes, valorizados, olhados com admiração. Corresponde ao que chamo de vaidade.

Vaidade é conceito mais útil do que narcisismo, já que esse último implica na continuidade da confusão entre sexo e amor. Narcisismo não seria amor por si mesmo, mas sim erotismo focado em si mesmo; para esse fim, a palavra vaidade presta melhores serviços. Por força da interferência da razão, a vaidade também está a serviço da preservação da nossa integridade. Ela nos protege contra ofensas sutis à nossa pessoa, aquelas que ferem nossa vaidade. Ela nos protege porque, quando ofendidos, sentimos o oposto da sensação positiva da vaidade, que é a humilhação.

Humilhação é a dolorosa sensação que vivenciamos quando somos depreciados, olhados com desprezo ou desdém. Dizemos que temos amor próprio quando nos insurgimos contra situações de humilhação. O termo ideal para substituir amor próprio talvez seja orgulho – ou seria honra? Nos sentimos ofendidos e gravemente feridos quando somos tratados de modo desconsiderado, o que nos provoca a sensação de humilhação, o que ofende nosso orgulho. O fenômeno não é amoroso e a ofensa nos incomoda mesmo quando vem de alguém que mal conhecemos. É claro que nos magoa mais quando somos agredidos por aqueles que nos são caros – e mais ainda pelo amado.

Autoestima, apesar de estima significar afeição, diz respeito ao juízo que fazemos de nós mesmos. Nossa autoestima é boa quando somos e agimos de uma forma que nós próprios aprovamos; a autoestima é baixa quando nós mesmos não estamos concordando com nossos procedimentos. É claro que a opinião dos outros pode interferir em nossa autoestima. Porém, um elogio ou qualquer ação externa que nos enalteça não nos provocará nenhum efeito se não estivermos satisfeitos com nossas posturas. É fato também que uma crítica vinda de fora, dirigida a quem já está tendo um juízo negativo de si mesmo, será muito mais facilmente absorvida. Não consigo pensar numa boa expressão que substitua “autoestima” com vantagem. Reafirmo, porém, que não se trata de gostar de si mesmo e que uma boa autoestima depende de estarmos vivendo de acordo com nossas próprias convicções.

O que pensar quando se ouve uma multidão de indivíduos repetir, sem qualquer esforço reflexivo, que “para ser capaz de amar uma pessoa tem que, antes, amar a si mesma”? A frase lembra aquela que se lê na Bíblia, que pede que amemos o próximo como a nós mesmos. Não sou um bom entendedor do texto bíblico, mas creio que o termo amor foi usado num sentido muito mais amplo do que descrevi nesse texto. Penso que o texto bíblico pede às pessoas que tratem seus semelhantes com a consideração, respeito e zelo que esperam ser tratados. A reflexão é antes de tudo moral, na qual uma pessoa não deveria se atribuir mais direitos do que aqueles atribuídos às outras.

Não creio que esteja se referindo ao relacionamento íntimo entre duas pessoas. Por outro lado, se refletirmos sob a ótica da psicanálise, o narcisista – aquele que, segundo essa teoria, ama a si mesmo – não é capaz de amar outras pessoas. O amor se concentra em si mesmo por medo de se deslocar em direção ao outro. Medo sim, pois sabemos que o amor envolve risco de sofrimento derivado de uma eventual perda; sabemos que o narcisista é criatura imatura e que, por tolerar mal dores e frustrações, não se arrisca.

Assim, não tendo capacidade para amar, apenas espera receber amor dos outros, além de amar a si mesmo. Essa também não é minha convicção, já que pessoas assim imaturas e medrosas não têm boa autoestima. Fingem estar bem consigo mesmas, mas é só aparência. No fundo, sabem que são um blefe e por isso mesmo se tornam invejosas daqueles que são mais corajosos. Assim, não creio que se amem, de modo que, mesmo se respeitarmos as teses psicanalíticas, não deveriam ser chamadas de narcisistas.

Se existisse amor por si mesmo, como já escrevi, provavelmente não existiria o amor como o vivenciamos. Quem é corajoso, ousa amar e tenta aliviar o desamparo através do aconchego que a presença do outro determina. Quem tiver boa autoestima – e isso é muito diferente de amar a si mesmo – será, isso sim, capaz de escolher melhor o parceiro, uma vez que se considerará com direito a uma companhia à altura do julgamento que faz de si mesmo.

FONTEFlavio Gikovate
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