O relacionamento vai acabando pouco a pouco, muito antes do fim

Carla Rocha

Ninguém sabe dizer exatamente quando é que a coisa começa a desandar, porque parece que é bem mais fácil admitir que acabou quando um dos dois lados finalmente decreta de forma clara o término de uma história. Na verdade, a coisa não funciona bem assim, o relacionamento vai acabando pouco a pouco, muito antes do fim. Vai acabando dia após dia, quando aquele beijo de boa noite parece não ter mais tanta importância, quando os corpos não mais se procuram embaixo no cobertor no meio de uma madrugada fria e quando a gente acorda o primeiro pensamento não é mais aquela pessoa, aí sim é o começo do fim.

Um belo dia não faz mais diferença receber uma mensagem de bom dia, o perfume não aguça mais os sentidos e nem causa mais aquele frisson do início do namoro, muito pelo contrário, aquele cheiro causa um asco inexplicável e te causa uma vontade de lavar todas as roupas e até lençóis de cama. Um belo dia, você percebe que aquela música que sempre tocava no som do carro, agora te causa dores no ouvido. Um belo dia o sorriso não se abre mais ao encontrar aquela pessoa antes tão familiar, muito menos as mãos se entrelaçam em um passeio no fim de tarde de domingo na Avenida Paulista.

Um belo dia aquela presença sempre que você conhecia tão bem, hoje está mais para um mero desconhecido. Um belo dia aquela toalha molhada em cima da cama e a pasta apertada ao meio é o estopim para uma guerra espartana, mas você prefere não ter que lidar com as manias e singularidades do outro.

Um belo dia, a presença do outro incomoda, você não consegue mais olhar nos olhos e percebe algo que não estava ali antes- – tão discreta e imperceptível quanto uma manchinha de vinho no tapete que de tão pequena passou despercebida – e que agora parece um erro gritante. “Isso já estava aqui?” Você se pergunta, mas a resposta é tão clara quanto uma fresta de luz que entra pela janela e bate diretamente no teu olho. Daí você constata que o problema não é o vinho, não é a rotina, nem a pressa ou a falta de tempo. Não é o passado ou o que fomos, somos nós. Acaba que os abraços são frouxos demais; os beijos são mornos e o “Eu te amo” não sai mais.

Então você compreende que ela não cabe mais naquele espaço no canto da cama, não cabe mais no seu sofá e nem na sua vida. E o problema não sou eu ou você. É o presente em que não existimos mais. Um belo dia acaba. Acaba a vontade de estar junto e a vontade de correr para o abraço do outro no fim do dia. Um belo dia você percebe que seria melhor dormir sozinha. E percebe que é hora de decretar o fim, mesmo que já tenha acabado há muito o tempo. Então, um belo dia – ou não tão belo assim – a gente simplesmente acaba.

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Carla Rocha
é Mineira de certidão e paulista de coração. Amante de café, citações e boas histórias. Metade clichê e metade metamorfose ambulante que acredita sempre no melhor das pessoas e acima de tudo no amor que move montanhas e refaz corações partidos.

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