A gente se despede quando percebe que não faz mais sentido ficar
Um dia, a gente finalmente se despede. Descobre que ir embora não é mais difícil do que ficar onde não é bem-vindo. A gente se veste de coragem, cata os verbos soltos pelo chão, as juras de amor e as promessas de ocasião.

Um dia a gente compreende que estar por estar, onde quer que seja, não leva a lugar nenhum. É como ser qualquer coisa num cenário abandonado. E ser qualquer coisa em qualquer lugar não é ser nada.

Um dia a gente descobre que se despedir é olhar de relance para tudo o que fica, para todas as coisas nascidas da comunhão de um instante que já foi eterno. Mesmo com essa lembrança, a gente não quer ficar porque não se sente mais em casa. O coração está adormecido e não se emociona com a risada do outro, que antes era sol e abrigo.

Um dia a gente, simplesmente, cansa de tentar arrumar a casa, ajeitar a mobília quebrada. A gente cansa de doer sozinho e sofrer por tantas ausências premeditadas. No fundo, a gente quer que tenha reciprocidade, a gente quer ser lar em beira de estrada, mas também quer ser luz acesa no coração do outro.

A gente não quer ser só passagem, travessia e meio pelo qual alguém faz alguma coisa. A gente quer ser o desfecho daquela história bonita, sonhada com laços e arranjos de fita. Mas a gente se dá conta de que era só rascunho e sombra no caminho do outro. A gente percebe que era só um nome avulso numa folha qualquer, um ancoradouro para abrigar alguns cansaços. Um estepe. Um talvez.

A gente se despede quando percebe que não faz mais sentido ficar se o coração do outro só se ressente, não perdoa e não ama mais. A gente se resgata indo embora sem olhar para trás, sem tentar lembrar que partir pode ser um erro imperdoável, mas que ficar não pode ser mais nada.








Ester Chaves é uma escritora brasiliense. Graduada em Letras pela Universidade Católica de Brasília e Pós-graduada em Literatura Brasileira pela mesma instituição. Atuante na vida cultural da cidade, participou de vários eventos poético-musicais. Já teve textos publicados em jornais e revistas. Em junho deste ano, teve o conto “Os Voos de Josué” selecionado na 1ª edição do Prêmio VIP de Literatura, da A.R Publisher Editora. É colunista nos sites “Conti outra, artes e afins”, “A Soma de Todos os Afetos”, “Escritos Meus”, “Fãs da Psicanálise”, “A Mente é Maravilhosa” e “O Segredo”.